Foi numa sala com pouco mais de meia lotação que os Spoon foram acolhidos neste seu regresso à Invicta. Conquanto que isso não signifique que o concerto dos texanos tenha sido também ele a meio gás, muito longe disso. A banda de Britt Daniel foi-se impondo paulatinamente através de uma conquista cativante do público e o espectáculo acabou muito perto de se saldar num êxtase colectivo: uma comunhão merecida entre os do lado de lá do palco e os que lhe prestaram tributo do lado oposto.

O prelúdio foi de luxo, uns desconhecidos Husky Loops, uma banda que começou por se reunir em Bolonha, Itália, e cujos membros rumaram a Londres para ganharem outro lastro musical, deixou assinatura vincada no estrado do Coliseu do Porto: os riffs na guitarra de Danio, a batida forte e seca na bateria de Pietro e um baixo aguerrido e personalizado domado pelas mãos de Tommaso vão ficar na memória para a posteridade. Os rapazes italianos de negro, radicados no Reino Unido, vão dar que falar, disso não duvidamos.

Husky Loops

Às 22 horas e 15 os norte-americanos entram em cena com “Do I Have To Talk You Into It” (Hot Thoughts /2017) dispostos a partir a louça, desde logo. A tonalidade violeta toma conta do palco, Britt Daniel toma as rédeas do concerto e está entre uma posição escultórica agarrado ao microfone ou a fazer diatribes na guitarra. “Inside Out” segue-lhe as pisadas e é imediatamente reconhecida: é um tema bem celebrativo do penúltimo exemplar de longa duração da banda, They Want My Soul (2014). Certo é que com todo o frenesim do rodapé da música, a mesma acaba com três elementos nos teclados.

Eric Harvey vai revelar-se um dos mais multifacetados. Ele e Alex Fischel, um dos integrantes mais recentes, que darão todo o suor do corpo e a energia da alma ao longo da prestação musical: sobretudo nos teclados e na guitarra, instrumentos que parecem ter nascido para eles. “I Turn My Camera On (de Gimme Fiction/2005) é um bailio de cordas com Rob Pope, o baixista, também a sobressair e com Jim Eno a acompanhar em ritmo marcante na bateria.

O concerto vai ganhando lastro e “The Beast and the Dragon, Adored”, do mesmo registo Gimme Fiction, é bem acolhido e passa por uma positiva maré de distorções. “Don’t You Evah” (Ga Ga Ga Ga Ga/2007), com aquela típica linha de baixo e a bateria cadenciada no auxílio à marcação do ritmo a que se junta uma guitarra insubordinada e a voz emblemática de Daniel, redunda fora do palco num agitar anatómico que é sinónimo de comunhão com o que é tocado. “Do You” (They Want My Soul/2014) é a boa onda musical reconhecida de imediato pelo público, com aquela voz de berro calibrado de Britt Daniel a forçar à empatia da audiência no canto colectivo.

Spoon

“Via Kannela” é uma invasão do espaço sideral por via dos teclados e é uma espécie de viagem astral proporcionada aos circunstantes. “I Ain’t The One” (Hot Thoughts/2017) sai alavancado em sequência do tema anterior, Britt Daniel canta o tema deitado sobre o palco do início ao fim. “Every Hits at Once” é uma revistação do álbum Girls Can Tell, de 2001, e esse regresso a uma década e meia atrás sai-lhes bem, com as luzes verdes a testemunharem um tema pleno de energia: a espaços Daniel coloca a guitarra em riste e acerta intencional e rispidamente nas cordas.

E o contágio dançante atinge o zénite com “Can I Sit Next To You”, também do último (Hot Thoughts/2017), há um sincronismo instrumental perceptível e a voz rouca do líder contrasta de forma apreciável com a ambiência musical em redor. Feitas as contas, algo em conformidade com o tema “My Mathematical Mind” (Gimme Fiction/2005), contabiliza-se deste modo a décima primeira música, que soa a rock, mas também a R&B e há até a uma pitada jazzística que se vislumbra, acaba numa autêntica ‘desbunda de distorção’.

Spoon

Começa a perceber-se a entrada na última fase do concerto, mas o público ainda foi ‘o alvo’ de algumas músicas, casos de “Don’t Make Me a Target” (Ga Ga Ga Ga Ga/2007), que afinou pelo mesmo diapasão, seguiu-se-lhe “The Underdog”, do mesmo álbum, com a audiência a bater palmas em uníssono e a acompanhar o tema, numa peça de rock and Roll puro e duro. “Got Nuffin” (Transference/2010) alinha por uma grande toada rítmica e é com “Black Like Me” (Ga Ga Ga Ga Ga/2007) que se despedem.

Após o abandono breve do palco regressam para o ansiado encore que foi portador de temas como “WhisperI’lllistentohearit” (Hot Thoughts/2017) à cabeça, prosseguindo com “Pink Up”, também do novo registo, e na mesma senda o muito badalado tema homónimo do mais recente álbum “Hot Thoughts”, que pôs toda a gente a dançar. Com “Rent I Pay” (They Want My Soul/2014) terminou o ritual dos Spoon em solo portuense: em alta, bem pode afirmar-se. Mesmo que fosse expectável uma sala bem mais preenchida, algo que pode não configurar uma surpresa face à intensa oferta de espectáculos neste período de Novembro, os norte-americanos satisfizeram de forma assaz profissional o compromisso com o público e é bem certo que os presentes não ficaram a lamentar-se do dinheiro despendido nas entradas.