“Und” d’As Boas Raparigas no Rivoli ou The Woman in Red… À Espera de Godot

O Global News foi espreitar um dos ensaios de “Und”, a obra de Howard Barker que a companhia “As Boas Raparigas vão para o Céu, as más para todo o lado” decidiu levar à cena pela mão de Rogério de Carvalho, com Maria do Céu Ribeiro a assumir as rédeas na interpretação do monólogo.

No palco do auditório Isabel Alves Costa – IAC, no Rivoli, “Und” surge elegante no porte, impecavelmente vestida de vermelho, uma indumentária com uma aparência distinta, naquilo que à primeira vista pode configurar um vestido cujo corte possui a suavidade de um design com algumas linhas orientais.

Após uma pausa, o fôlego para o texto memorizado sai da boca da actriz, que está de costas para o público. Um tabuleiro de chá com duas xícaras testemunha a espera desta mulher por um homem de identidade desconhecida. Durante todo o tempo parece exercitar uma dissimulação da sua condição de judia com um disfarce de aristocrata.

O espelho algo baço, difuso, que Und tem defronte a si, reflecte uma figura em que campeiam a ansiedade pela chegada do estranho e o misto de sentimentos contrastantes de amor e medo que esta visita lhe suscita. Talvez por isso o espelho traduza a duplicidade de sentimentos côncavos e convexos que lhe vão na alma. As cambiantes de luz, da responsabilidade de Jorge Ribeiro, ajudam a destacar aspectos mais valorativos na sucessão dos diversos momentos em cena. Ouve-se uma campainha com sucessivos toques quase compassados e o som timbrado de vidros partidos.

pp_und_01O discurso jorra-lhe como uma torrente fluída de onde emerge uma solidão que nos remete para a possibilidade da eventual inexistência do desconhecido por quem Und diz esperar. Quem sabe?

No final, ‘já desencarnada’ e saída daquele transe, aquela espécie de limbo, que decorre do processo de metamorfose entre o personagem interpretado e da actriz enquanto pessoa, Maria do Céu Ribeiro acedeu a responder a algumas perguntas formuladas pelo Global News e outros órgãos de comunicação social, que se encontravam presentes no Rivoli e que aqui reproduzimos para melhor assimilação daquilo que “Und” representa como personagem e espectáculo.

Qual a preparação para a personagem?

Nós começamos por trabalhar essencialmente só eu e o Rogério no levantamento das situações do texto, a descodificação da cena. É um texto um bocadinho complexo a esse nível porque não tem uma narrativa linear, ou seja, a situação concretamente não é muito definida e portanto nós tivemos de fazer um levantamento do que está por detrás daquilo que é dito, apoiando-nos bastante nas didascálias que o autor indica, e procurando, pelo menos da minha parte, descodificar e definir aquilo que não é dito. Porque há muita coisa que não é dita, porque o discurso é muito interrompido. Porque há muitas frases que ficam inacabadas e portanto tive de encontrar uma maneira de criar a rede para isto ser possível e então depois fazer uma espécie de fragmentação do que falávamos no outro dia. Porque o texto, não só ao nível das frases mas também ao nível, digamos assim, dos temas que se vão desenvolvendo ao longo do discurso são vários e estão sempre a cruzar-se uns com os outros e portanto foi um processo um bocadinho longo e exigente para chegarmos a esta definição que temos.

pp_und_05Que mulher é esta?

Isso é muito complicado de responder. Há uma indicação na contra-capa do livro da edição que temos deste texto, entre outras, que apresenta uma pequena sinopse na qual ela é revelada. Eu não sei se esta sinopse é de Barker ou se é do editor, até porque não está assinada. Mas é uma belíssima sinopse e no final diz que ela é judia e que ele é um oficial nazi. A nós, esta sinopse deu-nos alguma segurança quanto à direção que o texto aponta. Porque depreende-se no discurso que ela descreve um homem com traços militares, algo guerreiros, apesar de ao mesmo tempo estar a inseri-la numa paisagem, que me parece a mim, que pode ser uma praça europeia em tempo de paz e ela própria, ao longo do texto, diz mais que uma vez que é judia. Portanto, até que ponto é que…  normalmente as personagens do Barker não costumam mentir. Eu creio que aqui não se trata de uma mentira também. Quando ela diz que “não sou aristocrata, sou judia”, eu julgo que não se trata de ela se fazer passar por alguém de uma classe superior. Eu tenho a sensação que ela tem uma base social elevada. Portanto não se tratando tanto de aspirar a subir socialmente e isso ser uma falsidade, creio mais que tem a ver com o nível social que eu creio que é relativamente verdadeiro mas que por ser judia tem as consequências que nós conhecemos todos.

A relação com o espelho. Como é que isso se explica?

Eu não sei como é que se explica. Aliás, quando uma vez o Barker veio cá e viu um dos nossos espectáculos com o texto dele e quando nós lhe perguntávamos isto ou aquilo, ele dizia: “Olha, vocês fazem o que quiserem!” Portanto, ele é um autor muito ambíguo, que tem um universo muito próprio. Já estamos com Barker, creio que estamos para lá de Brecht, de Beckett, portanto todas estas escritas contemporâneas, das ditas pós-dramáticas e portanto ele serve-se também por questões artísticas e políticas, obviamente. Ele serve-se de um leque de sinais do universo dele e que aparecem aqui. A fragmentação, a questão do espelho não é a primeira vez que aparece numa peça do Howard Barker. O espelho é sempre um elemento teatral por excelência. Temos sempre o outro lado do espelho também. Temos o real e o nem por isso. E estas ambiguidades, muitas vezes contradições, que são também outro aspecto do universo do Barker, vão aparecendo. Esta questão, por exemplo, das contradições é muito notória nesta peça. Há criados ou não há criados? Estão mesmo a tocar à campainha ou é ela que está a fantasiar? A uma dada altura dos ensaios falava sobre isso. Há coisas que ela diz que me parece que são concretas, que são fisicamente verdadeiras e acho que há outras que ela ficciona ou para a frente ou para trás, para o passado. Se ele existe ou não, sabermos se ele está vivo ou não, se ela o inventou. Há aqui uma espécie de intriga. Fica tudo muito em aberto. Aquilo que para nós é importante, é evidentemente esta questão do trauma que lhe fica de um assunto e de um tema muito complicado na nossa história. Acho que essa questão é a mais relevante para nós.

Para ver até 17 de Dezembro no Rivoli/Teatro Municipal do Porto – Quinta (15) e sexta (16) às 21h30; sábado (17) às 19h00.

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