Teatro Sá da Bandeira converteu-se no “Púlpito Musical” dos Beach House

Quase apetece evocar a célebre frase: “Houston, we have a problem!”, quando a narrativa musical atinge uma espécie de zénite espacial em “Space Song”.

Há uma luz azul que se semeia pelo espaço do ‘Sá da Bandeira’, são 22h30  quando os Beach House entram no ‘altar’ da mítica sala portuense. Três cortinas de mosquiteiros, de forma rectangular, preenchem o cenário simples, mas que se vai mostrar eficaz ao longo de todo o concerto.

A voz de Victoria Legrand invade de forma pujante o espaço, desde logo a dizer ao que vêm os de Baltimore. Entramos em manifesta levitação, num território preenchido de gente que foi revistada logo ali à entrada, o fantasma do Bataclan parisiense ainda está muito fresco na memória de toda a gente, uma preocupação securitária da qual ninguém ousou reclamar, apesar da longa fila que isso provocou no exterior para que se pudesse aceder à sala de espectáculos.

A guitarra de sonoridade emblemática, pertença de Alex Scally, inicia o diálogo com o canto melódico e seguro da parceira. “Levitation” (do álbum Depression Cherry/2015) leva-nos para longe sem sairmos do lugar. Skyler Skjelset, membro dos conhecidos Fleet Foxes, está no baixo e virá a ocupar-se também dos sintetizadores mais adiante, Graham Hill incumbiu-se a preceito da bateria ao longo de mais de hora meia, tempo que a contenda musical durou.

“Walk in the Park” (Teen Dream/2010) é o tema que se segue e é imediatamente reconhecido pelos fiéis, a guitarra elegante de Alex a soar (quase se diria a suar) com aquelas incursões eléctricas combina bem com a voz imperial de Victoria, a batida bem percutida de Graham e o baixo discreto de Skyler estão em comunhão quase solene com a dupla de líderes.

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A sigla “PPP” (Depression Cherry/2015) pode enganar, mas as parcerias público-privadas não possuem salvo-conduto para entrarem no Sá da Bandeira, sala que todos conhecem por só se poder entrar a partir dos 18 anos, os filmes para adultos a isso obrigavam em tempos não muito distantes. A música, sim, essa continua a entrar, e com uma suavidade quase cerimoniosa. Em simultâneo começa uma projecção de estrelas no ciclorama, que conferem ao momento uma dimensão universal. O canto da francesa é cálido e o tom sai-lhe em registo celebrativo. Percebe-se, à partida para o quarto tema, que os Beach House estão bem e recomendam-se.

Alex continua a extrair sentimento sonoro das cordas, algo que casa na perfeição com as derivações de voz de Victoria. “All Your Yeahs” (álbum Thank Your Lucky Stars/2015) baralha tudo e põe Alex nas teclas, Victoria no baixo e Skyler na guitarra, só Graham continua entretido com a bateria. E o público, que parece desfrutar de lições de voo, continua a agitar a cabeça e as ancas com movimentos ligeiros e suaves, torna-se obrigatório planar naquela melodia quase etérea.

Um céu estrelado volta a ser testemunha em “Silver Soul” (Teen Dream/2015), adensa-se o mistério musical e a vocalista prossegue a sua acção de encantamento geral com aquela voz majestosa, que agora soa mais grave e estendida do que no tema original.

Quase apetece evocar a célebre frase: “Houston, we have a problem!”, quando a narrativa musical atinge uma espécie de zénite espacial em “Space Song” (Depression Cherry/2015), a verdade é que estaríamos a mentir. Nesta esfera espectral, a cerimónia é bem capaz de nos conduzir a um qualquer éden, mesmo que temporário, e ainda que quase não tenhamos luz em redor, pois estamos imersos na penumbra. Um embalo percorre os corpos, Victoria, por seu turno, mais parece uma sacerdotisa num púlpito. E a massa de gente exulta mal se ouve aquele dedilhado peculiar na guitarra de Alex Scally, é “10 Mile Stereo” (Teen Dream/2010) que se anuncia, a verdade é que a versão desta música tocada no Sá da Bandeira espelha a demanda pela reinvenção dos temas que a banda tem vindo a preconizar nas suas prestações ao vivo. A guitarra de Scally continua, com esmero, a fazer brotar emoções feitas de notas musicais, o vigor na batida de Graham ganha destaque e Skyler está ali compenetrado, ora no baixo ora nos sintetizadores.

O baterista e o baixo retiram-se por momentos em “On The Sea” (Bloom/2012) e a voz da cantora arrasta-se numa mansidão, é positivamente um tema que estimula (a)o ‘aumento da taxa de natalidade’ e o tão badalado diálogo entre a guitarra de Scally e o instrumento voz de Victoria prezam-se aqui numa partilha sem par. “Beyond Love” (Depression Cherry/2015) afina pelo mesmo trilho melódico, nas luzes que se espalham pelo palco o vermelho funde-se com o violeta. E o canto continua a afirmar-se, altaneiro e imponente, a voar sobre um instrumental bem calibrado.

 

Segue-se um clássico da banda “Master of None” (Beach House/2006), música muito bem acolhida pela mole humana que compõe a sala e logo depois ouve-se “Wishes” (Bloom/2012) cuja intensidade instrumental induz ao balanço corporal. ‘Encostados às cordas’ em “One Thing”, do derradeiro registo Thank Your Lucky Stars/2015, Scally e Victoria dão o melhor de si nas guitarras e são bem coadjuvados por Skyler nos sintetizadores e por Graham na bateria.

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A celebração aproxima-se do final e “Myth” (Bloom/2012) consagra esse prenúncio. “Sparks” (Depression Cherry/2015) encerra o período laboral dos Beach House, para as horas extraordinárias do encore ficaram “The Traveller” (a vocalista teve uma branca e não se lembrava do nome do tema, compreende-se o sucedido, na verdade foram 35 dias em intensa digressão) e “Irene”, ambas do último registo discográfico Thank Your Lucky Stars/2015. Dustin Wong, o músico que faz as primeiras partes nesta itinerância da banda, um autêntico ‘Mike Oldfield Oriental’ juntou-se aos demais integrantes para o cair do pano, ele que tão bem esteve naquela meia hora inicial, correspondente ao período em palco de um verdadeiro mestre-de-cerimónias.

E foi, uma vez mais, com o prazer militante num ambiente de soturnidade que os norte-americanos abandonaram ‘o púlpito musical’  do Sá da Bandeira na passada terça-feira.

Texto: João Arezes

Fotos: Mário Sá/Filipa Kinomoto (Pic -Nic  Produções)

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