‘Rally Musical’ das Señoritas teve classificativa no ‘Café au Lait’

E depois das aventuras musicais de Sandra Baptista (primeiro nos Sitiados de boa memória) e de Mitó Mendes n’A Naifa, essa banda de quem se nutrem múltiplas saudades pelo carácter impressivo e inovador das letras e das composições musicais, eis que as duas amigas decidem juntar-se para incorporar de novo um ‘projecto melódico’: Señoritas.

E chegou a fase em que o prazer de comporem e ensaiarem em parceria as havia de juntar em palco, para transmissão ao público daquilo que fazem e sentem. O Café au Lait, numa das artérias nucleares da movida portuense, acolheu o primeiro concerto ao vivo das Señoritas, na passada sexta-feira.

Sentados nas escassas cadeiras disponíveis da cave do bar ou de pé em circunstanciais conversas de espera, os espectadores foram-se acumulando paulatinamente no espaço. Às onze horas da noite Mitó e Sandra apresentam-se no estrado e fazem menção desta actuação pioneira. Sandra está de preto, com uma flor vermelha na lapela. Mitó é portadora de um vestido da ADIDAS, com bolas amarelas a sobreporem-se a um fundo preto, muito próprio para quem entra em campo, perdão, em palco.

“Acho que é meu dever não gostar” é a primeira a desfilar, uma entrada com aquele baixo insinuante de Sandra, possuidor de uma sonoridade que se afigura robusta e a voz encorpada de Mitó a projectar-se no espaço. O tecto descarnado da sala, com as vigas brancas antigas e as canalizações à vista, é também testemunha do momento.

As canções vão prosseguindo e à timidez inicial do público contrapõem-se sinais de um agrado generalizado. A voz de Mitó cativa por aquele tom dorido de Fado sem ser Fado de todo. E Sandra continua em grande estilo a domar o baixo e a projectar sombras no pano branco que serve de ciclorama. “7 Pragas” e “Solta-me” fazem com que o espectáculo ganhe lastro.

O som escapa fluído e nada sujo. A espaços o baixo de Sandra passa a instrumento suplente e dá lugar ao acordeão. Mitó, por seu turno, não o faz por menos e se em grande parte do tempo está com uma guitarra eléctrica na mão também a substitui ora aqui, ora ali por um xilofone ou uma tarola. Os efeitos e as programações também fazem parte do programa.

A atmosfera musical remete-nos para os bons velhos tempos dos anos oitenta e para a essa época em que imperava a ‘cronologia’ da denominada Música Moderna Portuguesa. Há neste caso um universo feminino e uma toada urbana a povoar as composições. A terminologia de algumas canções como “Confesso” e “Confissão” subvertem a liturgia habitual de uma forma sagaz e desconcertante. O canto de Mitó continua a enlear-nos e a irromper pelo espaço com fulgor e Sandra está um pouco mais atrás, com o seu baixo não muito distante de uma posição a 45 graus e uma perna ligeiramente flectida a dedilhar as cordas.

“Os funerais são o casamento dos mortos”, uma das músicas que deu origem à formação das Senõritas, consagra um dos instantes mais destacados de um concerto que vai a meio e sempre em crescendo. “Medo” entra logo a seguir e tem uma dedicatória especial, os destinatários são “todos aqueles que sabem o que é um ataque de pânico!”, atira Mitó.

 

O exercício terapêutico da música leva-nos depois até “Ciática”, a composição que se segue e onde se assiste a uma autêntica “Santanada” através da guitarra d acantora. Logo depois de “Mão Armada”, faz-se ouvir “Alice”, mas não a do ‘País das maravilhas’, que avança em boa toada, com o público a intensificar as palmas no final. “Nova” antecipa o rodapé que se pressente na actuação.

E é com “Triste em Mim”, mas com uma dose de contentamento generalizada, que deixamos de ter por companhia as Señoritas Mitó & Sandra numa versão “Dedicada às pessoas mais antigas que ainda se recordam de uma banda chamada Sitiados!”. A referência finda e percebemos que a música é “Amanhã”, uma justa e sentida homenagem à banda liderada pelo incontornável João Aguardela. Amanhã será um outro dia para elas, afinal as Senõritas passaram com distinção bem pontuada a classificativa do ‘Rally Musical’ do Café au lait, numa próxima apresentação no Porto a moldura humana vai por certo justificar uma casa mais conveniente.

Texto: João Arezes

Fotos: Rui Pinheiro

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