Rio, o feirante míope

Cara/o concidadã(o):

 

É uma vergonha o Rio demente ter gastado um cêntimo que fosse com a parolice das corridas de carros, de aviões, de burros da câmara ou whatever. Mas também sempre me pareceu errado haver contribuições financeiras para actividades que, embora meritórias, resultam em benefício de empresas. O apoio da Câmara a actividades de empresas, a existir, deve ser exclusivamente logístico e material, usando os recursos de que dispõe e não empenhando aqueloutros que lhe são falhos. Perdõem o contracorrente, mas o cinzento é assim mesmo.

Para que não me interpretem mal, reformulo: quando se gere a coisa pública há que ter prioridades. A parvalheira das corridas, não hesito em dizê-lo, devia pagar à Cidade para acontecer. Ou então os sectores específicos de comércio e turismo que com elas lucram (?) deviam quantificar quanto ganham para se estabelecer o rácio de custo-benefício e aferir o seu interesse real para a economia local. De outro modo, ruído, arruadas de comportamento acéfalo, cortes de trânsito e liberdade de circulação durante um mês são absolutamente dispensáveis.

Quanto a actividades culturais, tenhamos em conta que eventos comerciais não o são, genuinamente. Para apoiar actividades culturais e artísticas, Teatro, Dança, exposições, concertos, etc., eis-me mil por cento a favor que se invista razoavelmente; para apoiar eventos, sectoriais, de (muito) duvidoso serviço público, amofina-me que usem e abusem dos impostos que pago.

A Feira do Livro — ainda que, sobretudo as gerações acima das 40 primaveras, lhe imputemos aquele carácter de algum modo místico de outrora — metamorfoseou-se, nos últimos anos e cada vez mais, num grande mercado de livros encabeçado esmagadoramente pelos obnóxios monopólios livreiros como a Leya ou a Porto Editora. Na Feira os livros não são particularmente baratos, a animação é parca, residual e pobre. E, pela minha experiência, encontra-se nos stands mais carrancas de frete de tarefeiros mal pagos e precários do que propriamente entusiastas da Literatura que queiram seduzir e cativar. Quem lucra com isto? Com certeza não eu — basta-me uma livraria para ter os mesmos, ou melhores, recepção e atendimento sem diferenças que maltratem a carteira tão dolorosamente.

Porquanto, e embora concordando que, no campo das prioridades, uma vez mais a visão tacanha do Rio leva a melhor sobre a inteligência da cidadania, a implosão da Feira do Livro deve-se, afinal, ao deve-e-haver dos editores e livreiros e da estrutura que os representa, mais que à cara-de-pau do pequeno governante local. Estes agentes, salvaguarda feita às muitas e resilientes pequenas editoras, contam os trocos ao final do dia e pouco ou nada se importam com a criação de públicos, o estímulo à leitura ou a promoção de autores. O busílis é negócio, senhores!

Aliás, se dependesse das pequenas editoras a Feira não passaria 2013 em branco — estou certo. Ao contrário dos lobbies livreiros, estes peixes miúdos da Literatura vivem subjugados por leis e práticas de mercado opressivas e adversas, mas nem por isso deixam de fazer muito com pouco no dia-a-dia. A sua actividade é uma feira permanente. As grandes editoras, essas, se o negócio correr mal compensam na vertente da internacionalização. Terá sido, de resto, a reboque ou a pretexto (também) dos seus interesses sobranceiros que fomos forçados a adoptar — unilateralmente, admitamo-lo com vergonha — o escabroso e ridículo acordo ortográfico que nos ameaçava desde 1991…

Em suma, mandem as corridas de toda a espécie para o galheiro. Mandem a Feira do Livro apanhar na bolha dos monopólios. Mandem os eventozinhos de treta da botânica das influências e compadrios institucionais para as urtigas. Metam a pornografia da agenda numa lógica financeira preservativa da Região. Mandem os acontecimentos de merda pagar a merda toda que nos custam. O Rio morreu. Viva o nascente. Bem sei que é difícil suspender a lógica dos apoios eleitorais, bem sei. Mas quem vier a seguir apoie, subsidie, patrocine, levante a Cultura que nos consciencializa como cidadãos e faz evoluir como corpo societário, ao invés de fazer evoluir a carteira dos empresários que sonham em entrar para o psi20 e trasladar a sede para a Holanda.

A Cidade do Porto tem muita gente válida e inteligente. Será possível que dos poucos néscios e iliteratos funcionais que nos assombram calhe sempre um na presidência da Câmara? Não se arranja algum feirante político que consiga ver bem ao perto?

 

Renato Filipe Cardoso

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