“Viole(n)t” de Meg Stuart no Rivoli – Corpos arquejantes em fundo negro

Os protagonistas são cinco, estão de pé a pisar o linóleo e encostados ao cenário composto por uma faixa preta de plástico a toda a amplitude do palco, em rigor até são seis: duas mulheres e três homens, os bailarinos, e um músico.

Imersos naquela mancha negra que lhes preenche o quadro de contextualização abstracta e minimalista, os intervenientes estão situados, dir-se-ia sitiados, num lugar onde impera o silêncio e a escuridão. Começamos por ver aquelas figuras humanas como se estivessem num jogo de estátuas petrificadas. Muito paulatinamente esboçam-se movimentos ténues com as mãos e em suaves rotações anatómicas.

Um dos bailarinos parece ter entrado em lógica de semafórico (como fazem os marinheiros de navio para navio). As rotações do tronco e da cabeça acentuam-se e as palmas das mãos ensaiam desenhos trémulos, que rapidamente entram em cadência frenética. Brendan Dougherty no canto esquerdo do estrado dá-lhes (dá-nos) música, uma página sonora onde as anatomias se inscrevem com movimentos mais dinâmicos. O espectador é convidado a aderir a uma toada hipnotizante daquela fusão entre a cinética explícita do movimento dos bailarinos e a cadência experimental da electrónica.

Meg Stuart, a coreógrafa norte-americana, arriscou com este “Violet” a ousadia sensorial que decorre no palco e contagia o público, partindo do plano estático para uma ignição corporal que conduzirá a algo desenfreado. O movimento de braços desenha-se na atmosfera espacial e o ritmo sonoro soa imperial naquele experimentalismo mimético de entoação industrial.

Os intervenientes parecem esvoaçar a espaços. E na parte mais intensa do espectáculo permanecem de gatas ou a namorarem a PLS (posição lateral de segurança dos primeiros-socorros) arquejam ofegantes em dilatações corporais.

A bateria soa quase marcial e rasgada por uma energia incontida, os corpos volteiam e ensaiam um movimento tribal. Depois do frenesim, o frémito anatómico entra de novo em fase letárgica, não sem que antes se assista a um momento de sublimação estética perante o olhar de quem assiste. Tal como os bailarinos, são assim os humanos na sua ambivalência existencial: frágeis na sua condição e supremos na energia que armazenam e libertam através da fisicalidade.

João Fernando Arezes

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