UMA VISÃO DIREITA: O “Lago dos Tubarões” (Shark Tank) e a imagem de uma sociedade livre

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Caro leitor,

Após uma semana de interregno em virtude de uma deslocação mal sucedida a Sevilha, cá estou a debitar os meus pensamentos para os que têm paciência para me ler.

Hoje falarei de um programa de televisão. Sim, um programa de televisão, no qual fiquei “viciado” desde o primeiro episódio que vi. E falarei deste programa, o Lago dos Tubarões da SIC Radical, por vários  motivos.
O primeiro porque demonstra quais os valores e princípios de vida incutidos nos cidadãos norte americanos. Outro é a certeza de que se pode vencer na vida dos negócios sem ajuda dos “tubarões” ou de quem quer que seja. Outro ainda, e fundamental, é a forma como a sociedade que idealizo é revelada através de um simples programa de televisão.

Para os que não conhecem, Shark Tank – o Lago dos Tubarões, é um reality show com investidores (os tubarões), sendo que estes são grandes magnatas norte americanos que têm todos uma característica comum: todos partiram bem de baixo até atingir uma fortuna incalculável, pelo seu empreendedorismo e vontade de vencer. Neste programa apresentam-se perante eles pequenos empreendedores que pretendem angariar capital para os seus negócios e/ou apenas conseguir a parceria dos “tubarões”, presentes no programa, para apostar no seu negócio, das mais variadas formas.

São 5 investidores (Business Angels) de sucesso e milionários  que estão dispostos a investir em novas ideias de negócio e novos produtos e investem mesmo. Estes novos produtos e novos negócios são apresentados por pessoas de todas as idades, mas de todas as idades mesmo (já vi uma empreendedora de 75 anos a apresentar a sua ideia de negócio), que se querem associar a pessoas que têm muito dinheiro, inúmeros contactos e que pretendem aumentar a sua fortuna em mais alguns milhões de dólares. Mais que um programa de entretenimento, é um programa da vida real, onde muitos pequenos empreendedores alcançam a oportunidade de, também eles, ficarem milionários.

Neste programa os pequenos empresários, empreendedores, inventores, idiotas, tentam motivar os “tubarões” a investir no seu negócio, tendo alguns minutos para explicar o que trazem e ao que vêm. A valorização da empresa é um dos aspectos fortemente negociados, sendo que a ideia e perspetivas de expansão do negócio e vendas fazem o resto.

E são inúmeras as vezes em que os magnatas tubarões competem entre si para investir num negócio.

As vantagens são inúmeras para todos: os investidores tubarões obtêm participações em empresas promissoras, segundo os seus parâmetros e as suas escolhas, e os empreendedores conseguem capital e acesso a conhecimento e experiência nos negócios. O financiamento é realizado a maior parte das vezes através da cedência de participações nas empresas, mas também existem ofertas sobre percentagem de vendas futuras.

E só a simples participação no programa pode despertar o interesses de múltiplos outros investidores norte-americanos ou, até mesmo, despertar o interesse massivo dos consumidores, sendo o melhor bloco publicitário que algum pequeno empresário pode ter.

De realçar que a quase totalidade dos negócios já funcionam e não são meros planos negócios, como se poderia pensar.

Pois bem, o que retiro deste programa televisivo com tanto sucesso nos Estados Unidos, para além disto que já vos transmiti?

Desde logo que a sociedade americana convive bem com o lucro e com aqueles que trabalham dia a dia para o conseguir. Que se revê numa sociedade que tem empresários de sucesso e que querem criar fortuna, pois essas fortunas permitirão investimento em novos negócios, que naturalmente gerarão novos empregos e que farão crescer a economia e circular capitais.
Lá, ao contrário de cá, os empresários de sucesso não são vistos como vilões, que conseguem lucros enormes à custa dos mais fracos e mais desprotegidos. Lá, ao contrário do que cá muito se diz e pensa sobre os nossos empresários de sucesso, os cidadãos norte americanos pretendem juntar-se a eles, porque sabem o quão importantes estes empresários são na sociedade.

Mas não só. As pessoas que se apresentam perante os tubarões também lutam por si. Criaram ou montaram o seu negócio, com dificuldades, ajuda financeira de familiares e amigos, empréstimos bancários, mas por sua conta e risco, sem esperar nem pedir nada ao Estado. Fizeram-no pela vontade de ter sucesso, pela vontade de conseguir pagar a casa, com o objetivo de dar um futuro melhor aos seus filhos. Acreditando que o sonho comanda a vida e que tudo é possível numa terra onde os investimentos privados não são olhados com desconfiança, numa terra onde os trabalhadores têm tantos deveres como direitos.

De notar que nem todos os negócios ali apresentados são alvo de propostas pelos tubarões. Nada disso. Encontramos de tudo. Mas o que nunca vi foi alguém sair daquele programa sem qualquer proposta e queixar-se. Afirmam que continuarão a lutar pelo seu negócio, porque acreditam e porque acham que estão no caminho certo, ainda que os tubarões lhe digam o contrário.

Muitos há que vemos depois a sua evolução. O crescimento do negócio, sozinhos, por quem tudo tentou e meteu a carne toda no assador. E este é bem um dos exemplos que aquela sociedade dá à nossa sociedade. Não estão dependentes de apoios do Estado para investir, porque o que eles pretendem é que o Estado não lhes retire aquilo que podem conseguir com o seu esforço.

E não resisto a contar a história de alguém que apareceu perante os tubarões e queria “conquistar” os tubarões. Apresentou o seu negócio inovador, mas eis que chegado a determinado momento um dos tubarões lhe pergunta porque não recorre à banca para financiar o seu negócio. E o homem respondeu que não conseguia crédito, porque estava falido em virtude de outro negócio que lhe havia corrido mal.
Eis que Kevin O’Leary, um dos mais famosos e ricos tubarões o apelida de “Tóxico”, em virtude da sua situação de falido.
Este homem saiu do Programa sem qualquer parceria com os tubarões. No entanto, os norte-americanos reagiram contra esta afirmação e, de um momento para o outro, este pequeno investidor arranjou financiamento para o seu projeto e um sem número de encomendas para o seu produto. Isto porque os norte americanos olham para alguém que está falido como alguém que apostou mal na sua vida e que nem por isso tem de ser apelidado de “vigarista”, “gatuno”, “ladrão” ou outros adjetivos do género.

Como tudo na vida, há negócios que correm mal e outros que correm bem. Há naturalmente falidos, que o são, porque dolosamente ficaram nesse estado mas apenas para ludibriar os credores e há, na sua maioria, aqueles que ficaram falidos porque a vida lhes correu mal, quer por fatores endógenos ou exógenos. E estas pessoas não são necessariamente criminosos. Estes empresários não têm de ser tratados como se fossem bandidos.
A maioria deles são pequenos empresários que puseram toda uma vida num negócio em que acreditaram e que no final ainda acabam com muitos problemas.
E este programa demonstrou bem o que aquela sociedade pensa dos que falham nos negócios. Que são pessoas que tentaram vencer e não conseguiram e que merecem tentar outra vez, que não são riscados do sistema.
Esta é uma sociedade em que me revejo. Uma sociedade que permite a oportunidade a todos, mesmo todos, até porque a maioria dos pequenos empresários que lá vão tentar a parceria com os tubarões não tem curso, nem formação superior. São cidadãos, licenciados ou não, que tentam a sua sorte apenas com aquilo que têm de melhor, que é a sua cabeça e a sua capacidade de trabalho e entrega a algo que acreditam que pode ter sucesso, sem reivindicar nada dos outros.

É esta sociedade que eu pretendo para os meus filhos. Uma sociedade em que o cidadão tem oportunidade de crescer pelo seu mérito e pelo seu labor.
Uma sociedade que olhe para os seus bons exemplos como fator de motivação e não uma sociedade que olha para os seus mais bem sucedidos com inveja e com rancor.

O Lago dos Tubarões demonstra muito do que é a realidade norte americana, onde deve assentar o seu sucesso e a sua riqueza. Revela-nos muito mais que um pequeno programa. Mostra-nos a forma como podemos vencer na sociedade.

Porque, tal como já John F. Kennedy dizia, eles não ficam à espera do que o País pode fazer por eles, mas antes do que eles podem fazer pelo seu próprio País.

Não se esqueçam: Shark Tank, SIC Radical.
Mais que um programa televisivo, uma lição de sociedade bem sucedida.

Até para a semana,

Rui Barreira
Rui Barreira

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