UMA VISÃO DIREITA

Confesso que pensei duas vezes antes de escrever sobre o tema RTP e sua privatização. E confesso que pensei duas vezes em virtude do Governo ainda nada ter anunciado quanto ao futuro desta estação de televisão, uma vez que as únicas informações foram transmitidas por um consultor deste mesmo Governo e especulado por muitos órgãos de comunicação social.

No entanto entendi escrever o que penso acerca da RTP1 e do tão famigerado serviço público de televisão, porque tenho sobre esta matéria uma posição muito definida há muitos anos. Comecemos então pela definição de Serviço Público de Televisão.

Serviço público de televisão, conforma consta da Lei e do Contrato de Concessão do Serviço Público de Televisão, é, entre outras, assegurar uma programação variada, contrastada e abrangente, que corresponda às necessidades e interesses dos diferentes públicos. É assegurar uma programação de referência, qualitativamente exigente e que procure a valorização cultural e educacional dos cidadãos. É Promover, com a sua programação, o acesso ao conhecimento e à aquisição de saberes, assim como o fortalecimento do sentido crítico do público. (…) É combater a uniformização da oferta televisiva, através de programação efetivamente diversificada, alternativa, criativa e não determinada por objectivos comerciais e manter uma programação e informação de referência, contribuindo desse modo para regular e qualificar o universo do audiovisual nacional.

Ora, estas são algumas das obrigações de prestação de serviço público a que se submete a RTP. No entanto, em bom rigor, nenhum de nós consegue distinguir bem quais as diferenças entre a RTP1, a SIC e a TVI.

Começa desde logo, na programação da manhã, com os programas de “entretimento” que conhecemos com início pelas 10 horas, após serviços noticiosos. Invariavelmente (ou por mera coincidência) todos os três canais generalistas terminam os seus programas da manhã perto das 13h, hora em que os três canais “divergem” na programação. Na RTP1 inicia o Jornal da Tarde, na SIC o Primeiro Jornal e na TVI o Jornal da Uma. Três espaços de informação cuja única diferença se verifica no ângulo de filmagem do “cameraman” e nos diferentes apresentadores.

Entre novelas e Preços Certos se desenrola a programação da tarde, sendo que invariavelmente caímos nas 20 horas com novo espaço noticioso, cujas diferenças são aquelas que já apresentei.

À noite, valha-nos o facto de a RTP ter deixado de apresentar as novelas que os restantes canais teimam em nos fazer entrar pelos ecrãs de televisão pela noite dentro.

Assim, no meio desta tamanha “diversidade” de escolha dos canais generalistas, qual a diferença entre eles e porquê tanto barulho quanto à sua privatização? A diferença são 150 milhões de euros anuais que entram na RTP anualmente via taxa audiovisual (que todos pagamos junto com a fatura energética) e a injeção pelo Estado de dinheiro na RTP para cobrir prejuízos. Só nos últimos quatro anos foram injectados na RTP cerca de mil milhões de euros. Só em 2012, o Estado injectou na RTP 348,3 milhões de euros para pagar empréstimos financeiros.

Leu bem. Mil milhões de euros dos nossos impostos na RTP, só em quatro anos.

Mas agora que se prepara a privatização o que vejo?

“Privados vão ter 20 milhões de lucros certos”; “Privatização da RTP é negócio da China para Privados”… E, atenção, todas estas notícias sem que um qualquer membro do Governo anunciasse que medida concreta se espera para a RTP.

No entanto, agora que se pretende privatizar, é que vai ser. Agora é que a RTP finalmente vai dar lucro. Finalmente a RTP irá prestar serviço público de televisão. Finalmente a RTP não será mais nenhum buraco financeiro. Finalmente a RTP é só virtudes. Veja-se que até as restantes estações privadas estão contra a privatização.

É verdade. Como tudo muda de um momento para o outro. Agora até a privatização é Inconstitucional porque deixará de existir serviço público de televisão!!!

Serviço público de televisão!!! Na RTP1? A que horas?

Expliquem-me e demonstrem-me, que eu desde sempre que procuro e ainda não encontrei as diferenças entre o canal público e os dois privados.

Pela minha parte já estou farto de ver parte dos nossos impostos financiarem o “serviço público de televisão” que eu não vejo, nem encontro. Quanto ao modelo de privatização esperarei para ouvir quem tem legitimidade para tal, para depois me pronunciar.

Até lá, apenas a minha opinião de concordância com a privatização e um desabafo:

Já vai é tarde…

Rui Barreira
(escreve às quintas-feiras)

 

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