UMA VISÃO DIREITA – “A SITUAÇÃO ATUAL”

A SITUAÇÃO ATUAL

Este fim de semana ocorreram várias manifestações por todo o Pais sob o desígnio “que se lixe a Troika, queremos as nossas vidas”. Manifestações pacíficas, aqui ou ali com alguns tumultos, mas que serviram essencialmente para as pessoas demonstrarem o seu descontentamento.

Mas que descontentamento? Bem, muitos destes manifestantes estavam descontentes com a Troika e com as medidas tomadas por este Governo em cumprimento do memorando dessa mesma Troika. Ouviu-se “Troika fora daqui”. Alguns reclamavam por um regresso a um passado recente. Mas seriam a maioria dos manifestantes? Creio que não e explicarei mais à frente.

Mas quanto àqueles que se manifestavam contra a Troika, eu gostava de refletir o seguinte com os leitores: ninguém está contente com as medidas da Troika. Ninguém. Eu não estou. Os leitores certamente que não estarão. Porém convém darmos conta porque cá estão… Porque é que a Troika está em Portugal? Como cá chegou? O que cá faz e que aconteceria se rompêssemos com a Troika? Vejamos como se de uma história se tratasse…

A Troika chegou a Portugal em Abril de 2011 pelas mãos de José Sócrates. Portugal estava então numa situação de pré-falência e via-se na contingência de não poder pagar salários, pensões e de cumprir todas as suas obrigações. Precisava de dinheiro e para o obter precisava de o pedir emprestado. E os que sempre nos emprestaram ou não o faziam, ou faziam-no a juros proibitivos.

Durante muito tempo, o Partido Socialista e José Sócrates ignoraram a subida dos juros e foram contraindo novos empréstimos, a juros cada vez mais altos, subindo cada vez mais a nossa dívida pública, como se não existisse amanhã. Foram mesmo feitos alguns empréstimos secretos, como muitos não se querem lembrar, mas que hoje pesam na balança.

E foi em determinado momento, quando o pacote era já insustentável e já nem os “secretos” nos emprestavam dinheiro, que o País resolveu pedir ajuda à Troika. E quem é a Troika???  Troika é a equipa constituída por responsáveis da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional que negociaram as condições de resgate financeiro na Grécia, na Irlanda e em Portugal.  Troika é a equipa que disponibilizou um pacote financeiro de forma a que pudéssemos cumprir com todos e, principalmente, com os portugueses.

A Troika não chegou cá porque quis, mas antes porque nós a chamamos. A Troika não veio pôr cá o dinheiro porque somos um paraíso fiscal, mas antes porque alguém os chamou e com ela contratou, repito, contratou determinadas condições para empréstimo, porque precisavam do seu dinheiro para cumprir com as obrigações mais elementares.

E esta é que é a pura realidade. Pedir para ir a Troika embora, por muito que isto pareça fácil, parecido com expulsar alguém de nossa casa que em determinada altura se portou mal numa festa, tem consequências muito piores para os portugueses do que as medidas de hoje e que são mesmo inimagináveis. Eu também quero que a troika se vá embora, mas que vá por bem.

Porque pedir dinheiro a um terceiro, negociar a forma de pagamento, acordar com esse terceiro que iremos atuar de determinada forma e não gastar mais do que se pode para se lhe poder pagar e depois de ter o dinheiro na mão, virar-lhe as costas, não lhe querer pagar e ainda insultar quem nos emprestou o dinheiro, não é forma de atuar de gente de bem, nem de gente honrada…

Será isto que se pretende que se faça??? Será isto que os que se manifestaram querem? Eu acho que a maioria não o quer. Porque na minha terra, este tipo de comportamento só tem uma denominação: vigarice. E da minha parte eu não quero que um povo honrado e esforçado, como sempre foi e será o povo português, seja apelidado de vigarista pelo mundo fora.

É por isso que eu acho que a maioria das pessoas que esteve presente nas manifestações de sábado, não o fez contra a troika ou contra este Governo em particular. Fê-lo, sim, com o intuito de demonstrar o seu descontentamento com o estado da nação, contra o estado a que se fez chegar Portugal (quando sentem que nada contribuíram para o efeito) e para demonstrar a sua angústia pelas dificuldades que atravessam em face das medidas impostas.

E desta demonstração de desagrado, todos nós teremos de tirar ilações. Porque foi uma reação espontânea, uma reação apolítica, que merece bem a nossa atenção.

Mas será que poderemos dizer o mesmo dos responsáveis políticos de esquerda quando se afirmam ant-troika?  Poder-se-à dizer o mesmo do Partido Socialista que  afirma “de um lado está a Troika, do outro está o Partido Socialista”. Será este comportamento digno de uma partido que augura voltar aos destinos da nação? Não me parece, pelas razões que acima referi e também pelo simples facto de ter sido o próprio PS a ter assinado e negociado…

E sim… É verdade… São medidas duras as que nos são agora impostas. No entanto, apesar de tão duras que são, apesar de tamanhos sacrifícios que nos são pedidos, parece-me, também, que parte do País ainda não aprendeu nada com a lição, como nos mostram certos exemplos..

Fala-se na privatização da RTP, empresa que ano após ano dá prejuízos enormes que são pagos pelos contribuintes e sem que se saiba realmente onde está o verdadeiro “serviço público de televisão”, logo aparece quem esteja contra porque o serviço de televisão tem de ser público, apesar de só se diferenciar do privado nas taxas que se cobra para cobrir o buraco.

Portagem nas SCUT? Nem pensar, porque não existe qualquer estrada alternativa e porque se devem continuar a pagar milhões por contratos ruinosos para alguns utilizarem determinada estrada, enquanto outros pagam todos os dias. É que a falácia da estrada alternativa que os “média” muito gostam de utilizar (fazendo reportagens onde se apanha a estrada nacional e a SCUT e a comparação de tempo gasto) não cola, ou alguém já se lembrou da fazer a estrada nacional n.º 1 entre Porto e Lisboa ou, por exemplo, a estrada nacional Guimarães-Braga para verificar a qualidade da alternativa? E aí nunca ninguém se preocupou com os Portugueses que pagam…

Aumenta-se as taxas moderadoras nos centros de saúde para 5 € (na certeza de que os que não podem, efetivamente nada pagam) e assiste-se a movimentos e manifestações contra. No entanto muitos dos que reclamam, são fumadores e gastam cerca de 4€ diários para comprar o seu tabaco diário. Mas pagar 5€ para uma consulta médica que tem um custo efectivo de 50€ já pode ser apelidado de “roubo”.

Mais, ninguém se manifesta contra o facto de as grávidas e parturientes estarem todas isentas deste pagamento (e relembro que são 5 €). E quando digo todas, são todas mesmo. Quer a grávida que tem rendimentos mensais de 10.000€, quer a que está desempregada.

Pois eu sou contra. Deveria pagar quem pode e ficar isento quem não pode.

Mais, também ninguém se manifesta pelo facto de as crianças até aos 12 anos estarem todas isentas de taxa moderadora. Quer os filhos dos que têm muitos rendimentos, quer os filhos dos que têm pouco ou nada têm. Eu sou contra. Deveriam pagar os filhos de quem pode e ficar isentos os filhos de quem não pode. Mas ninguém nada diz, porque se trata de não pagar.

E muitos mais exemplos haveria para dar. Privatização da ANA, da TAP. Medidas de contenção nas empresas de transportes públicos, etc, etc. Porque sejamos claros. Se não arranjarmos formas de não gastar o dinheiro e de não termos prejuízo nas empresas públicas, não há forma de se aliviar a carga fiscal aos portugueses. Porque muitas destas medidas permitirão que no futuro não se peça tantos sacrifícios aos portugueses. São medidas contra a política anterior do “tudo para todos” que estão a ser tomadas e que muitos ainda não verificaram da sua necessidade, que podem aliviar a carga fiscal a todos nós.

Poder-se-á dizer que se está contra esta ou aquela medida. Mas há que ter consciência da necessidade de medidas de contenção de despesa ou de outras que a substituam, numa fase como a que atravessamos. E não se pode ir atrás da reclamação fácil, como as que atrás enunciei. Há que encarar de frente os cortes na despesa e encara-las como inevitáveis. Por muito que algumas doam. O que não se pode ignorar é que as medidas são necessárias em virtude de termos tido tantos anos de uma certa forma de fazer política.

Mas esta certa forma de fazer política ainda continua a “vender” aos portugueses, se se puder avaliar pelas sondagens.

E digo isto porque António José Seguro, secretário-geral do PS, foi esclarecedor quanto à manutenção dessa forma de fazer política, na entrevista de segunda-feira à RTP. Quando o entrevistador lhe perguntou pela primeira vez onde cortaria na despesa respondeu: “a medida tomada por este governo é imoral e inaceitável”. À segunda vez que lhe perguntaram onde cortaria na despesa respondeu: “é inaceitável e imoral a medida tomada pelo governo”. À terceira vez a mesma coisa!!! E à décima, a coisa era a mesma. Por isso ainda vende…

E enquanto tudo isto é natural, vêem-se pequenas notícias como esta, que não fazem abertura nos telejornais, que aparecem quase em nota de rodapé durante os serviços noticiosos e que muitos não dão qualquer importância: O Estado português colocou hoje mais dívida que o esperado no mercado e a preços mais baixos

Pois… Afinal, está a valer a pena…

Até para a semana.

Rui Barreira
(escreve às quintas-feiras)

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