UMA VISÃO DIREITA: As praxes… reflexão e vivência…

Caro leitor,

É natural que esta semana faça uma reflexão sobre a praxe académica, em virtude dos acontecimentos recentes, mas principalmente pelo ruído que se tem feito à volta deste caso. Pretendo que seja uma reflexão serena, tentando não tocar no caso em concreto, que é muito sensível e está a ser aproveitado com base em puras especulações do que se passou, o que não é sério nem humano para com as famílias dos estudantes envolvidos (quer os que morreram, quer o jovem que sobreviveu, que naturalmente acredito que não estará a passar bons momentos e que duvido que alguma vez na sua longa vida esquecerá este momento).

Eu sou daqueles que pensam que o que está a acontecer é aquele velho hábito português de tomar a parte pelo todo. Fazer de todas as praxes más. Fazer de todos os estudantes criancinhas. Fazer daquilo que é uma sã convivência entre estudantes, em situações de humilhação e crimes.

Vejo muita gente a falar de praxe sem nunca sequer ter passado ou assistido a praxe. Vejo muita gente a criticar a praxe, sem saber, nem a querer entender qual a verdadeira essência da praxe. Enfim, vejo muita gente a falar do assunto. De uns discordo e com outros concordo.

Mas naturalmente que aqueles que defendem a praxe, estão necessariamente de acordo que os desvios, os exageros, a utilização da praxe com outras intenções, não fazem parte da praxe, da “nossa” praxe, da praxe pelo qual todos passamos, que gostamos de ter passado e que voltaríamos a passar.

Tenho visto aqui e ali a condenação dos DUX, dos Conselhos de Veteranos, denominando-os de “pessoas dotadas de poucas qualidades e inteligência”, tendo sempre como referência Dux que esteve na praia do Meco, que no meu caso nem apelido de uma coisa nem de outra, simplesmente porque não o conheço e principalmente por nem sequer saber ao certo o que lá se passou, para além de inúmeras especulações que fazem excitar os órgãos de comunicação social e muitos facebookianos.

Deixem-me que vos diga, em abono da verdade, que eu pertenci à Comissão de Veteranos da minha Universidade, a Universidade Moderna. Com o orgulho de a ela ter pertencido (os meus pais não diziam o mesmo), com o sentimento seguro de que fui praxado para pertencer ao Conselho de Veteranos porque o deixei e porque sabia que na minha Universidade a praxe tinha como objectivo único a integração dos estudantes e a criação de amigos. E é isso que eu tenho deles todos. Uma amizade enorme de todos eles. Rui André, Bruno Diogo, o Sol, o Xico, etc, etc.. Mais, não tínhamos códigos secretos, nem nos reuníamos em locais secretos, a não ser que a tasca onde jantávamos nas nossas reuniões tivesse algum nome desses o que não me recordo. E mais, para além disto, acompanhei todas as semanas da praxe da minha Universidade, religiosamente.

Como tudo na vida, enquanto membro do Conselho de Veteranos, uma tarde fui indicado para conduzir um grupo de caloiros da minha Universidade, já mesmo no finzinho da semana da praxe. Eu que nunca tinha praxado ninguém. Então pensei o que fazer com aqueles novos amigos. A primeira coisa foi sentarmo-nos todos no chão em roda. A segunda foi fazê-lo em frente a uma esplanada. A terceira foi troçar com os caloiros de outras universidades que passavam ali ao lado. A quarta, digo-vos, não sei bem o que foi, porque eu não tinha jeito nenhum para praxe e os caloiros ficaram todos contentes de terem andado comigo, porque eu nem sequer um berro lhes dava.

Mas isto não significa que tenha sido o melhor, nada disso. Até porque outros muito mais intervenientes na praxe e mais duros, ficaram com bem mais amigos do que eu, porque a praxe é e sempre foi a melhor forma de fazer amigos.

Eu fui praxado à entrada na universidade. E rapidamente passei de apenas conhecer uma ou duas pessoas, a conhecer dezenas e dezenas delas. Era praxado de tarde e convivíamos à noite, sem praxes nem coisa que valha, como se fossemos amigos há muitos anos. Quantos amigos eu não trago destes tempos. E quantos deles não me praxaram e eram os primeiros a dizer que o que necessitasse, eles lá estariam.

Quem não se lembra, daqueles que foram praxados na minha Universidade, do passeio anual de visita às caves do vinho do Porto da parte da manhã (os cálices de prova do vinho do Porto eram bebidos maioritariamente pelos “doutores”, porque não deixávamos beber os caloiros que não quisessem), a que se seguia o piquenique num dos parques da cidade e uma visita ao meio dessa mesma tarde ao velhinho Estádio das Antas, ao superior sul, onde qual claque, se cantavam as músicas ensaiadas.

Quem não se lembra das aulas dadas pelo nosso colega “alemão”, que parecia bem mais velho que todos nós e que dava uma aula fictícia para os caloiros? Do rallye das tascas pelos míticos bares do Porto e suas tascas. Enfim…

Caro leitor, estas são algumas das minhas experiências que poderei contar nesta minha pequena crónica e que poderiam levar a um livro. Mas com isto apenas quero demonstrar que tenho a certeza que a maioria das praxes das nossas universidades são assim, foram assim e continuarão a ser assim. Um local de integração, onde os mais velhos brincam com os mais novos, que também eles virão a ficar mais velhos e a brincar com os mais novos e onde apenas uma ínfima parte dos que praxam abusam ou tentam ser aquilo que nunca serão ou terão coragem de ser na vida.

Acabar com praxes? Dizer que não fazem sentido? Legislar as praxes?

Meus amigos, está tudo moralmente regulamentado. Quem não quer ser praxado, não é. Quem quer ser praxado, é-o. Quem quiser participar, participa, quem não quiser não participa.

É lógico que eu consigo compreender a dor dos pais dos jovens. É óbvio que eu consigo perceber a indignação perante estas mortes.

Mas será que sabemos o que se passou ali? Será que sabemos ou saberemos o que está ali em causa? Os jovens estavam lá ameaçados ou por livre e espontânea vontade?

Enfim, cumpre-nos primeiro conhecer o que se passa nas praxes das quais ouvimos notícias menos abonatórias e condena-las. Condenar e acabar com essas práticas abusivas de praxe. Mas, por favor, não queiram acabar com momentos académicos extraordinários de conquista de amizade e de estreitamento de relações entre estudantes de um mesmo estabelecimento de ensino. São momentos inesquecíveis na nossa vida académica os que vivemos durante a praxe. Que devem ser entendidos como praxe e nunca entendidos como humilhação, quando nos devidos lugares.

Disse-me ainda hoje uma amiga que na única vez que praxou, levou os caloiros a sua casa para limpar a cozinha. Hoje são amigas e amigos para a morte, cuja praxe juntou e dificilmente qualquer outra situação separará.

Eu também tenho filhos. Eu também os verei na Universidade, se assim quiserem. O conselho que lhes darei será o de integrarem a praxe e usufruir da praxe e para não deixarem, nunca, eles próprios, com a sua voz, que a praxe ultrapasse limites inultrapassáveis. Porque aqueles que eu conheço que praxaram, sempre respeitaram os praxados. E hoje conseguimos juntarmo-nos todos em amizade, criada no momento da praxe e pelos momentos da praxe.

Aqueles que nunca conheceram a praxe e falam “furiosamente” da praxe, apenas uma frase: “não neguem, à partida, uma ciência que desconhecem”.

Dedicado a todos os meus amigos do Conselho de Veteranos da Universidade Moderna do Porto; a todas as comissões de praxe da UMP que conheci e privei; a todos os que me praxaram; aos muitos caloiros que são hoje meus amigos e, claro, a todos os estudantes que sabem, conhecem e sentem tudo aquilo que aqui transmito. Não é com crítica ou ironia que digo isto para aqueles que não sabem ou não partilham da minha ideia.

Apenas pretendo contribuir para o conhecimento do mundo académico, da sua vivência, tradições e praxes, de forma a que a discussão se trave na essência da questão e não em coisas acessórias e até bastante minoritárias.

Praxe sempre, abusos nunca.

Até para a semana,

Barreirus, Jardelius e Portius

ou simplesmente

Rui Barreira

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