Descortina-se com facilidade um barulho de algo feito em plástico, mas esse elemento representativo, que logo se revelará para além de uma escuridão inicial, não é mais do que o mar. Um imenso mar. O plástico soa, ouvimo-lo, como algo que se enrola e desenrola literalmente, tal e qual as ondas nas marés. Por esta altura as luzes do anfiteatro incidem apenas sobre os espectadores, até que a primeira sucessão de mergulhos permita o resgate… de sal. Simbólica riqueza do mar transportada para terra.

A fantasia é perene em Yeborath, num conjunto de imagens que se sugerem com intenção vagarosa e compassada numa sucessão ritualizada de procedimentos. António Tabucchi, o italiano que se apaixonou por Portugal, e aqui viveu também, acaba por ser o responsável por esta génese criativa que coloca no solo do auditório do Campo Alegre a peça coreográfica que Ana Renata Polónia concebeu, dirige e interpreta e para a qual convidou a bailarina Joana Lopes.

As duas ousam em palco dar corpo à aventura que o caderno de viagens do já desaparecido escritor transalpino (também de nacionalidade portuguesa a partir de 2004) memorizou. Yeborath, a trágica personagem que emerge dessa obra, e que consagra a história de amor contida nesse mesmo livro, foi ouvida numa taberna situada nas proximidades de Porto Pim, nos Açores.

créditos: José Caldeira

O desempenho faz-se da transposição da obra para o palco através de uma incursão no universo de histórias e façanhas subjacentes à vivência do arquipélago e que são possuidoras dessa carga mística, onde a imaginação campeia e a poética das imagens prevalece. Entre a verdade e a ilusão, Yeborath constitui nessa verosimilhança ficcional uma atraente viagem pela luz e pela soturnidade onde os corpos se movimentam, auxiliam e complementam em tom de um subtil erotismo. A jornada quimérica balança entre “a imersão num universo profundo e líquido e o regresso à superfície de uma realidade terrena e seca”, tal como descreve Ana Renata Polónia na folha de sala.

Um dos aspectos mais interessantes sobressai ao longo da peça. Vamo-nos dando conta desse incontornável jogo de contrastes: entre o branco e o preto, a escuridão e a luminosidade, a terra e o mar e uma pulsão, um impulso, para a fusão entre esses pólos aparentemente contrários.

Plasmadas nessa lona feita mar, Ana Renata e Joana Lopes simbolizam as figuras cujo simbolismo se projecta para além do real: entre a dimensão humana e a mitológica. E quiçá na demanda de uma intersecção entre as duas. O sonho e a realidade passeiam aqui de mãos dadas.

créditos: José Caldeira

Em Yeborath conjugam-se os verbos mergulhar e respirar até à exaustão para levar por diante a jorna marinha. Os sacos de sal extraídos ao mar enfileiram-se em terra numa branquidão simbólica e pura de sacrifício e amor. Talvez o amor sacrificado e utópico em que se movem as duas intérpretes que aos olhos dos espectadores são espectros dessa viagem interminável ao longo do eu com o desígnio de encontrar o outro. Talvez a imensidão marítima do oceano oculte em si mesma e a grande profundidade o tesouro dessa descoberta por fazer. A busca, tal como se viu, foi incessante.

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments