Quarteto ou “Valmont Condensado” no Teatro Carlos Alberto

Talvez constitua um prólogo adequado dizer-se, desde logo, que os cerca de 60 minutos da peça são merecedores da fruição de um espectador comum de teatro. Permanecer com apetite e ansiar por uma dimensão mais extensa da prestação dos actores em palco é sinónimo de algo que preencheu em pleno as expectativas de quem assistiu ao desempenho.

Num cenário sóbrio, comecemos pelos quadros feitos espelhos dos personagens (uma espécie de alter-egos) e que instalados na parte superior do palco testemunham a partir daí todo o enredo: uma espécie de gif de Valmont (Albano Jerónimo) na parte superior esquerda e, como contraponto, no direito, a figura de Meurteil (Lígia Roque); os rostos aí estampados estão em plano médio, manifestam-se a espaços surpreendentemente vivos através de um singular franzir de pálpebras perante os acontecimentos presenciados. Um sofá, sede de todo o prazer, uma cadeira e uma janela rasgada quase de fora-a-fora, mas que mesmo com muito pouca altura permite vislumbrar um tempo muito nebulado. O ambiente luminoso é de uma penumbra melhorada.

Desde a génese, com a audição de um coro angelical a marcar a atmosfera e logo em seguida com o lamento amoroso de Meurteil evocado a partir do sofá que a atenção do espectador começa por ficar presa, quase tão presa como a ‘Ligação Perigosa’ (no plural temos o título original da obra de Choderlos de Laclos que a peça convoca) que torna reféns do vício os intervenientes. Carlos Pimenta encena esta obra teatral de Heiner Müller com a astúcia de quem conhece o xadrez cénico-dramatúrgico e sabe que tudo concorre aqui para o xeque-mate.

Créditos: João Tuna
Créditos: João Tuna

Vítimas do apetite dos corpos, da volúpia, da lascívia e do deboche os personagens representados sugerem por metáforas discursivas a devassidão e por antítese, ou talvez não, percepciona-se também uma leitura moral e ética. Valmont e Meurteil através de um jogo de sedução dialéctico, em que não surpreende a omnipresença do ciúme, vão espelhando a distância existente entre o desejo do corpo e o definhar físico da anatomia.

A estratégia subtil e arriscada de colocar e até de inverter os papéis de ambos, proporcionando(-lhes) outras representações, evidencia as reais possibilidades de reconfiguração de um texto e da diversidade de entendimento da obra.

Para lá do poder expressivo patenteado pela dupla Lígia Roque-Albano Jerónimo ao longo do desempenho representativo, os actores conseguem ainda dar ênfase à combinação entre o vocabulário de cariz mais religioso e as metáforas de carácter lúbrico. Ao converter esses elementos da crença como ferramentas do discurso mais lascivo – a notável cena em que se sugere a felação é simbólica disso mesmo – espelha-se o retrato de uma época através de uma voracidade satírica e com o tom de uma ironia sagaz como recurso para o reflexo da hipocrisia vigente à data (quiçá à actualidade). Há trechos em que uma singular, doce e explícita incursão herética campeia.

À laia de curiosidade, Marquês de Sade e Choderlos de Laclos foram contemporâneos. E a verdade é que a sensação com que se fica é que também Sade apreciaria esta abordagem de Heiner Müller, mais intensa e preenchida aqui e ali com a matriz excessiva de algumas parafilias muito mais próximas dele do que do seu contemporâneo.

Créditos: João Tuna
Créditos: João Tuna

E afinal, Valmont anda por aí na sua indumentária de cortesão, passeia por nós nas ruas do quotidiano, tal como Meurteil no seu vestido azul e cabelo ruivo. Talvez andem assim ou com outras máscaras. Afinal são cara e coroa da mesma moeda.

PS – “Quarteto” ainda pode ser visto hoje, sábado, dia 6 de Fevereiro (às 21h00) e no Domingo, dia 7, às (16h00), no Teatro Carlos Alberto.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos/Créditos – João Tuna

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