Taste It: “Sabores de Pessoa”

caldo verde
caldo verde

 

Hoje chega a primavera, começa a alegria e a magia desta estação do ano a inebriar-nos os sentidos: os olhos deslumbram-se com o abrir das flores e o corpo estirado nos campos verdejantes suspende-se para escutar o cantarolar dos pássaros, embevecendo-se com os cheiros das árvores e o pólen das plantas que invade as narinas; enquanto o paladar é adoçado com as frescas e suculentas frutas amadurecidas com os raios brilhantes do sol de março.

É neste ambiente rodeado por esta amálgama de sensações que é celebrado o Dia Mundial da Poesia. De facto, não podia ser celebrado em outro dia que não neste, já que a poesia é um dos modos mais sublimes de expressar a diversidade criativa dos homens, visto que “sem Poesia não há Humanidade” porque “é ela a mais profunda e a mais etérea manifestação da alma”. (Teixeira de Pascoaes)

O desafio que lhe lanço é experimentar os “Sabores de Pessoa”; que aliam a lírica do poeta à comida, reunindo-se duas iguarias: uma para o corpo e outra para o espírito.

Comecemos pelo mestre (dos heterónimos) Alberto Caeiro, o poeta da natureza. Para um guardador de rebanhos que ama incomensuravelmente o campo e tudo o que é simples; sugere-se um menu transmontano, onde abundam os enchidos e a carne de vitela. Para acompanhá-los uma ginja e o saboroso toucinho do céu.

Segue-se-lhe Ricardo Reis, um médico da cidade do Porto, jesuíta, monárquico e exilado no Brasil. Procura atingir a paz e o equilíbrio sem sofrer, recorrendo a uma extrema autodisciplina. Com ele, aprendemos que em tudo aquilo que fazemos deve existir sempre um pouco de nós próprios: “põe quanto És no mínimo que fazes”. Como sugestão para acompanhar os seus versos, indica-se um bife à Lisboa com pimenta, uma salada alfacinha (coração de alface, tomate, peixinhos da horta) e um creme de mel para a sobremesa.

Após a calma e simplicidade de Caeiro, acompanhada do autocontrolo de Reis, aparece Álvaro de Campos com toda a modernidade e agitação da cidade. A este heterónimo, serve-se um caldo verde e uma dobrada à moda do Porto, que seja servida quente e não fria. Não esquecendo o pastelinho de Belém com o toque da canela das Índias. Por último, Fernando Pessoa Ortónimo, o próprio. Para este nada melhor do que uma sopa juliana, um prato de bacalhau e um arroz doce – “Ai, os pratos de arroz-doce!”.

Desta forma, faça jus ao poeta e experimente um caldo verde com couve-flôr em substituição da batata e uma dobrada à moda do Porto reinventada, ou seja, com feijão manteiga, carnes brancas, couve portuguesa e lascas de presunto. Para terminar um “roube aos pomares uma peça de fruta”, escolhendo-a como sobremesa. Agora, saboreie lentamente o prato escolhido, deixando-se sucumbir pela estonteante dança das sensações traduzidas pelos alimentos ao culminarem com a arte do poeta porque é preciso “Sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados”.

Caldo Verde

Ingredientes:

  • 180g couve-flôr

  • 1 cebola média 


  • 180g couve-galega 


  • 1 curgete média 


  • chouriço de perú ou vegetal (opcional)

Preparação:

1. Leve ao lume uma panela com água.

2. Quando ferver, acrescente a couve-flor, a cebola e a curgete em cubos.

3. Uma vez cozidos os legumes, reduzem-se a puré.

4. Adicione a couve galega cortada para caldo-verde.

5. Deixe ferver por mais 10 minutos.

6. Disponha uma rodela fina de chouriço por pessoa.

Dobrada à Moda do Porto”

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje.)

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque que é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-me frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio              Álvaro de Campos Heterónimo de Fernando Pessoa

Teresa Carvalho
Teresa Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Teresa Carvalho - Nutricionista

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