O vértice dos dias que compõem o NOS Primavera Sound começou a completar-se com uma catalã de ascendência parental inglesa. Os acordes gulosos e mornos de Núria Graham foram um bom ponto de partida para o que se iria seguir.

Os Evols são gente do Norte a praticar bom ‘rock and roll’ e durante cerca de três quartos de hora mostraram que podem ser convocados sempre que o seleccionador de um festival os achar em forma. As coisas vão ganhando lastro no devir contínuo do final de tarde. Com Elza Soares em palco, instalada no seu trono, qual figura com perfil quimérico, aparentemente sobranceira na pose mas assaz dialogante no trato com o público, a brasileira proporcionou um dos grandes concertos do festival.

Elza Soares. DR

É como se um condensado de mundo tivesse viajado até a um pedaço de terra ocupado pelo Parque da Cidade. São quase oitenta anos de vida em palco (vai completá-los a 23 de Junho). Nada que uma imobilidade física possa cercear. Ela mexe-se e sobretudo faz mexer, basta que cante. E tudo nela é peculiar, até uma intensa (é no mínimo o que se pode dizer) história de vida. Fez da resiliência um modo de sobreviver às contrariedades constantes. E isso viu-se em palco através de um concerto que contagiou o público com um inusitado samba. E foi interventiva quanto baste, como é seu apanágio de resto. Falou do crime cometido no Porto em 2006 sobre Gisberta, infelizmente célebre e também dos direitos das mulheres, da violência doméstica e na defesa sustentada de que a “Mulher deve gemer, mas só de prazer!”.

“Malandro, eu ando querendo falar com você”, “Arde no peito”, “O mundo vai terminar num poço cheio de merda”, “A carne mais barata do mercado é a carne negra”, “Almas perdidas navegam o rio” ou “o que me fez morrer me vai fazer voltar” são algumas das pérolas da autora do imprescindível álbum A Mulher do Fim do Mundo (2015). Elza esteve para o ‘Primavera’ 2017 como Charles Bradley esteve para o Paredes de Coura 2015, há gente com idade para ser um dos netos que vai falar muito da avó.

Com os californianos The Growlers no palco NOS, o recinto começou a ficar polvilhado de gente. Três dos elementos da banda estão vestidos de caqui, como quem vai para um safari, os restantes usam uma indumentária a namorar o uniforme militar, o que convenhamos se sagrou por um desfile em palco em pleno 10 de Junho, o que até pode parecer menos desconforme. “Love Test” foi um dos momentos altos num concerto de quem se esperaria um pouco mais, embora não deslustrassem de todo.

E antes de uma observação in loco de Mitski, há que fazer uma visita de médico (talvez de otorrino) aos Shellac – já não há NOS Primavera Sound sem a banda de Chicago, eles são uma espécie de indefectível marca identitária do festival. A banda de Steve Albini e Todd Trainer nunca está fora de forma.

E sim, Mitski, a japonesa há alguns anos radicada em Nova Iorque, confirmou todo o depósito de expectativas num concerto muito aplaudido no Palco Pitchfork. Começou por elogiar o mais que pôde a gastronomia lusitana: “ Portugal é mágico! A vossa comida é excelente. Tudo o que provei é óptimo!” E sem paliativos, atira: “ Para mim a comida é coisa mais importante da vida!”, sentenciou com frontalidade, para agrado dos circunstantes.

A nipónica entra com a voz na demanda da mansidão e logo depois surpreende com uma capacidade densa de volume na voz que a conduz a uma espécie de grito na escuridão, embora aqui ainda subsista uma luz de nuvens preenchidas de espasmos laranja a contrastar com o azul que antecipa o lusco-fusco.

“I Bet Losing Dogs”, que em registo gravado é mais calma, ganha fôlego galopante ao vivo. “Your Best American Girl”, o tal hit, ou “Last Words of a Shooting Star”, ambas tocadas com a banda, o mesmo é dizer com o guitarrista e o baterista que a acompanha, ou sozinha em palco a domar a guitarra (no baixo é exímia) em “Class of 2013”, tema com que acabou o concerto, comprovam-lhe o estatuto de estrela em ascensão. Numa próxima terá direito, no mínimo, ao Palco Super Bock. “Puberty 2” é sem dúvida um álbum surpreendente.

Os britânicos Metronomy passearam a sua classe no Palco NOS, um pouco depois das dez da noite. Viajamos de uma matriz bem ao jeito de uns Talking Heads, com uns laivos de !!! Chk Chk Chk e uma dose racional de electrónica à mistura e presenciamos um espectáculo pautado pelos ritmos dançantes. Os cinco de Devon agitaram a multidão que se deslocou para os ir ver. Estiveram como peixes na água em “I’m Aquarius” e ficaram na memória sensorial “Everythig Goes My Way” e também “16 Beat”.

O elogio ao ‘santuário musical’ parece ser consensual e eles afinaram por esse diapasão, afirmando: “É o local mais bonito onde tocamos até agora!”.  Deve retribuir-se o encómio dizendo que Porto assistiu a uma demonstração de elegância dançante.

E de fugida ainda foi possível deitar meio ouvido e a mesma dose de olhar ao que Weyes Blood, cujo nome próprio é Natalie Merling, andaria a fazer no Palco Pitchfork, coisas boas certo. Entre castiçais, teclados, guitarras e uma bateria, a audição permitida levou-nos até “Used To Be” e “Do You Need My Love”, dois dos temas em que a cantora melhor empresta o registo vocal, sorte a nossa: em dia de aniversário da intérprete.

Japandroids. DR

Um regresso para fruição e relato do espectáculo que essa dupla capaz de encher um palco do tamanho de um cruzeiro: sim, estamos a falar dos Japandroids. Os canadianos não o fazem por menos e protagonizaram um dos melhores momentos da edição do NOS Primavera Sound 2017, pode mesmo dizer-se que foram positivamente devastadores. Desconhece-se o paradeiro de algum indivíduo que não tenha padecido de insónias depois deste banho sonoro.

Em 2012 Brian King (guitarra e voz) e David Prowse (bateria e voz) tinham feito furor em Paredes de Coura num espectáculo marcado para a denominada “tenda”. No concerto do ‘Primavera’ concedido naquele horário que torna transversais as datas de 10 e 11 de Junho, os Japandroids confirmaram a sua propensão para os grandes momentos.

A combinação entre a guitarra de Brian e a bateria de David fez mossa na audiência, é difícil eleger momentos numa actuação cujo fio de linearidade frenética nos proporcionou temas como “Younger Us”, “North East South West” ou “The House That Heaven Built” foram instantes que ficarão para memória futura de um registo sonoro que andou a namorar a fronteira entre o selvático e o libertário. O concerto acaba com Brian King em cima da bateria de David, numa imagem que será difícil de apagar.

Aphex Twin. DR

Enquanto no Palco NOS, Aphex Twin fazia as delícias de uma miríade de apaniguados da electrónica mais dura, optamos por uma incursão até ao Palco Pitchfork, onde os Black Angels estavam prestes a começar um espectáculo em que não podemos desfrutar das projecções visuais.

A banda de Austin esforçou-se e, apesar desse contratempo, ofereceu um concerto com muito gás e competência, onde se viaja numa cápsula que nos guia dos anos 70 até à data, naquela mescla que integra Jefferson Airplane, Doors, Velvet Underground, entre outros.

Black Angels. DR

O NOS Primavera Sound 2017 chegou ao fim com uma adesão cuja organização assegura ter rondado as 90.000 pessoas e muitos idiomas falados no recinto ao longo dos três dias. Dos que se destacaram, também já fizemos menção. Os três dias passados no Parque da Cidade deixam sempre saudades e já começamos a senti-las.

Interessa, no entanto questionar para onde vai o festival, agora que se percepciona uma tendência de ocupação do segmento mais afecto à electrónica junto dos palcos principais e se o movimento inspirador mais associado ao indie rock vai perder terreno face a essa prevalência e entrar numa deriva que de forma paulatina o deixará apenas nos palcos mais alternativos. Esta reflexão filosófica ou de conceito vai acabar por impor-se, o resultado da mesma não terá de ser mau. Mas vai forçar novas opções e uma eventual cativação de públicos.

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