UMA VISÃO DIREITA: Coadoção

Eu, “retrógrado, preconceituoso, conservador, atrasado, mente pequena, sem visão, terceiro-mundista” ou outra coisa que me queiram apelidar me confesso: não sou a favor da adoção ou coadoção por homossexuais.

Caro leitor,

Para que não restem dúvidas e logo no início desta minha crónica sobre a adoção e/ou coadoção por pessoas do mesmo sexo, afirmo: não concordo e não sou a favor, assim como não concordo nem concordei com o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

É uma questão de ter a certeza que é o que melhor representa e defende os superiores interesses das crianças, interesses esses que são os únicos que devem ser avaliados nesta questão e não outros.

É também uma questão de ser fiel aos meus princípios e valores éticos e morais. E porque conferem sentido à minha vida e os prezo muito, não vou passar a concordar com a adoção ou coadoção por casais homossexuais só porque é moderno, giro ou para ficar bem no grupo de amigos.

Não concordo e assumo-o frontalmente.

Sem querer entrar nas interpretações mais técnicas que derivam das teorias do desenvolvimento psicológico da criança, das teorias da educação, das teorias sociológicas, da visão histórica, jurídica e política, importa dizer que a família assumiu, ao longo do tempo, várias formas e dimensões: alargada, nuclear, monoparental e recomposta, biológica ou de substituição. Mas teve sempre um pai e uma mãe, na qualidade de progenitores, o único garante da reprodução e continuidade da espécie humana. Esta é a regra natural da vida.

O que me leva a escrever esta reflexão é o recente chumbo da proposta do PS e dos restantes partidos da esquerda que pretendia legalizar a coadoção por casais do mesmo sexo e que mereceu o firme voto contra da bancada do meu partido. De realçar que não entendo esta questão como partidária, mas que naturalmente tem acolhimentos diferentes nas pessoas dos vários quadrantes partidários.

Como sabem estava posta à votação que “Quando duas pessoas do mesmo sexo, sejam casadas ou vivam em união de facto, exercendo um deles responsabilidades parentais em relação a um menor, por via da filiação ou adoção, pode o cônjuge ou o unido de facto coadotar o referido menor”.

Desde então até hoje tenho acompanhado nas televisões, na imprensa e nas redes sociais as discussões e debates acerca do tema e tenho comentado algumas.

Uns a favor, outros contra e outros ainda sedentos de ataques fáceis e insultos gratuitos, muitos dos quais nem sabem do que falam, mas qualificam os outros de tudo e mais alguma coisa.

Ao invés de ver os argumentos assentarem nos direitos e no superior interesse da criança, esse sim o essencial da questão, vi os defensores da coadoção mais preocupados com a exigência de direitos em favor do seu próprio interesse e do interesse dos maiores. Vi-os preocupados com a construção forçada de um modelo de família, plagiado do modelo de família tradicional e que, verdade seja dita, não passam de tentativas de pretensos artificialismos igualitários.

No desesperado e revoltado esgrimir de argumentos li e ouvi barbaridades tão despropositadas que, não raro, acabavam em ataques pessoais.

Para os defensores da coadoção, os outros (leia-se, os como eu, defensores do direito da criança a ter um pai e uma mãe) são “retrógrados, preconceituosos, intolerantes, conservadores, atrasados, têm uma mente pequena, falta de visão, não respeitam a liberdade dos outros, são terceiro-mundistas e hipócritas”, sendo estes os adjetivos com que me brindaram os que pensavam diferente de mim. Ah, esqueci-me de um, também me apelidaram de “boy” e de viver à custa deles e dos seus impostos, em virtudes das minhas funções atuais.

Por incrível que pareça ouvi também que, no âmbito de famílias heterossexuais, “no refúgio das quatro paredes os homens batem nas mulheres e nos filhos e bebem como tonéis e se drogam. Maltratam as crianças e fecham-nas em instituições (orfanatos, como dizem), onde estão largadas ao abandono e onde também não têm pai nem mãe e onde até são violados.”

E ainda, as cerejas no topo do bolo, “ há casais heterossexuais que maltratam os filhos e são pedófilos” e “preferiam uma criança com um casal tradicional de alcoólicos ou com um casal gay?”.

Ora aí está… vivemos generalizadamente na barbárie.

E como os casais homossexuais são impermeáveis a esses riscos, simplesmente e apenas casais perfeitos, são até modelos de virtude e referência para a sociedade, são os bons por oposição aos maus, passam a ser os salvadores e a salvaguarda da pátria e dos jovens oprimidos por esta sociedade.

Ouvi defensores da coadoção exasperarem-se para fazer os outros mudar de opinião, recorrendo ao lançamento a terreiro de verdadeiras pragas e maldições, do tipo: “Quando os vossos filhos se assumirem homossexuais e quiserem coadotar, então vocês vão ser obrigados a reconhecer e aceitar esta realidade. E nessa altura vão morder a língua…”.

Como já o tenho dito por várias vezes, quando não há argumentos válidos parte-se para o insulto fácil, gratuito e generalizado para desviar a atenção do que realmente é importante.

E um desses argumentos não posso deixar em claro sem afirmar a ignorância de quem fala e do que fala, quando intitulam as instituições como depósitos de crianças, afirmando que aí são vítimas de abusos sexuais e até de ofensas à integridade física diariamente. Quem fala assim destas instituições, simplesmente ignora o que lá se passa e ofende (e muito) um número vastíssimo de pessoas que trabalham nestas instituições, desde técnicos a auxiliares e a múltiplos voluntários e dirigentes que dão muito do seu carinho e saber para com estes jovens.

Mas quem fala ignora que a maioria das crianças que estão nestas instituições ainda mantem o vínculo com os seus pais (conceito que inclui pai e mãe, obviamente) e que não estão disponíveis para adoção. Que visitam os seus pais e os seus irmãos variadíssimas vezes e que lá não estão por serem apenas órfãos, mas por variadíssimas outras razões. E eu não estou disponível para alimentar esta ignorância. Querem falar, ao menos disponham-se a conhecer estas instituições. Elas são abertas à sociedade. Tem um denominador comum e têm tido um investimento brutal por parte do Governo na qualificação do seu trabalho. E que trabalho, muito, de excelência superior.

Mas a ânsia de querer ter razão desviou claramente o debate da sua essência, que não é nenhum outro que não o superior interesse da criança e apenas este.

Aos casais homossexuais não bastou viverem em união de facto, tinham de querer o casamento. Não bastou não gerarem descendência própria, tinham que querer os filhos dos outros. Não bastou viverem as consequências da sua própria opção de vida, querem que a sociedade os isente dessas consequências, permitindo-lhes tudo, porque a isso se acham com direito. Não bastou serem aceites na sociedade em que vivem, querem eles próprios representar a norma social.

O que me pareceu, verdadeiramente, é que o que querem é o direito à criança, colocando egoisticamente a criança no reduto de um simples objeto de desejo e como uma bandeira da pretensa igualdade.

Atrever-me-ia a dizer que os casais homossexuais não querem um filho/a, querem apenas o direito para o apresentar como uma taça.

Pois começam mal, muito mal, se acham que dão lições de moral e de educação a todos os que assim não pensam. Antes pelo contrário, dão cartas no que toca à falta de respeito e de tolerância pela diferença de opiniões, reveladora de muita falta de consideração para com a sociedade que os integra, forçando-a a que a normalidade seja ditada pelas exceções.

Perante a falta de mais argumentos, surge necessariamente o argumento fatal: “É preciso reconhecer a existência e legitimidade de famílias que já existem e sempre existiram mas que têm permanecido fechadas à sociedade exatamente pela discriminação a que seriam sujeitas com uma exposição pública”.

É um argumento como muitos outros, mas cujo grau de validade me leva à seguinte reflexão: então só porque existe temos todos de concordar com a situação e dar-lhe legitimidade? O que dizer das drogas, da corrupção, do tráfico de influências, da violência doméstica, da eutanásia, etc., etc., etc.??? Só porque existe de forma encoberta, vamos reconhecer e dar-lhe legitimidade??

O que dizer de reconhecer a existência e legitimidade de uniões poligâmicas, de relacionamentos abertos ou poliamoristas que, eventualmente vivendo em economia de mesa e habitação, têm permanecido fechadas à sociedade? E esta mesma sociedade criminaliza mesmo os casamentos poligâmicos, exatamente porque a sociedade tem princípios e valores e tem uma forma estar que não se coaduna com esses comportamentos. E qual seria a discriminação a que seriam sujeitas com a dita exposição pública? É só ver como elas são tratadas nas revistas cor-de-rosa.

Há quem pense que viver em liberdade é ter o direito a fazer tudo o que lhe dá na real gana.

Então anda um casal heterossexual, potenciais pai e mãe, a ver a sua vida escrutinada e espiolhada com avaliações psicológicas, testes, inquéritos e averiguações até ao limite, por equipas dotadas de técnicos especialistas, antes de dar parecer favorável para uma adoção, tudo obviamente em favor do superior interesse da criança, para agora virem os casais homossexuais, através de um simples processo administrativo de coadoção, “ganhar o jogo na secretaria”?

E não seria apenas ganhar o jogo na secretaria. Seria também querer começar a entrar pela janela, para depois abrir a porta, com a finalidade de chegar onde se pretende: a adoção na sua plenitude.

Estes são degraus de uma escada sem fim, que vai sendo trepada a pouco e pouco, quase como não querendo que se dê conta disso, mas que vai acontecendo.

Interrogo-me sobre qual seria o próximo passo: a adoção plena? O regime da procriação artificial com recurso a bancos de esperma ou a barrigas de aluguer? O reconhecimento da poligamia?

Querem argumentos contra a coadoção? Aqui vai um: só existe Pai se existir Mãe, bem como na verdade só existirá Mãe, se existir Pai. E os dois complementam-se na sua existência. E mesmo que não exista um deles, o filho terá sempre o que falta como de referência, como sendo o do sexo oposto ao que tem.

O maior argumento contra a coadoção é este e que serve “ipsis verbis” para a adoção por pessoas do mesmo sexo:“a adoção é definida como um processo gradual, que permite a uma pessoa ou um casal criar com uma criança um vínculo semelhante à relação entre pais e filhos”. Vínculo semelhante entre Pais e filhos. Alguém, por acaso, é capaz de me explicar como isso se consegue quando se tem dois pais e duas mães? Será que é integrar no ambiente que deriva da própria natureza do ser humano?

Não creio. E é também por isso que norteio a minha decisão contra a coadoção e adoção. Porque penso primeiro na criança antes de pensar em mim ou nos meus interesses. Porque penso na criança e na sociedade em que ela será inserida. E porque não quero permitir que uma só criança seja cobaia de experiências para satisfazer desejos e egos de modernistas.

E também porque sei que não há falta de casais heterossexuais para adotar crianças, bem pelo contrário. O que pode haver, e isso até é uma realidade, é falta de famílias para adotar determinadas crianças, e para essas ficaria a minha questão: os casais homossexuais quereriam adotar estas crianças por puro sentimento ou porque para estes casais qualquer uma criança lhes serviria para adotar, desde que pudessem afirmar o seu “direito” a adotar e mais uma vez esgrimir a sua igualdade?

Sim, porque aqui não estaria o supremo interesse da criança em única análise. Mas antes um interesse difuso, que não o que aqui tratamos.

Por último os princípios e valores. E é com esses mesmos princípios e valores que educarei os meus filhos para o bem dos meus netos.

Para mim prevalecem os valores dominantes inerentes ao modelo de sociedade em que vivo. Muito mal estamos se não houver calma e bom senso nas tomadas de decisão políticas que determinam, por essa via, o desenho de sociedade em que vivemos.

Os filhos são uma dádiva de Deus, não são fabricados por leis, decretos ou regulamentos. Se há direitos inalienáveis, um é o direito de todas as crianças a um pai e uma mãe. Outro é o do Estado não permitir que esta dádiva, que é da natureza, seja quebrada. O outro é poder viver o dia da Mãe e o dia do Pai, ainda que nenhum deles esteja presente, mas tendo-os sempre como nossas referências.

E se não faltam candidatos a adotantes, porque motivo o estado retiraria a possibilidade das crianças a receberem um beijo doce e macio da mãe e um beijo terno que faz cócegas do pai, antes de irem para a cama dormir, em detrimento de outra situação que não deriva da natureza das coisas e que os faria pensar “há algo aqui que não é natural”.

Assim, eu “retrógrado, preconceituoso, conservador, atrasado, mente pequena, sem visão, terceiro-mundista” ou outra coisa que me queiram apelidar termino: não sou a favor da adoção ou coadoção por homossexuais, porque os superiores interesses da criança assim o exigem.

Até para a semana,

Rui Barreira
 

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