“Sem Legendas” – Performance transgeracional no Rivoli

A democraticidade dos projectos que fazem com que a comunidade seja participativa na dimensão artística pode sempre debater-se com o índice qualitativo do desempenho dos intervenientes, a verdade é que as mais das vezes esse é o aspecto que menos conta nesta tipologia de espectáculos.

Serve isto para dizer que o projecto “Sem Legendas”, ao qual ‘Joana Providência & Luís Miguel Cerqueira’ deram o seu cunho criativo, e por conseguinte, assumiram a direcção artística (o desafio foi do Teatro Municipal do Porto, daí que o Rivoli tenha sido o local da apresentação à posteriori), faz transparecer desde o início da peça coreográfica-teatral uma preocupação diversa relativamente a essa significativa maioria de criações onde de forma assumida importa apenas participar, com tudo o que de positivo possa advir daí para quem se inclui nos respectivos elencos.

Quem assistiu ao vivo e a cores às apresentações de “Sem Legendas” no Rivoli, nos passados dias 1 e 2 de Abril, confrontou-se com o empenho inusitado e com o seu quê de rigor profissional de um colectivo colhido no viveiro estudantil da Escola secundária Carolina Michaelis e de algumas estudantes de idade mais provecta que frequentam a Universidade do Autodidacta e da Terceira Idade do Porto. Talvez seja importante dizer que este projecto durou um ano, com toda a gente envolvida e a ensaiar num tempo que podemos considerar pouco comum para uma esmagadora maioria de gente não profissional.

Estes dois grupos distintos, de faixas etárias separadas por gerações, estiveram na base, naquilo que foi a gesta criativa de “Sem Legendas”, desde o seu prelúdio estrutural: foi lançado um convite para assistirem, em par, a diversos espectáculos do Teatro Municipal do Porto. Os pares citados reuniam pessoas mais idosas do futuro elenco da peça, com pessoas mais jovens desse colectivo e as conversas foram registadas em vídeo. Numa etapa posterior, os grupos assistiram a espectáculos de forma separada e o registo passou a ser feito por cartas.

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No palco tudo começou com esta amálgama de gente em trajes simples, mas policromáticos no resultado final. O guarda-roupa adicional, na sua maioria constituído por gabardinas penduradas em cruzetas, está posicionado nas costas de cada um deles, é içado para patamares bem acima do estrado e só descerá no final. É depois disto que os personagens se viram de frente para a plateia (de recordar que esta não é a convencional do Rivoli, mas sim de uma estrutura metálica com cadeiras que se encontra nas traseiras do palco principal da sala).

Volteiam e estacionam, procuram trilhos e permanecem estáticos logo depois. Dão passos em câmara lenta, alinham-se e caminham suavemente. Continuam a andar e formam dois cachos de gente. Agrupam-se de novo como uma família numerosa e logo a seguir surgem os vídeos já referenciados, com os depoimentos aos pares. Uma fileira de gente continua a movimentar-se por cima da projecção das imagens, encostados à parede onde as imagens são exibidas. Os quadros estão preenchidos de uma estática que cativa pela estética.

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Em seguida os elementos montam um cenário, tudo até esse momento é quase minimal em termos cenográficos, exceptuando o vídeo. Mesas, bancos, vasos e uma lâmpada vinda de cima invadem o espaço. Caem folhas do céu, que os bailarinos lêem. E nós, os espectadores reaprendemos o valor da expressão de cartas lidas: escritas e dirigidas para destinatários cruzados que estão entre eles, dos mais novos para os mais velhos e vice-versa.

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O ‘guarda-roupa desce finalmente sobre eles’, mas desta vez cai-lhes de forma engenhosa em posição frontal aos olhos, ao contrário do início em que o vestuário está nas costas. Sem vestirem as gabardinas, estendem-nas e circulam. E depois disso vestem então ‘as gabardinas celestiais’ e permanecem sentados em fileira virados de costas para os espectadores e paradoxalmente de frente para a plateia do Rivoli. É um final que nos leva a (re)equacionar a posição de espectadores neste território mundano que é o nosso palco quotidiano.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Sem Legendas: © José Caldeira / TMP

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