UMA VISÃO DIREITA: Os verdadeiros artistas

Caro leitor,

Garanto-vos que não queria falar sobre este assunto, porque pensava eu que o País já estaria vacinado contra este tipo de situações em face dos sacrifícios que fomos e somos obrigados a fazer perante os desvarios da esquerda, nomeadamente do Partido Socialista.

Mas não. Ainda não estamos livres desta forma de pensar, desta forma de agir, como não estamos livres de que muitos portugueses a sigam, embora sejam os primeiros a apontar o dedo à austeridade e aos cortes efetuados.

Falo obviamente do “Mirógate”, tamanha a dimensão que o assunto já tomou, mesmo internacionalmente, motivado por providências cautelares promovidas por 5 deputados socialistas, entre eles uma ex-Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas e pela evocação das obras de Miró a assunto de primeira importância por parte da oposição.

Qual o fundamento?

As obras de Joan Miró, pertença das sociedades criadas no âmbito do Ministério das Finanças para recuperar créditos do BPN, são “um acervo que não deve sair do património cultural do país”, um “tesouro nacional”, como diz António José Seguro “uma questão nacional”, como diz o Diretor do Museu Berardo “a não classificação das obras e o leilão que se vai realizar pode ser encarado como um passo na perda de soberania” e que as obras de Joan Miró até poderiam, a prazo, poder vir a render bem mais do que os 36 milhões que, no mínimo, renderiam os “Mirós” em Leilão.

 Esbulhemos” então os argumentos de todos eles. Um a um, para que no final não me restem dúvidas quanto à oportunidade da venda ou não das obras e que fiquem todos esclarecidos quanto à minha opinião pessoal, independentemente de qualquer decisão do Governo ou tomada de posição do CDS.

Como já sabem, defendem agora estes socialistas que estas obras são tesouro nacional e inalienável, que as deveremos manter a todo o custo, apresentado o argumento de que os que defendem a venda têm a visão curta, pois a exposição das obras de Miró poderia vir a render bastante mais e entre os quais estão ex-membros do Governo do PS e entre eles, repito, está Gabriela Canavilhas, ex-Ministra da Cultura de 26 de outubro de 2009 a 21 de junho de 2011.

Repararam bem? Foi Ministra da Cultura entre outubro de 2009 e junho de 2011. As obras de Miró foram nacionalizadas aquando da nacionalização do BPN, em novembro de 2008. Leram bem, novembro de 2008. O que fez Gabriela Canavilhas a este “espólio nacional”, “sagrado tesouro”, “acervo de cultura” de Portugal? Nada, simplesmente nada. Deixou-os a adornar um qualquer local desconhecido de todos nós dentro da CGD, às escondidas de todos esses “charters” de especialistas e observadores de pintura e de todos os portugueses, que viriam a adorar as obras de Miró e pagar balúrdios nas entradas dos museus ou das exposições.

Três anos nas mãos dos Governos socialistas e o espólio “não transacionável, de valor patrimonial e cultural incalculável” para Portugal, não teve direito a uma sequer ação daqueles que hoje são os “verdadeiros artistas” desta triste cena.

Mas ninguém fala disso. As obras de Miró viveram no anonimato durante 6 anos. Portugal e a cultura portuguesa viveram sem elas durante estes seis anos, apesar de as poderem usar e usufruir delas. Mas agora que saíram do armazém para uma leiloeira britânica, para serem vendidas pelo mínimo de 36 milhões de euros e não termos, nós todos, de dispor de mais esse valor, por meio dos nossos impostos, para pagar mais lixo BPN e aí estão os “verdadeiros artistas” de volta.

Sim, porque se não se vende a obra, isso tem custos para todos nós. No mínimo 36 milhões de euros deixariam de ser pagos pelo Orçamento de Estado na cratera do BPN e se a obra fosse vendida por mais, significaria menos sacrifício do Orçamento de Estado e consequentemente de todos nós. É uma ínfima parte da cratera? É, sim senhor. Mas é precisamente por este pensamento, por nunca darem ouvido às migalhas no Orçamento de Estado, que fizeram um pão recordista de défice. E é por isso que estou farto de ouvir estas pessoas para quem a dívida nunca é problema. Para estes, primeiro não se vendem as obras e depois logo se vê como se pagam os 36 milhões que estão em causa. Para estes, fala-se em nobreza e patrimónios culturais para expor em museus ou salas de exposições, que elas começariam a render no dia seguinte, com a atração de “charters”, não de chineses, mas de especialistas em arte e pintura.

Para estes, o Museu Berardo não foi criado por eles, para expor as obras que o então magnata detinha, que apesar de avaliadas por esta mesmo leiloeira em 367 milhões de euros, só consegue ter pessoas com entrada grátis e que apesar da sua “enorme atratividade” conforme definido por eles, recebeu só entre 2008 e 2010, do governo socialista e desta ex-ministra que agora barafusta, a módica quantia de 13,3 milhões de euros de apoios financeiros públicos, verba essa que representa 83,7 por cento do total de proveitos da instituição.

Ou seja, pagamos a peso de ouro uma exposição de arte ao Comendador Berardo, que afinal está falido, mas que apesar de estar falido está interessado nas obras do Miró que valem, no mínimo 36 milhões de euros, se calhar na esperança de que um dia o PS volte ao Governo para lhe alugar o “acervo” a peso de ouro, enquanto deve à CGD muito dinheiro e cuja dívida está garantida pelas obras que estão no museu.

Museus, exposições, a nossa cultura portuguesa, os monumentos, a nossa história. Sim, aí devemos preservar.

Agora gastar 36 milhões de euros por obras de um artista catalão, por mais valiosas que elas sejam, quando andamos a pedir os sacrifícios que se pedem aos portugueses, é coisa que não lembra ao diabo.

Sim, porque o que acontece é que se o Estado não vender os quadros de Miró, gastará os 36 milhões no pagamento à CGD, o que significa algo que é a mesma coisa do que agora digo, mas visto de um prisma diferente: o que diria o leitor e os socialistas da providência se o Governo decidisse, hoje mesmo, rumar a uma leiloeira britânica e comprar 36 milhões de euros de obras de arte de um pintor chamado Joan Miró? O que diriam?

A coisa mudou radicalmente para si ou mantém-se?

É que eu só pus a lupa noutro local. O valor a gastar é o mesmo. As obras são as mesmas. O artista o mesmo. O dinheiro o mesmo. E os pagadores, claro, os mesmos, ou seja, todos nós.

Agora digam-me o que pretendem: Ficar com as obras e pagarem do vosso bolso? Ou deixar ir as obras e não termos de levar com mais uma migalha de sacrifício?

Porque os gastos com as obras não se confinam a 36 milhões de euros. Sim, porque não basta pregar pregos na parede para pendurar. Haveria quem tivesse de estudar, analisar, inventariar, manter, acondicionar, catalogar e expor tais obras.

E esta, perdoem-me, é mais uma à boa maneira daqueles que gostam de andar de Ferrari, mesmo que não tenham dinheiro para o seguro do carro.

E o que mais me surpreende é que a maioria das pessoas que concorda com esta posição (a dos que defendem a manutenção das obras em Portugal a todo o custo) são aqueles que estão na linha da frente das críticas ao Governo quando este é obrigado a medidas de austeridade em virtude de desvarios destes. 

Recordo-me bem das palavras de Teixeira dos Santos aquando da nacionalização do BPN: “não deverá ter um impacto «significativo» nas contas públicas”. E agora vejo “os verdadeiros artistas”, em palcos diferentes, mas com as mesmas manias e o mesmo discurso. Os quadros também não teriam qualquer impacto no orçamento português.

Já vi este filme… e não o quero voltar a ver.

É, meu caro leitor… Foi esta gente que nos meteu na bancarrota. E pelos vistos não desarmam.

Quando um País na nossa situação, tem de andar a discutir se vende obras de Arte ou vai mais uma migalhinha ao bolso dos portugueses para ficar com essas obras de arte, estamos entendidos.

Sugiro que aqueles que acham que se conseguiria fazer render as obras mais do que estes 36 milhões em pouco tempo, que procurem uma equipa de investidores ou que vão propor o negócio ao Belmiro de Azevedo ou ao Alexandre Soares dos Santos, dizendo-lhes que conseguem rentabilizar o negócio a médio prazo. Vão lá, que vão ver a velocidade a que são corridos.

Têm a alternativa de ir ao Berardo. Pode ser que esse esteja interessado em comprar, mas se calhar só no caso de a própria CGD lhe emprestar o dinheiro.

Haja respeito pelos portugueses e pelos seus sacrifícios.

E venda-se lá as obras de Miró, porque quem não tem dinheiro não tem vícios, excepto para os verdadeiros artistas.

Até para a semana, 

Rui Barreira

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