Um elenco que inclui dois ‘pesos pesados’, Alexandra Lencastre e Diogo Infante, sagrou-se como o elemento catalisador na conquista de público, que acabou por redundar em sucessivas apresentações esgotadas desde o período inicial de apresentação do clássico de Edward Albee “Quem Tem Medo de Virginia Woolf” no estrado principal do Teatro Nacional São João, naquela que é uma das peças mais representadas por esse mundo fora.

A última versão da qual nos recordamos, em palcos portuenses, foi levada à cena pelo Teatro do Bolhão em 2004, num trabalho conduzido por João Paulo Costa no capítulo da encenação e com interpretações notáveis de António Capelo e Glória Férias, nos papéis de George e Martha. Integravam o elenco, enquanto casal mais jovem, os intérpretes Sandra Salomé e Mário Santos cujo desempenho foi também nessa época digno de registo. À parte as analogias, a versão de João Perry à qual nos reportamos é portadora de um fel intenso, muito à custa de um discurso cru, carregado de ironia e sarcasmo que os personagens destilam a rodos ao longo das duas horas de espectáculo.

créditos: Paulo Sabino

Um casal de meia-idade, cuja relação entrou numa espiral de degradação e que está prestes a chegar ao limiar da intolerância, envolve num jogo perigoso um par mais jovem. Há uma dialéctica cruel neste pingue-pongue entre os mais velhos que por subtileza de argumento conduz à exposição frágil das subtilezas escondidas dos mais recentemente casados.

O braço de ferro impiedoso entre Martha (Alexandra Lencastre), e George (Diogo Infante), leva na torrente e faz emergir a ambição oculta de Nick, José Pimentão, o jovem biólogo, quanto à escalada carreirista deste, enquanto académico, que prossegue até ao ponto de se envolver com Martha (com uma espécie de assentimento tácito de George), ou não fosse ela a filha do reitor da universidade e, por conseguinte, a melhor alavanca para a ascensão profissional. Por seu turno, Honey, Lia Carvalho, a cônjuge de Nick, representa aparentemente o elo mais fraco de entre os quatro personagens, uma fragilidade que contudo não impede o disfarce de sucessivas gravidezes abolidas de forma intencional.

Perdura uma mentira transversal em toda a ocorrência da peça, a de que Martha e George possuem um filho, que de resto nunca aparece fisicamente, e em pleno final a sua inexistência é desvendada: uma mentira que é também uma espécie de fio condutor da própria peça.

Edward Albee expõe desta forma a decadência humana na sua plenitude universal e não apenas a da classe média-alta, digamos que uma certa aristocracia, dos Estados Unidos nos anos 60. O texto é as mais das vezes cruel e pejado de sarcasmo e ironia em altos níveis, a conflitualidade é latente, a violência verbal é contínua, com laivos de humor negro que um certo público cativado pelos nomes fortes do elenco confunde com a comédia e mais não é do que um municiador do desfecho trágico.

O jogo acaba com recurso a uma consolação mútua e hipócrita, e ninguém sai vencedor deste combate. A ideia que perpassa é de que esta luta continua e é contínua. Alexandra e Diogo interpretam com denodado apuro as missões de representação dos personagens que lhes são confiados, José Pimentão e Lia Carvalho pautam-se por um desempenho muito a preceito. Os seis candeeiros do cenário presenciaram uma noite bastante instável.

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