As terminologias adaptam-se, moldam-se aos tempos, assumem expressões mais ou menos institucionalizadas e apreendidas pelo colectivo geral como forma única de entendimento. Tudo isto para dizer que o chavão ‘famílias disfuncionais’ serve o propósito de duas peças que bem poderiam ser ‘2 em 1’: falamos de “O Pelicano” de Strindberg e da “Tatuagem”, de Dea Loher, que ocuparão o palco do Teatro Carlos Alberto (TeCa), entre 12 e 29 de Outubro.

Existe um hiato de cem anos entre estas duas propostas teatrais e a linha cronológica talvez acabe por separá-las menos do que era suposto. Manuel Tur, o encenador explica: “Começamos a perceber que são o reflexo uma da outra.” É um bom ponto de análise para a partir da plateia entender o que se vai passando no palco. Há uma diferença de prevalência dominante da mãe num dos casos e do pai na outra peça.

A atmosfera obscura vivenciada pelas duas famílias em questão é o denominador comum. A privação em toada expansiva campeia de mãe e/ou pai para filhos, em cada uma das peças. A ausência de sentimento protector familiar na prestação de conforto, de carinho, de nutrição ou de calor humano são explícitas. O pior é que os enredos de “O Pelicano” e de “Tatuagem” não se ficam por aqui, ainda muito distantes da coragem demencial de uma dramaturgia à boa maneira de uma Sarah Kane, deixarão no entanto alguma marca no espectador.

Retrato de Família assume essa aglutinação de conceito das duas peças. Duas parcelas distintas, mas com demasiadas afinidades: desde logo o refúgio familiar enquanto mote que possibilita uma certa interpenetração dramatúrgica e a demanda por uma aproximação entre duas correntes distintas para este efeito.

A percepção das diferenças, por um lado, e do ‘parentesco teatral’ existente entre as duas pode estabelecer-se de forma sequencial. “O Pelicano” pode ser visto no TeCA, de 12 a 21 de Outubro. É considerada a “peça maldita” de Strindberg (1849 – 1912) e alude ao mito de que a ave que o intitula se dispõe a alimentar as crias com o próprio sangue. Na obra em questão versa-se o seio familiar no período pós-morte do patriarca em que a mãe tem um relacionamento com o próprio genro e pugna por ignorar os problemas que o filho possui em relação ao álcool e reserva um completo desdém face ao problema de desgosto amoroso da filha que ela, a própria mãe, lhe cria.

Por seu turno, a peça “Tatuagem”, cuja autoria pertence à dramaturga germânica multipremiada Dea Loher (nascida nos anos sessenta), estará em cena entre os dias 25 e 29 de Outubro. Uma obra que é descrita como “possuidora de contornos de um conto-de-fadas profundamente negro e desconcertante”. A carga dramática patente na peça centra-se na problemática da existência de uma relação incestuosa contínua entre o pai e a filha mais velha, com o primeiro a abusar sexualmente da segunda enquanto a mãe finge não se aperceber de nada. Dá-se uma ruptura familiar, com a filha coagida a abandonar a família mas a prosseguir a sua vida com as feridas deixadas pela relação insana com o pai e os reflexos comportamentais e emocionais que o passado traz ao presente.

Os elencos das duas peças são distintos, sendo que a única presença de palco que se repete em ambas as obras levadas à cena é a da actriz Ângela Marques. As apresentações têm lugar às quartas e sábados às 19h00 e às quintas e sextas-feiras decorrem às 21h00. Ao domingo a récita é feita às 16h00. O espectáculo do dia 25 de Outubro (quarta-feira) será excepcionalmente apresentado às 21h00.

Na calha para 2018, no que diz respeito ao Retrato de Família, estão já em fase de arranque de produção dois novos espectáculos: “A Festa”, em versão teatral a partir de um filme de Thomas Vintenberg e que inspirou uma adaptação do dramaturgo David Eldridge, bem como “Stabat Mater” essa dilacerante e episódica história da mitologia cristã revisitada pela mão de António Tarantino, o dramaturgo italiano.