O Global News foi espreitar um dos ensaios do espectáculo “Stabat Mater Furiosa – Oratória Para Uma Voz” e desvenda um pouco daquilo que os espectadores podem esperar desta versão da peça cuja parceria criativa resulta na Direcção Artística de Ana Rocha e na interpretação a cargo de Sara Barbosa (Companhia O Cão Danado).

A sala tem uma disposição em losango algo enviesado, os espectadores hão-de converter-se numa espécie de jurados. Percebe-se desde o início que este é um teatro da palavra, bem como da expressão corporal e particularmente da expressão facial, Ana Rocha sublinha em conformidade “O gesto é o esqueleto da linguagem.” O espectáculo está assim desprovido de elementos cénicos, subtraindo a este juízo contabilístico apenas uma mesa e uns panos que se desprendem do tecto. Sara Barbosa, a actriz que é a protagonista deste monólogo em formato de uma prece, entra em pose elevada e digna no estrado, Iluminada por uma luz que lhe incide em modo frontal, o único foco luminoso disposto a vencer a penumbra inicial.

Logo após, balbucia em ritmo cadenciado o discurso: “Eu sou aquela que recusa perceber…”, frase que atira em tom quase sentenciado para a plateia que a rodeia. A voz sai-lhe com profundidade sonora. É uma ‘Mãe General’ com direito a salvar os malfadados da guerra, mas disposta a ir à luta. O pormenor das medalhas que ostenta é de uma deliciosa ironia.

‘A Mãe de Todas as Mães’ discorre através de uma verve intensa, a espaços muito poética e pungente, sobre a condição humana. A carga dramática empurra a datação de “Stabat Mater” para a actualidade, para uma reflexão sobre a sociedade a que chegamos, adoptando uma visão universalista dos problemas que afectam a humanidade, por vezes mergulha no passado para nos (de)mo(n)strar que esta versão de “Stabat Mater” é, como a própria intérprete defende já depois de sair de cena, “um apelo à memória”. E isso faz todo o sentido nos tempos que correm, resultado da ausência de alguns tracejados na mente históricos e no legado de conhecimento imperativo que devíamos deixar como herança para as gerações vindouras.

E mais do que o atributo de “Dolorosa”, que também o é em todo o seu apogeu, esta é uma visão libertária e por isso intitulada “Stabat Mater Furiosa…”, que não se conforma. Sim, a atmosfera religiosa é omnipresente e está ali implícito algo a namorar o conceito da Teologia de Libertação. O texto de Jean Pierre Siméon vai à matriz, mas enfatiza a contraposição da aceitação passiva maternal de Maria a velar o corpo crucificado de Jesus Cristo.

Para além de tudo o resto, “Stabat Mater Furiosa – Oratória Para Uma Voz” consagra um tributo à mulher (a todas as mulheres) na dimensão mais profunda da inexorável responsabilidade que lhe incumbe na criação e na sua condição de pilar-base na formação da humanidade, enquanto “alicerce, génese, construção e sustentação”. Por outro lado, a aceitação passiva de regras que lhe são impostas gera também “destruição”, daí que a versão de Ana Rocha em parceria com a Companhia O Cão Danado ‘advogue’ (embora recuse uma militância feminista) para a mulher a “reinvenção de um lugar que transporta o ulterior e primordial significado de protecção e desprendimento naquilo que é a sua presença incontornável nos princípios da humanidade e dos seus valores”.

Saúda-se o regresso às lides teatrais de Sara Barbosa, actriz que desde há algum tempo andava arredada dos palcos, e chama-se a atenção para o trabalho impressivo de luminotécnica, do cuidado na disposição do espaço cénico e no labor sonoro depositados numa peça que mais do que apelar à memória futura, pretende sobretudo avivar a memória do(s) presente(s).

A estreia, hoje, sexta-feira, vai contar com uma conversa pós-espectáculo com Luísa Azevedo, investigadora do I3S e professora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Stabat Mater Furiosa, um texto Jean-Pierre Siméon 
Texto traduzido por 
Olinda Gil
Agradecimentos especiais a 
Jorge Silva Melo Maria João Luís 
Direcção artística 
Ana Rocha 
Co – criação e interpretação 
Sara Barbosa
Desenho de Luz 
Luís Silva 
Instalação de Luz 
Rui Monteiro
Sonoplastia 
Pedro Augusto 
Espaço e elementos cénicos 
André Guedes
Direcção de Produção 
Pedro Barbosa
Assistência de Produção 
Nuno Eusébio
Co-produção 
O Cão Danado Companhia Teatro Municipal do Porto 
Apoio 
Direcção Geral das Artes e Ministério da Cultura
Duração aprox.: 1h

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