Wim Mertens – Espelho sensorial na Casa da Música

Wim Mertens regressou ao nosso convívio por via do Misty Fest, o músico veio acompanhado de uma dupla de instrumentistas de elevado quilate: o violoncelista Lode Vercampt, seu conterrâneo, e a violinista com dupla nacionalidade, russa e belga, Tatiana Samouil. A Casa da Música acolheu assim mais um concerto assinalável no âmbito desta edição do festival.
A noite foi moldada pelo projecto levado a cabo no último registo Dust of Truths, mas houve tempo para ouvir alguns clássicos do compositor como “Iris” ou “Struggle For Pleasure”. A voz bizarra, com frequência em falsete, naquele timbre peculiar agudo que Mertens lhe confere, a articulação com as teclas e a combinação com as cordas soou a roçar a perfeição. A violinista mostrou todo o seu virtuosismo e elegância no espaço que o líder lhe concedeu (e foi muito), entre aquele tergiversar vocal de aparentes monossílabos do compositor: umas vezes mais melódico, outras vezes mais agitado, com recurso ao efeito de martelar os teclados e ir a trote, afinal tão típico do autor belga.

2016_11_06_Wim Mertens_MistyFest Casa da Musica_Sala Suggia
O álbum que reúne temas como “Tunneling”, “More Real” e “Nuanced” vai desfilando em palco e o concerto afirma-se em crescendo notório através do grau de satisfação do público. Copiosa afirmação têm Tatiana e Lode, que ao lado do mestre acabam a brilhar diante da assistência. Aquilo que se ouve combina e sugere um misto de música de câmara, com doses de minimalismo contemporâneo e uma chancela de vanguardismo. Música que flui e nos faz abandonar a cadeira e viajar para um destino sem rumo.
E lá vamos nós, enleados e de braço dado com a sonoridade produzida pelo toque no dominó preto e branco das teclas e pelos afagos melódicos que os arcos produzem nas cordas. O diário de bordo conduz-nos, qual “GPS Musical”, por múltiplos lugares da Grécia Antiga ao Egipto, a essa mítica paragem que dá pelo nome de Alexandria, com passagem por Roma e que afinal consagra a parte derradeira da trilogia “Cran aux Oeufs” cujo álbum Dust of Truths integra e finaliza.
Mertens, qual mestre-de-cerimónias, levanta-se no final de cada tema e caminha em direcção à boca do palco para agradecer. E logo a seguir aponta ao público os verdadeiros destinatários das palmas, os seus mais dilectos colaboradores desta epopeia musical: Lode e Tatiana. A verdade é que se o violoncelista confere profundidade às composições, a violinista soma-lhes um belo quinhão de brilhantismo.
A ordem de grandeza em termos de harmonia musical não se distingue neste concerto em duas partes. Envolvente e intenso, este espelho sensorial prossegue despertando sensações múltiplas nos espectadores. O público rende-se ao sortilégio do trio e pede mais. É quase sempre assim, Mertens continua a deixar um lastro de memória até ao próximo concerto. Desta vez o percurso, em dose tripla, começou em Torres Novas, parou no Porto e seguiu para Lisboa.
O pianista André Barros assegurou a primeira parte do espectáculo na companhia de Tiago Ferreira e deixaram boas indicações. “In Between” provou em palco que, depois de muito trabalho de mãos, também tem pernas para andar.

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