‘Selvagens’ & incendiárias, PJ Harvey e ‘Life of Brian… Wilson’

E ao segundo dia, o Sol fez a sua aparição para saudar os mestres-de-cerimónias, neste caso os White Haus. A banda portuguesa integra na sua formação gente dos X-Wife, dos Sensible Soccers e dos Wraygunn, pelo menos nesta apresentação assim foi. Bem pode dizer-se que a escolha foi acertada: um espaço muito composto de gente às cinco da tarde, boa cadência rítmica e em registo de apelo à dança, que agradou aos que presenciaram a actuação.

WHITE HAUS _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
WHITE HAUS
_ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound
_ © Hugo Lima
CASS MCCOMBS _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
CASS MCCOMBS
_ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound
_ © Hugo Lima

Seguiu-se a transição do Palco Super Bock para o palco NOS, onde se apresentou o californiano Cass McCombs. A toada era ainda de um ‘Festival para Gente Sentada’ nesta altura dos acontecimentos e o lirismo contido do cantautor foi assimilado ainda em lume brando. Os mais interessados descobrirão os temas e a poética assinalável das composições talvez numa sala ou num espaço de contenção mais intimista: o Teatro Aveirense foi testemunha disso mesmo na vinda inaugural do artista.

DESTROYER _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
DESTROYER
_ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound
_ © Hugo Lima

Novo pingue-pongue entre palcos e cá estamos de volta ao Super Bock, com uma massa de gente compacta a assistir, uma miríade que se espraia até ao cimo da ladeira, a responsabilidade desta adesão tem por nome… Destroyer. A banda canadiana, liderada pelo carismático Dan Bejar, apresentou-se em palco com uma robustez instrumental digna de registo: saxofone, trompete, bateria, teclados, duas guitarras, baixo e a voz característica do vocalista já citado.

Os canadianos entusiasmaram o público presente com uma diversidade de estilos personalizada cuja matriz de fusão resulta da soma sonora entre o saxofone e o trompete e os demais instrumentos, ficando a voz de Dan ali a pairar em toada volumosa, umas vezes a namorar Dylan e noutras Bowie. Na verdade, a jornada musical demorou cerca de uma hora e passou pelo álbum seminal “We’ll Build Them a Golden Bridge”, de 1996, até ao mais recente “Poison Season”, editado em 2015.

BRIAN WILSON _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
BRIAN WILSON
_ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound
_ © Hugo Lima

No “Palco .” já haviam tocado os Mueran Humanos e os Beak finalizavam a sua apresentação, quando quase todas as atenções se viravam para um respeitável senhor chamado Brian Wilson, que com quase 74 primaveras tatuadas na pele (vai completá-las a 20 de Junho próximo) ousou vir a mais ‘um… a’! Digamos que foi tudo a preceito, mesmo o conceito de ‘surfismo musical’ encaixou em pleno num local tão próximo da frente atlântica, com Matosinhos ali ao lado, que como sabemos tem sido um viveiro desportivo nesta matéria.

A toada dançante impôs-se com “I Get Around”, um grande clássico dos Beach Boys, com Brian Wilson ao piano e uma trupe de músicos notável em cima do palco, chegamos a contar doze quando surgiu Blondie Chaplin no estrado. Para além deste, há a assinalar a presença de Al Jardine, músico que de igual modo integrou a banda norte-americana.

O público entra em ‘ginganço colectivo’, “Surfer Girl”, a famosa balada que Wilson escreveu em 1951, quando tinha 19 anos, acentua o balanço. E assim se sacode a nostalgia. “Don’t Worry Baby”, já com Chaplin à guitarra, a mostrar que com a idade o virtuosismo não esmorece, o concerto prossegue e assim vai ser durante aproximadamente uma hora e meia, com a revisitação de músicas imortais como “California Girls” e “Surfin’ USA”. Esta homenagem, com a revisitação cinquentenária do álbum “Pet Sounds” teve momentos altos e outros menos intensos, mas ficou certamente registado para memória futura.

Tempo ainda para uma olhada breve ao que os Dinousaur Jr. estavam a fazer no “Palco .” Alguns corpos esticados no ar e suportados por gente solidária na base tiraram-nos as dúvidas, se é que alguma vez as tivemos. Sempre em grande estilo, qual personagem da série “Guerra dos Tronos”, J. Mascis domava a guitarra e Lou Barlow contorcia-se a extrair maior sonoridade ao baixo, com Murph em grande plano na bateria. O conceito de festival-puzzle ou pingue-pongue obriga-nos à opcional visita fugaz ou à fixação, mas a prestação das Savages pareceu-nos de todo em todo incontornável.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
_ © Hugo Lima

E foi delas a noite, seria injusto não o dizer. Ficou desde logo registada uma recepção muito calorosa por parte do público às ‘londrinas’. As Savages fizeram da música matéria-prima de combustão. Um concerto incendiário a todos os títulos, com “I Am Here” a ser a primeira centelha de fogo e a marcar a presença da banda. Segue-se “Sad Person” e “City´s Full”, com Jehnny Beth a agitar-se com elegância, personalidade e carisma e a lançar mais acendalhas para uma fogueira contagiante que se espalha pelo público. Gemma Thompson está discreta mas em plena actividade funcional na guitarra, Fay Milton transborda de estilo a percutir (n)a bateria e Ayse Hassan sempre em pose, com aquele baixo de sonoridade insinuante.

“Husbands” é imediatamente reconhecida pela entrada do baixo e a agitação de matéria capilar, por parte do público, corresponde ao ritmo. “When in Love”, “Surrender”, “I Need Something New” vão a todo gás (explosivo, diga-se de passagem). Jehnny já se acercou das grades a cantar, talvez numa primeira tentativa de se fundir com a assistência por momentos.

A vocalista regressa ao palco e canta com as pernas flectidas, aposta em confrontar o público com aquele olhar felino. “I Need Something New” e “The Answer” demonstram o talento e a concentração individual em prol do benefício colectivo. O banho de luzes brancas é constante.

“Hit Me” e “No Face” servem para fazer arder os alicerces. E para a líder arriscar aquilo que já se tinha percebido: Jehnny quer sentir de perto o calor da multidão e, ao contrário da Leonor de Camões lírico, ‘vai formosa, mas não segura’, mas dispõe-se a arriscar e a partir daqui é a loucura instalada, a francesa de joelhos, deitada e de pé sempre a cantar no meio da multidão, Ayse e Fay sorriem uma para a outra, com cumplicidade, e notoriamente em sinal de aprovação pelo acto.

“Adore” faz o rodapé, mas o tempo foi ainda suficiente para tocarem “Fuckers”, a tal música que começou a ser mentalmente concebida por inspiração de uma primeira vinda ao ‘Primavera da Invicta’, em 2013. O público saiu rendido e elas saíram sem mais volts para ligarem à corrente. E sim, à terceira vão parar ao palco principal.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
_ © Hugo Lima

Nova peregrinação até ao Palco NOS para ‘ou…ver’ PJ Harvey, um concerto com um depósito de expectativas elevado. Uma marcha solene de tambores irrompe palco dentro, ouve-se o som de saxofones lá pelo meio. Uma espécie de concha acústica em formato de caixa-de-ovos com os buracos quadrados ergue-se como cenário.

Percebe-se à partida um cuidado orquestral rigoroso patenteado em “Chain of Keys” e em “Minister Of Defence”. Estamos perante um manifesto musical assumido, com laivos explícitos de intervenção. “The Community Of Hope” é a prova cabal disso mesmo e é em simultâneo denúncia e solidariedade. O álbum “The Hope Six Demolition Project Tour” apresta-se a desfilar à minúcia pelo Palco NOS: “A Line in the Sand” e “The Orange Monkey” são as que se seguem, músicas batidas a um vento que faz escapar alguma sonoridade. A belíssima “Let England Shake”, homónima do álbum saído em 2010, sai fora desta caixa, mas é muito apreciada.

A cantora apresenta-se com um vestido negro e com uma mini-saia a condizer, há nela algo de ‘élfico’ e a indumentária voa-lhe ao vento enquanto a voz soa por vezes quase operática em conformidade com o todo do espectáculo. “The Words That Maketh Murder” evidencia as vocalizações da numerosa brigada de músicos que a acompanha. “The Glorious Land”, “Medicinals” e “When Under Ether” desfilam numa noite que se tornou fria no recinto, face a isso o público aprecia, mas sem exultar.

“Dollar, Dollar” avança e em “The Wheel” vemos a talentosa PJ Harvey a tocar saxofone, num tema que soa festivo ao som das percussões e das guitarras. “Down By The Water”, como é óbvio, recebe muitos aplausos mal o público se apercebe do tema e o mesmo acontece com “To Bring You My Love”. Com “River Anacostia” ergue-se a concha acústica e desce o pano de um concerto muito bem concebido a partir do palco e apreciado por parte do público, embora sem euforias. Um espectáculo que merecia umas barreiras para o vento e aí, tudo, mas mesmo tudo, seria muito mais caloroso: sobretudo no que toca a desfrutar da música feita por PJ Harvey e tendo, à laia de exemplos entre muitos outros, Mick Harvey e John Parish a integrar a brigada de instrumentistas. E mesmo assim… foi um privilégio.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography
NOS PRIMAVERA SOUND 2016
_ © Hugo Lima

De assinalar mais tarde o fecho das hostilidades do dia (ou da noite) também no palco principal, onde os Beach House de Alex Scally e Victoria Legrand se apresentaram com dois companheiros de labuta musical. Num concerto profissional, como só eles saber dar, começaram por brindar o público com “Beyond Love”, mas não enjeitaram a oportunidade de nos fazerem ouvir “PPP”, “Space Song”, “Take Care” ou “Myth”. Quando olhamos para o céu… estava estrelado, afinal a chuva do dia anterior tinha sido de pouca dura. Os Roosevelt começavam a dar som a quem queria ouvi-los no Palco Pitchfork e o relógio namorava as três horas da madrugada…

Texto: João Fernando Arezes

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments