Há uma piscina em forma de proa de um navio, um ciclorama que espelha as cores do Estio, cadeiras brancas numa cota mais elevada que se espraiam num relvado de aparência fresca. À boca de cena deparamos também com uma fileira policromática de cadeiras de praia, incluindo algumas do tipo realizador. E gente que se espalha em conversas de circunstância, com copos na mão.

Sim, é este o cenário descrito com o qual o espectador se confronta em “Veraneantes”, a obra de Máximo Gorki, ou se assim o entendermos, no original russo, Maksim Gorki, datada de 1904 (precisamente o ano em que o amigo e dramaturgo Anton Tchékhov faleceu) e que a companhia Ao Cabo Teatro leva à cena no Teatro Nacional São João (TNSJ), pela mão do encenador Nuno Cardoso, com estreia marcada para hoje, 9 de Março e com representações até ao próximo dia 18 do mês corrente.

São-nos dadas a perceber as discussões entre casais, os jogos de sedução, as infidelidades latentes e as concretas, os queixumes e as intrigas de faca nas costas que se evidenciam de par em par. A analogia com “O Cerejal” (1903) de Tchékhov é por demais evidente. Na verdade, trata-se de uma sequela desta mesma obra. Gorki escreveu o texto e as referências ao “mestre da dramaturgia russa” e alguma da inspiração para este ofício foi tributária do amigo entretanto desaparecido. A contemporaneidade dos dois e a afinidade entre ambos redunda em múltiplas semelhanças criativas. Todavia, em “Veraneantes” Gorki é bem menos suave, mais frontal e directo nas críticas (incisivas) à classe média e média-alta.

créditos: João Tuna

Em linha recta com este juízo de Gorki está também Nuno Cardoso que, sem paliativos, assume a comparação crítica, intrínseca à peça, com a actualidade “Esta peça reflecte o que são os dias de hoje. É sobre essa gente bem pensante e do bom gosto, que fala muito e não diz nada!”, atira o encenador, já depois de ter defendido  “Conheço a peça há algum tempo, sempre achei que era o lado B do Tchékhov”.

As farpas do encenador espevitam as comparações cronológicas: “Vemos as pessoas ditas normais a frequentarem as esplanadas de segunda a quinta e, aos sábados, vemos os gestores, essa gente do chamado empreendedorismo”. Recuando para a data da obra, o alicerce de conteúdo de “Veraneantes” versa e sobretudo explora o meio social da dita pequena burguesia em ascensão, dos ‘trepadores sociais’, que moldados a partir das denominadas classes trabalhadoras vão ganhando ênfase na sociedade e espelham novas orientações de pensamento e uma nova atitude na acção política e social (se nos lembrarmos do fenómeno do novo-riquismo lusitano do final dos anos 80 e da década de 90 percebemos em toda a amplitude esta asserção prévia).

créditos: João Tuna

O ócio desta pequena burguesia entra numa espiral gradativa à medida que os personagens e aquilo que representam se dispõe a criar uma atmosfera social implosiva. Os personagens apresentam-se na globalidade como gente que vai olvidando, disfarçadamente, as raízes, as proveniências de classe. Tal como é descrito na nota do espectáculo, Maria Lvovna, uma das protagonistas, sublinha que todos eles mais não são do que “filhos de lavadeiras, de cozinheiros, de gente sadia, gente trabalhadora. Nunca houve no nosso país pessoas instruídas ligadas por laços de sangue à massa do povo”.

Toda esta amálgama de conflitualidade no enredo nos conduz para uma tensão dramática que se encobre nas proverbiais conversas de(o) “recreio”, com as quais estas figuras se enleiam. No seio do contingente de personagens há quem tenha ainda assim a ousadia de não embarcar no complexo da manada, por vezes sem a mais suave compreensão por parte da maioria. É na essência o micro retrato de uma sociedade. E esta está prestes a degenerar em convulsão, como se compreende, e face à data em que a obra foi escrita, “Veraneantes” converte-se uma espécie de vestíbulo para os acontecimentos de 1905, que vieram a dar origem à Revolução Bolchevique de 1917.

A obra seria mal recebida à data da estreia em S. Petersburgo. O perfil mais experimental da companhia que a levou à cena parece também ter contribuído para o insucesso inicial, mas Gorki não soçobrou face às vaias e às más críticas em torno deste seu trabalho. A pretensão do dramaturgo era precisamente mostrar ao espelho aquilo que representavam essa classe média e média-alta mais preocupadas com o seu umbigo do que dar-se conta das suas próprias origens num período de usufruto de bem-estar, enquanto os outros iam vivendo à míngua. A luta contra o czarismo haveria de levá-lo ao cárcere e ao exílio nos Estados Unidos e posteriormente em Itália.

A ‘(in)evolução’ para outro patamar ainda mais drástico do que aquele que se verifica em muitos territórios da ‘Era do Vazio’ em que vivemos é explicada pela expressão prosaica e simples atribuída a um dos mais conceituados juristas brasileiros, Bandeira de Mello “A classe média-alta é invejosa, não se satisfaz em estar bem. Ela quer que os outros estejam mal para se sentir superior”.

Compete ao espectador descobrir as diferenças entre a Rússia de 1904 e o Portugal de 2017, e talvez esse seja o maior desafio proposto em forma de convite para ir ver a peça.

Informação importante:

A interpretação de Veraneantes está a cargo de Afonso Santos, António Parra, Carolina Amaral, Cristina Carvalhal, Dinarte Branco, Iris Cayatte, João Melo, Joana Carvalho, Margarida Carvalho, Maria João Pinho, Mário Santos, Nuno Nunes, Pedro Frias, Rodrigo Santos e Sérgio Sá Cunha.

Encenação- Nuno Cardoso/tradução- António Pescada/cenografia- F. Ribeiro/desenho de luz -José Álvaro Correia/ música e sonoplastia- Pedro Lima/movimento- Marco da Silva Ferreira assistência de encenação- Pedro Jordão/ produção executiva- Sandra Carneiro.

Coprodução Ao Cabo Teatro, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Nacional D. Maria II, TNSJ Duração aproximada 02h40 com intervalo M/12 anos English subtitles Língua Gestual Portuguesa – 12 março/ domingo às 16:00 preço dos bilhetes € 7,50 – € 16,00

Temporada de 9-18 março. qua 19:00 qui-sáb 21:00 dom 16:00

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