Unknown Mortal Orchestra no ‘Hard… Disco… Club’

Os Youthless entraram no palco do Hard Club passava pouco da hora marcada (20h00), para abrirem as hostilidades. Uma boa meia hora de prestação profissional, que foi digna de um mestre-de-cerimónias a preceito, deve dizer-se em abono da verdade. Alex Klimovistky, um nova-iorquino que vive em Portugal uma parte significativa do seu tempo, bem como um inglês, Sebastiano Ferranti, cujas circunstâncias de vida são bastante análogas à do parceiro da banda dão corpo a uma sonoridade com o seu quê de electrizante. Deixaram boas credenciais.

Eram 21h10 quando as luzes da sala se apagaram para que o palco da sala portuense  acolhesse os ansiados Unknown Mortal Orchestra, ‘a banda cujo ADN comporta genes norte-americanos e neozelandeses’ entrou a matar com “Like Acid Rain”, do mais recente álbum Multi-Love, de 2015. O som que enche a sala, já de si muito preenchida de gente, sai sujo, ainda mal calibrado. Mas ainda assim, soa logo ali a algo Motown. O calor grassa. As luzes vermelhas acentuam-no ainda mais. Fica-se a perceber a liderança de Ruban Nielson, é um virtuoso da guitarra e possui uma voz com um timbre singular.

Ao segundo tema, num intróito dedilhado da guitarra de Ruban, o público dedica-lhe uma salva de palmas, que é desde logo signo de aprovação colectiva. “From the Sun” (álbum II/2013) vai correndo num fluir experimental e logo afina pelo diapasão rítmico mais acentuado, os focos brotam feixes convergentes e divergentes de luz, numa descarga luminosa que banha o vocalista e os restantes membros da banda. Um solo desenfreado do líder com a bateria de Riley Geare a entrar em erupção cadenciada e os teclados de Quincy Mc Crary, possuidor de uma esfinge digna de figurar entre um Ray Charles e um Stevie Wonder, a emergirem no final do tema. Será de lembrar que o teclista arrebatou um grammy obtido ao serviço dos Quetzal.

The Unknown Mortal Orchestra performs live at Hard Club in Porto

How Can You Luv me, do seminal e homónimo da banda “Unknown Mortal Orchestra” (2011) ecoa logo a seguir, o ritmo é frenético no momento inicial, a voz característica de Ruban confere-lhe a matriz sonora ideal a decalcar as notas, tudo isto enquanto uns focos despejam o combinado de cores da nossa bandeira nacional por sobre o palco. Ruban não descansa enquanto não brinda o público com mais um magnífico solo e a bateria de Geare vai no seu encalço, o baixo de Jake Portrait prossegue na sua sobriedade profissional, mas a fazer-se sentir, vai ser sempre assim até ao final do tema.

E na ‘caixa de velocidades’ do concerto, os músicos metem a quarta, que o mesmo é dizer “Ur Life One Night”, do derradeiro Multi-Love, e nela se deslinda algo de influência oriental mas com a mesma vibrante sonoridade a cativar para a dança. O público dá notórios sinais de começar a ficar conquistado. Ruban apresenta nesta altura o contingente musical que integra os UMO. “Thought Ballune” entra em seguida e continua a agitar a mole humana. “The World Is Crowded” é uma das novas, também ela muito dançante, com a voz de Ruban a insinuar-se na paisagem sonora, uma parte do cenário dourado nas traseiras torna-se brilhante quando os feixes de luz incidem sobre ele. Uma incursão virtuosa nas teclas, por parte Quincy (but not Jones), a que se soma uma grande ‘guitarrada’ de Ruban, conferem um resultado potente ao rodapé do tema.

O concerto vai a meio e entra ‘a mais clássica’ das músicas da banda, o hit  “So Good at Being in Trouble” (álbum II/2013), para gáudio, e alguma histeria, diga-se de passagem, dos que assistem. O imenso calor que se faz sentir associado à música em questão faz desejar uma praia, tal é a boa onda que se instalou. O baixo de Jake sobressai a espaços, os teclados dão um ar da sua graça através de uma sequência quase em “motivação espacial” e aqui o colectivo, que como se percebe toca este mesmo tema  centenas vezes nas digressões, parece querer dar-lhe atributos de um registo mais jazzístico. Acabam com um prolongamento mais instrumental, que faz as delícias do público quase em toada de rhythm and blues.

Sempre em crescendo, o concerto vai deixando para memória futura a excelente formação musical dos intervenientes e a marcante prestação de Ruban Nielson a extrair sons surpreendentes da guitarra. As teclas de Quincy, a batida de Geare e o baixo de Jake revelam uma conformidade harmónica de quem faz jogo de equipa ‘nos treinos’ e aparece em grande forma ‘nos jogos’ e mostram bravura no desempenho: “Swim and Sleep (Like a Sharp)” é a prova cabal disso mesmo.

As luzes arroxeadas que se anunciam por cima do estrado antecipam “Stage or Screen” (de Multi-Love/2015), há momentos em que Ruban se despoja da guitarra e parece desaparecer do palco, mas logo surge em aprimorados “paso dobles” corporais a animar a plateia. Em “Ffunny Ffriends” (também de Multi-Love) são os teclados a viver um ‘isolamento temporário’ em pleno palco, um pouco mais tarde junta-se a bateria à contenda musical.

E quando se começa a adivinhar o final do espectáculo, a aposta da banda espelha um vigor e uma pujança rítmica ainda mais acentuados: começa com aquela sonoridade nos teclados que se assemelha ao toque de um realejo, há um solo a explodir da guitarra do vocalista, a provar uma vez mais o quilate do domador de guitarras, um estatuto que assenta bem a Ruban. E é assim que Multi-Love deixa cair o pano no concerto, não sem que antes deixassem de anuir a um previsível encore solicitado pelo público e que foi portador de “Necessary Evil” (Multi-Love/2015), talvez o tema com o som mais limpo de toda a prestação musical. A entrada é fulgurante e a cadência mobilizam à dança, adesão é completa e há um contágio notório nas movimentações anatómicas da audiência: toda a gente se abana, os serviços mínimos ficam no agitar das cabeças.

“Can’t Keep Checking My Phone” continua a agitar as hostes, a bateria está arrasadora, há palmas sincopadas a acompanhar o ritmo e o espaço converte-se num “Hard Disco Club”. Ruban acaba a celebração sónica de guitarra em riste e os fiéis demonstram a sua veneração com uma extensa salva de palmas.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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