Rodrigo García no Rivoli – A realidade enquanto génese da provocação

Entre outros objectos dispersos pelo palco do Rivoli, os adereços que mais se confrontam com o olhar do espectador são: um biombo, que há-de servir de mural onde se projectarão imagens, mas sobretudo frases desconcertantes; um sabão de marselha de tamanho gigante; uma cabeça de lobo com uma extensão de pele; um projector potente e de tamanho macro e uma chaise longue preta. Artefactos que dão nas vistas a quem correspondeu à convocatória de Rodrigo García, o argentino badalado e considerado o enfant terrible do teatro europeu, para “4”: um espectáculo que cruza algumas linguagens artísticas, palmilhando os territórios da performance, do teatro e da videoarte, a que se adiciona uma pitada de dança contemporânea e que resulta numa matéria estética de carácter híbrido.

O desenho de luz também salta à vista. A verdade é que pouco tempo depois de podermos apreciar todos estes elementos, o palco é invadido por uma luz difusa, algo baça, mas que ainda assim nos permite descortinar a entrada de vultos enredados numa teia, três homens e uma mulher que se digladiam até romperem a malha que os cerca. Há algo de seminal nisto tudo e sim, no princípio era o verbo, percebe-se, ainda que o anacronismo temporal sirva mais para encetar uma crítica (ou um conjunto delas) à sociedade contemporânea do que para nos remeter aos temp(l)os primordiais.

#jca_4_01

E mesmo que Rodrigo Garcia, enquanto encenador, negue o poder provocatório daquilo que evoca e mesmo tendo razão quando alega que a sociedade em si mesma e a realidade são mais provocatórias do que aquilo que ele produz, a verdade é que “4” ratifica o carácter desafiador e interventivo do trabalho artístico deste argentino há muito radicado em Espanha.

Na essência, “4” devolve através de um espelho convertido em palco tudo aquilo que a sociedade declina ver enquanto seu próprio reflexo: a hipocrisia, o cinismo, o sexo e a violência no quotidiano que a moldam.

A narrativa, feita através de quadros diferenciados, é retomada com um episódio de ténis jogado contra uma parede onde se encontra projectada a célebre vagina retratada por Gustave Courbet em “A Origem do Mundo”, bem ao jeito da “Fenda” literária de Doris Lessing e as imagens a reportarem as ‘decibélicas’ reclamações de John McEnroe junto dos árbitros, até ao momento supremo em que se vêem galos e galinhas a calçarem sapatilhas de marca e a vaguearem em jeito trôpego pelo palco e até a servirem de palheta momentânea para um solo de guitarra de um dos actores. ‘Foi você que pediu um Le Coq Sportif?’ Então tem aqui para todos os gostos e marcas variadas.

E em conformidade com esta toada bizarra há um ‘drone espanta-espíritos’ a sobrevoar o palco enquanto a acção decorre e um palácio de aspecto sumptuoso a servir de testemunha ao acontecimento projectado no biombo.

Foi uma sorte não ter aparecido o representante do PAN no auditório, a verdade é que, apesar das diatribes, foi possível constatar que os animais de capoeira não estavam em regime de stresse pós-traumático no final do espectáculo.

Os fascículos posteriores demonstram a oscilação do índice qualitativo de “4”. Seguiu-se um convite dirigido ao público pelos actores para os espectadores aderirem à dança, com a cumbia, género musical típico da Colômbia, a servir de pretexto na angariação de voluntários para uma posterior entrevista que acaba numa simulação de doggy-style, com dois dos intervenientes (duas, neste caso) a fingirem a posição sexual em sacos-cama do tipo múmia para esse mesmo efeito.

#jca_4_15

Os quadros cénico-dramatúrgicos sucedem-se e talvez o que menos se salda como bem-sucedido seja aquele que evoca Bosch, o célebre pintor holandês cuja existência atravessou os séculos XV e XVI em diálogo (é mais correcto dizer monólogo) digno de psicanálise na chaise-longue com duas meninas convertidas em barbies, que mais parecem saídas de um concurso americano de talentos precoces.

Os dois quadros finais voltam a elevar a fasquia com requinte: uma espécie de ritual de purificação das almas com direito a um banho de mangueira atribuído a dois actores que se esfregam com volúpia na parte cimeira do sabão de Marselha gigante, percebe-se o que está em questão e o jogo estético é digno de realce.

#jca_4_23

E o rodapé é um tratado de ironia cáustica, reserva-se à trupe teatral (Núria Lloansi, Juan Loriente, Gonzallo Cunill e Juan Navarro) a tarefa de alimentar com minhocas vivas um conjunto de plantas carnívoras instaladas em vasos. É uma metáfora válida para os humanos. Com certeza que sim. Ficamos sem saber quantos ficaram conquistados por esta obra alegórica, mas estamos convictos que não deixou ninguém indiferente.

#jca_4_26

Texto: João Arezes

Fotos: © José Caldeira / TMP

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments