Um contra todos em “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen, para ver no Rivoli até sábado

Henrik Ibsen está de novo em cena no Porto (a Invicta não se divorcia dele. O incontornável dramaturgo norueguês, cujo(s) trabalho(s) continua(m) a calcorrear os palcos, um pouco por todo mundo, fruto de um legado impressivo no que diz respeito qualidade da dramaturgia que foi produzindo ao longo de uma existência provecta – morreu aos 78 anos, em 1906 (numa altura em que a esperança média de vida era bem mais reduzida), regressa assim ao estrado pela mão do actor e encenador Tónan Quito, com uma versão de “Um Inimigo do Povo”, que estará em cena de hoje, sexta-feira (21h30) e sábado (19h00), no Rivoli – Teatro Municipal do Porto.
A peça, datada de 1882, espelha o conflito entre o indivíduo e o colectivo, um choque que é apresentado ao espectador, sem paliativos, assumido de forma explícita, directa e crua. Tudo se passa numa cidade termal norueguesa (com alguma imaginação, podia ser em Portugal, por exemplo, em Chaves). Quem se converte n’Um Inimigo do Povo é o médico local, Dr. Stockmann, que questiona a qualidade das águas das quais dependem os banhos públicos da estância termal, afinal a grande fonte de riqueza da cidade e onde tudo decorre.
Ao descobrir a verdade, Stockmann confronta a comunidade local, a própria cidade, com uma suspeição inicial confirmada e factual: as águas estão inquinadas e estão a produzir danos na saúde de turistas e cidadãos utilizadores dos banhos. O médico, homem da Ciência, que não quer abdicar dos seus princípios, opta pela investigação e pela denúncia, vai acabar por ser vítima da sua convicção e da ética que preconiza. Há um manancial de conflitualidade latente que se vai impondo de forma veemente ao longo da peça: discussões familiares, corrupção, manipulação política, assembleias populares e apedrejamentos são a consequência imediata à descoberta, pelo médico, da poluição das águas.
E a percepção de Stockmann é clara: a cidade prefere viver na mentira rentável (a aceitação da realidade implicaria o fecho temporário da estância e a suspeição posterior da qualidade da mesma, com a consequente perda de receitas no turismo) do que na verdade do prejuízo. O Povo, instrumentalizado pelo poder político e manipulado pela imprensa vai converter o médico em persona non grata a nível local.
A teimosia, a coragem e o estoicismo de Stockmann vão fazer com que se defenda até ao fim. Na essência, Ibsen faz um uso metafórico desta poluição das águas e estabelece o paralelo com a degradação na estrutura social da cidade em si mesma, acrescentando algumas palavras temos ‘so…ci(e)dade’.
*Hoje, sexta-feira, no final do espectáculo, Manuel Pizarro, médico e vereador da Câmara Municipal do Porto, modera uma conversa com os artistas.
Autor Henrik Ibsen
Direção artística Tónan Quito
Interpretação Filipa Matta, Isabel Abreu, João Pedro Vaz, Miguel Loureiro, Pedro Gil e Tónan Quito
Cenografia F. Ribeiro
Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção
Figurinos José António Tenente
Assistência de direção Simão Pamplona
Produção HomemBala
Residências O Espaço do Tempo, Teatro Viriato e Espaço Alkantara
Apoio às residências Truta

Coprodução Teatro Viriato e São Luiz Teatro Municipal
Duração aprox. 2h30 c/ intervalo

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