UMA VISÃO DIREITA: O monstro… A vida à volta do cancro

Caro leitor,

Hoje falarei do “monstro” como lhe chamou um amigo de faculdade. Falarei de cancro mas não na perspetiva da doença. Antes na perspetiva de quem vive ao lado dos portadores do “monstro”. Em respeito por muitos que lutaram e não o conseguiram vencer. Com esperança, motivação e boa disposição para todos aqueles que lutam para o conseguir vencer e um sorriso enorme de satisfação e alegria por todos aqueles que conseguiram derrota-lo.

Muitos se perguntarão a que se deve a oportunidade deste tema e porque resolvi dedicar-lhe a minha crónica semanal. Muitos outros sabem e não se perguntarão, infelizmente, sobre a pertinência ou interesse deste tema, porque como diz uma amiga minha: “quem atravessa a estrada sabe como é? Certo?”

Confesso que pego no tema porque tenho pessoas próximas que lutam neste momento, sem poder fazer grande coisa contra o “monstro”. Porque tenho quem luta neste momento e sente que conseguiu vencer o “monstro”, após uma cirurgia que correu extraordinariamente bem. Porque tenho quem lutou e não conseguiu vencer, num processo que acompanhei bem de perto e que foi bastante doloroso. Também porque vi a entrevista de Manuel Forjaz à TVI24, do dia 29 de janeiro (a ver no youtube, imperdível). E porque assisto a relatos verdadeiramente impressionantes, de pais que veem os seus filhos a passar pelo IPO e que merecem tudo aquilo de melhor que a vida lhes pode dar: a vitória da vida dos seus filhos sobre o “monstro”.

E é por isso que começo por reproduzir as palavras de uma mãe que tem o seu “Guerreiro” a fazer sessões de quimioterapia no IPO e que luta galhardamente, ao lado do seu filho, contra o “monstro”, com todos os sentimentos que isso acarreta:

“Mas naquelas paredes do IPO…aprendemos a viver de uma forma diferente…e hoje, embora tenha ficado aliviada e obviamente contente, por tudo continuar a correr bem no tratamento do Pedro (…), trago o meu coração apertado e o fogo da revolta mais aceso… aqueles meninos são todos uns Guerreiros, nobres e únicos… tornam-se todos um pouco”nossos”, de uma forma especial e diferente, mas são sim; Uma FAMÍLIA.

As vitórias de cada Lutador fazem-nos vibrar em conjunto!!! Mas as notícias menos boas… doem tanto cá dentro…. Raio de monstro, este cancro.” 

Pois é, caro leitor, é muito por este sentimento que me permito falar hoje sobre o assunto. Porque todos aqueles que passam ou passaram por uma situação destas com um ente querido próximo, têm a sensação que todos os familiares de pessoas com cancro são também um pouco da sua família. Porque por mais que não conheçamos as pessoas, por mais distante que nos seja, cada vitória da vida contra o “monstro” é para nós uma vingança contra o mal que nos fizeram, feita e conseguida por outros, mas também por nós, que não conseguimos derrota-lo naquela vez que nos era tão próximo. 

A sua luta passa também a ser a nossa luta. A sua vida passa também a ser a nossa vida. E as suas vitórias passam, também, a ser as nossas vitórias.

Infelizmente muitos dos que estão a ler já passaram por situação idêntica. Muitos saberão do que falo, sem que seja necessário que lhes diga o que quer que seja. Sabemos exatamente onde estávamos no dia em que nos deram, pela primeira vez, a notícia da suspeita. Sabemos o que sentimos, como ficamos e o que passamos quando nos deram a certeza absoluta do que era. Sabemos todos o turbilhão de sentimentos que se misturam. Sabemos todos a necessidade que sentimos de amar a pessoa mais rapidamente e desfrutar da sua presença o mais tempo possível. 

Enfim, sabemos isto tudo e muito mais. 

Mas acima de tudo, sabemos bem que, nestes momentos, não queremos quem tenha pena de nós, quem nos olhe como coitadinhos, quem nos fale na doença e das suas consequência. Antes queremos quem nos motive, quem nos dê força de viver, quem nos anime e quem acima de tudo nos ajude a enfrentar o monstro de cara levantada e vontade de o derrotar, que apesar de não estar em nós, também é o nosso “monstro”.

Como disse há dias no seu programa o Manuel Forjaz, ele próprio portador do “monstro”: “eu provavelmente morrerei da doença, mas ela nunca me matará”. 

Como ainda há dias o meu amigo José Augusto dizia antes da cirurgia que sofreu e que todos sentimos que serviu para retirar todo o “monstro”: “O arbitro veio avisar que o desafio vai começar….. vou entrar em campo e já estou a ganhar. Tenho uma equipa fabulosa a apoiar-me. A melhor coisa do mundo é ter amigos…… e eu tenho os melhores do mundo, vocês são fantásticos. Obrigado por todo este apoio que fez com que nem sentisse o chegar da hora. Me aguardem…….vou regressar muito mais forte e claro com uma grande VITÓRIA. Vou pegar estas pedras todas que apareceram no meu caminho e vou atirar-lhe uma a uma……. ele vai pirar-se a sete pés. Sejam felizes e vivam um dia de cada vez.  Até já.”

Estes são dois exemplos de pessoas a quem o “monstro” não consegue ganhar. Nunca. Mas outros há a quem o “monstro” faz muita mossa, muito antes de o fazer efetivamente. Esta minha crónica serve para algumas coisas. Uma delas é para nos fazer sentir que, independentemente das diferenças, todos somos uma família quando os momentos se justificam. Outra, é a de partilhar aquilo que muitas vezes nos esquecemos quando ouvimos falar do “monstro”: que as pessoas que acompanham o doente também precisam de apoio, de incentivo, de ombro amigo, de palavra e de sentir uma grande energia positiva em torno do seu ente querido e não um olhar pesaroso e de “pena” pelo que estamos a passar. 

Saber acompanhar, preocuparmos-nos com eles, dar um simples abraço ou enviar um SMS a dizer “estou aqui”, é por vezes muito mais importante do que perguntar sobre a evolução ou retrocesso do monstro no ente querido. 

Confesso-vos que um bom grupo de amigos, uma boa dose de gente que nos percebe e motiva a continuar a sorrir para aquele que mais precisa de nós, é aquilo que mais precisamos nessa fase.

E é também para isso que serve a minha crónica. Para vos lembrar que o “monstro” existe, que está presente muitas mais vezes do que fazemos ideia e que há muita mais gente que está à volta do portador do “monstro” que também sofre, que às vezes sofre mais que o doente e que também eles deverão ser alvo da nossa atenção e amizade. 

E também para estes. Não se escondam. Não escondam que sofrem. Falem com os vossos amigos. Partilhem a vossa dor, o vosso sentimento, as vossas fraquezas e também os vosso bons momentos. Verão que não faltará quem esteja ao vosso lado, pronto para dar, sem nada nada para pedir e apenas com o prazer de ser amigo.

Porque, no fundo, somos todos da mesma família. Da família da vida, agora e sempre, contra o “monstro” e os seus “monstrinhos”.

A todos que se sentem incluídos nesta minha crónica, apenas dizer-vos uma coisa: serei sempre parte ativa da vossa claque.

Contem comigo. Que eu luto convosco. Para me vingar daquele que me levou o meu velho guerreiro, sem que eu tivesse hipótese de lhe dar com a espada.

Um abraço,

Até para a semana,

Rui Barreira

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