Uma Diva na “Plataforma” – Ute Lemper e a ‘Orquestra Estúdio’ encantaram Guimarães

D.R.
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Quem tirou bilhete para o espetáculo nunca supôs que o mesmo lhe daria o direito a uma condição dupla: a de espectador-viajante. Na verdade, foi com esse estatuto que as cerca de 2000 pessoas viveram o espectáculo de Ute Lemper e da Fundação Orquestra Estúdio no sábado à noite, na Plataforma das Artes, em Guimarães: um cenário mágico para uma noite quase amena, com o firmamento como testemunha, um palco para lá do palco, deve dizer-se.

Esta mesma perspectiva é sustentada por Carlos Feixa, realizador e apresentador radiofónico: “ O cenário natural já de si belo, numa noite calma, ficou ainda mais belo com a presença da lua e de imensas estrelas cintilantes no espaço celestial. Mas a estrela mais brilhante estava em cima do palco!”. E assim foi, às 22:15 horas, a cantora alemã entrou na “Plataforma”, para nos fazer embarcar numa jornada em que nos mostrou toda(s) a(s) sua(s) “Arte(s)”.

Um vestido vermelho de veludo revelava, desde logo, ao público toda a elegância e glamour de que é portadora, mas nem por isso Ute enjeitou a reconhecida vocação de alguém muito divertido e, logo nos momentos iniciais do concerto, atirou na direcção do maestro Rui Massena: “Isto hoje está com muita electricidade!”, numa alusão ao verdadeiro fenómeno de engenharia capilar que o Director de Orquestra ostenta. Depois desta tirada até se aceitaria o clássico dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, “Electricity”, mas esse não integrou o repertório.

O apito de partida na Plataforma foi dado com o conhecido tema “Mack the Knife”, que a intérprete cantou na língua natal, o original Die Moritat von Mackie Messer, e cuja autoria da música pertence a Kurt Weil e a letra a Bertolt Brecht. A todo o vapor, e logo em seguida, honrou, em inglês, o célebre tema “Cabaret”, que Liza Minelli, entre outros, ajudou a universalizar.

A jornada prosseguiu com “Surabaya Johnny”, também resultado da colaboração de Weil com Brecht, e aos poucos a qualidade superlativa da interpretação de Lemper foi-se afirmando junto dos fãs e daqueles que apenas se deslocaram por simples e mera curiosidade. “O Furacão Lemper” viajou por Berlim, passou por Paris, deteve-se em Nova Iorque, desceu a Buenos Aires, regressou a Paris e deambulou por outras paragens, tendo a orquestra como “bagagem”.

E quem fala de cidades, fala de idiomas. Foram quatro línguas, aquelas a que emprestou a voz sempre magnífica, bem no castelhano, melhor ainda nos outros idiomas, cantou em alemão, francês e inglês. Que nesta ordem, foram sinónimo de homenagem a Astor Piazzolla, Kurt Weil e Bertolt Brecht, Edith Piaf (“La Vie en Rose”, “Padan Padan” a meio e “Milord” no final) e Jaques Brel, com o melhor momento da noite, uma versão de “Ne me quitte pas” que foi um autêntico exercício de sublimação artística, verdadeiramente de estarrecer. E ainda do compositor belga, o clássico “ Dans le Port d’Amesterdam”, ao qual deu o tom aparentemente rebelde que o tema demanda, e sempre com uma expressão corporal que não desalinha do canto, mas que o envolve e enfatiza. E claro, não se esqueceu de Gershwin.

All That Jazz” foi outros dos momentos de eleição da noite, no qual mostrou todo o seu virtuosismo. Após uma hora e meia de espectáculo, a Diva Alemã, que não procura imitar ninguém nas interpretações, e tanto deambula pelo registo cabaret, como se sente bem a interpretar temas mais da área jazz ou do rock (integrou inclusivamente uma banda punk denominada The Panama Drive Band), deu por finda a atuação, e o público sentiu um misto de gáudio e desalento. A viagem tinha mesmo terminado. E nem o encore, retirou o sabor a pouco, muito próprio das situações memoráveis.

A Fundação Orquestra Estúdio esteve à altura dos acontecimentos, do princípio ao fim. Esteve irrepreensível a todos os títulos, a orquestra formada no âmbito da Capital da Cultura. E a intérprete alemã não se cansou mesmo de enaltecer a prestação dos músicos junto do maestro Rui Massena, por diversas vezes.

Há quem tenha tido Edith Piaf, Marlene Dietrich e Greta Garbo, nós temos Ute Lemper, e talvez sejam poucos os que saibam disso. No sábado foram mais alguns.

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