UMA VISÃO DIREITA: “Uma história de vida…”

Hoje, neste meu pequeno espaço semanal, resolvi contar-vos uma história. Uma história de uma mulher a que daremos o nome de Maria.

Ora, a Maria vivia com José e com os seus três filhos num apartamento propriedade de ambos em Guimarães. A Maria era gestora de marketing numa grande empresa e ganhava 2.500 € por mês e o José era técnico informático, também de uma grande empresa, auferindo também ele cerca de 2.500 € mensais, em média. Tinham três filhos: o Lino, o Augusto e o Pedro. Os dois primeiros frequentavam a universidade de Lisboa e o Pedro frequentava o secundário em Guimarães.

A família vivia bem. Num apartamento onde nada faltava, desde os bens materiais mais básicos até equipamentos eletrónicos de algum luxo, poder-se-á dizer. Almoçavam e jantavam em restaurantes aos Sábados e Domingos em restaurantes. Ele tinha um BMW e ela um jeep Range Rover. Tinham férias duas vezes por ano, uma das quais faziam sempre no estrangeiro.

Para além disso José saia bastantes vezes com os amigos, em jantares nos restaurantes mais “in” da cidade do Porto e por vezes dava uma fugazinha ao Casino, onde gastava uns “poucos de euros” nas “slot machines”.

A manutenção deste tipo de vida levava a que o casal apenas tivesse conseguido juntar, em determinado momento da vida, meia dúzia de milhares de euros, que guardavam numa conta a prazo.

Eis que os dois filhos mais velhos, como já referido, Lino e Augusto, foram estudar para Lisboa. Um para a Universidade Católica de Lisboa (Privada, claro está) e outro para o Técnico. José, o Pai, achava que os seus filhos podiam e deviam manter o seu nível de vida. Assim sendo arrendou um apartamento T2, bastante recente, no centro de Lisboa e deu um carro de gama média aos seus filhos. Um VW Golf, TDI, preto. Eles não poderiam andar de transporte público, até porque a isso não estavam habituados em Guimarães.

Com os seis mil euros que tinham conta a prazo, compraram todo o mobiliário para o apartamento de Lino e Augusto, incluindo uma televisão LED de 48 polegadas para a sala e duas de 32 polegadas, uma para cada quarto dos filhos.

Com o pagamento de propinas, arrendamento, despesas pessoais com alimentação, vestuário e propinas, Maria e José começam a sentir que o dinheiro que ganhavam mensalmente não chegava para os gastos. Maria achava que deveria arranjar um emprego adicional em part-time para fazer face às despesas. José disse a Maria que estava habituado a determinado padrão de vida e não o queria deixar e para não se preocupar que tudo se resolveria, pois tinha um tio solteiro, sem filhos e já com alguma idade, que tinha muito dinheiro e que um dia lho deixaria todo.

Assim sendo, José convenceu Maria que era preferível pedirem um empréstimo ao banco, dando como hipoteca o apartamento de ambos. Mais lhe disse que o dinheiro serviria para manter o seu padrão de vida e que não se preocupasse que ele tinha tudo controlado.

Foi então que José e Maria contraíram um empréstimo de 150.000 €, dando de hipoteca o seu apartamento como garantia.

Mal recebeu o dinheiro, José trocou o seu BMW por um novinho Jaguar que já andava a namorar a algum tempo.

Mais decidiu deslocar-se a uma loja da Apple e comprou um portátil novo para si e quatro IPAD da nova geração (um para si e um para cada um dos seus filhos). Mais resolveu oferecer dois cheques compra a cada um dos seus melhores amigos, já que entendia que eles se precisavam de modernizar e necessitavam que alguém os incentivasse a usar as novas tecnologias. Resolveu comprar a terceira bicicleta para o seu filho mais novo Pedro. Mais decidiu oferecer uma semana de férias da Páscoa no Dubai a cada um dos seus filhos universitários e decidiu presentear Maria com uma semana de Férias em Búzios, no Brasil, num Hotel 5 estrelas, que já era conhecido de todos os seus amigos que lá foram num congresso.

José continuou a comprar a sua roupa de marca, tal como Maria e os seus filhos. José não deixou as suas farras com os amigos e a família continuava a ter as suas refeições de fim-de-semana nos restaurantes de sempre.

Certo dia o irmão de José, que ia sabendo da sua vida, questionou-o como ele conseguia manter o seu padrão de vida sem que tivesse que trabalhar mais ou sem que ele ou Maria tivessem arranjado qualquer outra fonte de rendimentos.

José respondeu-lhe do alto da sua serenidade “não te preocupes, meu irmão, eu sei o que faço. O dinheiro que gasto é um investimento no futuro. Está tudo controlado”.

Mas eis que o dinheiro que José e Maria pediram emprestado começa a acabar. Maria começa por avisar José que, a continuar assim, teriam de abdicar de parte do seu estilo de vida pois agora tinham de pagar o empréstimo e se nada fizessem, a coisa correria mal.

Mas José diz que tem a solução. Que só precisaria de 30.000 € e que o conseguiria com três empréstimos de 10.000 € cada, nas empresas de crédito fácil. Dizia José a Maria que tudo era uma questão de tempo e que o seu tio lhe passaria parte da sua fortuna. Que a dívida que tinham estava controlada e que a qualquer momento se resolveria. Disse mesmo que iria fazer algumas parcerias com alguns amigos, num investimento em alguns negócios. Que ela não se preocupasse pois não teriam que fazer qualquer investimento inicial e que apenas teriam de dar o seu aval bancário. Mas que não se preocupasse, que os amigos eram de confiança e que os negócios dariam bastante lucro, pois tratavam-se de negócios da China e que o aval nunca seria accionado.

E assim fizeram… Contraíram os três empréstimos e nada na vida da família mudou.

Mas cada vez a situação começava a ficar mais apertada. Maria discutia cada vez mais com José, dando-lhe conta de que ele a havia enganado e que a situação financeira começava a ficar preocupante. José prometia que tudo se resolveria e que não se preocupasse.

Mas Maria começa a desconfiar bastante de José. Sempre confiou nele para gerir as finanças de casa e agora via a casa desabar. Via que José continuava a manter as suas farras com os amigos, a comprar as suas roupas de marca e os seus hábitos de casino.

A situação financeira da família degrada-se. A situação amorosa também. No entanto num, golpe final, José reconhece perante Maria que não era possível manter o pagamento das prestações dos créditos e que seria necessário encontrar quem os financiasse no sentido de consolidar todos os empréstimos num só e a uma taxa mais simpática, a longo prazo, de forma a que a prestação mensal fosse mais baixa e que lhes permitisse, ainda assim, não baixar o seu nível de vida. No entanto, em face da situação financeira caótica em que se encontravam, nenhum banco os ajudou.

Mas José tinha um amigo, Manuel, que tinha algum dinheiro. Que se predispunha a emprestar-lhe o dinheiro para José e Maria, dando estes também a hipoteca do apartamento, mas desde que eles estivessem dispostos a fazer sacrifícios, nomeadamente, deixar os jantares, trocar os automóveis por veículos mais modestos, fazerem as refeições de fim-de-semana todas em casa, etc, etc de forma a lhe fazerem o pagamento..

Ora, entre a espada e a parede, José resolveu aceitar, sendo certo que Maria já há muito que se tinha convencido que não havia outra solução que não a de cortar nos gastos. Recebido o dinheiro do amigo, pagos os créditos às entidades financeiras, José começa a sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido. Maria discutia com ele todos os dias, dizendo que deveriam cumprir com o que estabeleceram com Manuel.

Maria batalhou e obrigou José a cortar nas suas farras e vícios, nos seus gastos e nos seus luxos, mas José barafustava sempre que tal acontecia. Maria cada vez mais percebia que o seu marido, mais do que uma ajuda, seria sempre o avolumar dos seus problemas e o comprometimento do seu futuro e dos seus filhos. Em face disto, pediu a José sair de casa, pois já não o queria mais para companheiro.

José não aceitou de imediato. No entanto, ao ver a irredutibilidade de Maria, não teve outra solução que não a de sair de casa, não sem antes deixar a promessa de que tudo faria para em nada comprometer o pagamento dos empréstimos assumidos.

Entretanto Maria apaixonou-se por Vítor, um namorado dos tempos de escola e que sempre viveu apaixonado por ela, responsável e trabalhador, alguém que a compreendia e gostava dos seus filhos. Vítor começou por ajudar Maria, dando-lhe vários conselhos em como esta deveria administrar a casa e assim cumprir os seus compromissos. O que deveria cortar. O que não deveria fazer.

Entretanto Vítor e Maria decidiram viver juntos. Maria pediu-lhe para ele a ajudar financeira e economicamente, de forma a que pudesse cumprir as suas obrigações e responsabilidades para com Manuel. José, esse, desapareceu e deixou de contribuir para o pagamento do empréstimo.

Tendo Vítor tomado a rédea das coisas, desde logo vendeu o automóvel dos filhos mais velhos, porque mais não eram do que um luxo. Cessou o arrendamento do apartamento T2 dos universitários Lino e Augusto e alugou um quartinho decente para ambos num apartamento que passaram a partilhar com dois colegas conhecidos. Vendeu o mobiliário que tinha comprado para a casa arrendada dos universitários e também duas das televisões, pois eram completamente desnecessárias.

Instituiu que as refeições ao fim-de-semana deveriam ser feitas em casa, sendo que uma vez por outra iriam ao restaurante e fariam um passeio ao sábado ou Domingo, sem dormidas em hotéis.

Vítor não só fez isso, como também se predispôs a contribuir com o seu vencimento para as despesas com os seus enteados.

Maria voltou a poder cumprir com o pagamento das prestações com Manuel, pagando religiosamente as prestações a que se propôs. No entanto Lino e Augusto começaram a reclamar. Apesar de Maria e Vítor lhes explicarem que teriam de fazer alguns sacrifícios e que não poderiam ter a vida que lhes foi proporcionada pelo Pai, em virtude da situação caótica em este os pôs, Lino e Augusto não compreendiam e exigiam da Mãe aquilo que sempre lhes foi proporcionado, estando revoltados por lhes ter sido tirado o carro.

Pedro, o mais novo, também reclamava. José o Pai, ninguém sabia o que era feito dele.

E Vítor continuou a cortar algumas despesas. Cortou nas “internets” que todos tinham individualmente nos IPAD. Cortou na TV Cabo, que tinha SporTV, Telecines e todos os restantes canais, mantendo no entanto um pacote alargado de 40 canais.

E assim foi. Vítor e Maria eram agora um casal. Sentiam-se felizes por serem sérios e honrados e poderem cumprir com os seus compromisso e com as suas obrigações. Manuel tinha Maria em boa conta e até se disponibilizou para num mês ou outro não receber a prestação, no caso de aperto da família, pois compreendia que estavam no caminho certo e que por vezes existiam despesas extras (livros ou vestuário para os filhos) que poderiam complicar um dos esses do casal.

No entanto, os filhos começam a insultar o padrasto Vítor, que este era um ladrão, que lhes roubou aquilo que eles tinham de melhor. Diziam que queriam regressar aos tempos do Pai José, pois este sempre lhes proporcionou uma vida condizente com aquilo que ambicionaram.

Insultavam Vítor quando este lhes aparecia pela frente em casa e diziam mal dele junto dos seus amigos. Ele, Vítor, é que era um autêntico ladrão, que lhes tinha roubado as próprias vidas. Mais insultavam Manuel, que havia emprestado o dinheiro a Maria, pois estava a obrigar a mãe a determinados comportamentos e asfixiava a família com as prestações que exigiam.

E eis que do nada aparece novamente José. Ao lado dos seus filhos, apontando o dedo a Vítor pelo que estava a fazer aos seu filhos. Que era desumano. Que se fosse com ele nada disto tinha acontecido. Que Vítor era incompetente e não tinha capacidade para gerir uma casa. Mais ainda enxovalhou Manuel, dizendo que o acordo que tinha feito com ele aquando do empréstimo, afinal não fazia qualquer sentido e que esse acordo só servia para asfixiar os seus filhos. Apesar de nada contribuir para o pagamento do empréstimo, ainda exigia a Maria que voltasse para ele, pois Vítor apenas os soube meter num buraco. E exigia que os seus filhos voltassem a ter uma vida mais faustosa. Não tanto como antigamente, mas perto do que faziam, com pequenos ajustes…

Mas Maria continuou com Vítor. Queria pagar o empréstimo a Manuel para garantir a sua casa, para poder ter mais liberdade e dinheiro para as suas despesas e voltar a ter credibilidade no banco, para então poder fazer algum empréstimo para qualquer necessidade que lhe aparecesse.

Esta é uma história que muitos conhecem. Nas histórias nós tomamos sempre a parte de uma das personagens, quer porque simpatizamos mais com ela, quer porque nos revimos nos seus atos, quer porque são mais parecidas connosco.

Não tenho dúvidas que, nesta história, me identifico com Vítor… O problema é que, o que eu sinto, é que há pessoas que ainda se identificam muito com José ou com os seus Filhos Augusto, Lino ou Pedro e isso preocupa-me e outras que nos querem fazer crer que o seu caminho é o caminho correto.

Não quero dizer mais nada. Fica para reflexão…

Uma história de vida…

Até para a semana

Rui Barreira
(escreve às quintas-feiras)

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