“QUANTUM” – Os ‘bailarinos-partículas’ enquanto CERN(E) da dança… no Rivoli

O ponteiro das horas nas 9 e o dos minutos nos 40. Das duas… três! Ou os ‘suíços’ afinal não possuem a precisão dos célebres relógios que lhes dão a fama, ou os lusitanos pautam-se pelo seu proverbial atraso. Estamos mais inclinados para a segunda hipótese. Enquanto isso, um técnico barbudo atravessa o linóleo e parece medir a intensidade da luz a meio do palco, para onde descem quatro projectores que nunca imaginaríamos poderem ser também eles protagonistas do espectáculo. A sala compõe-se paulatinamente até encher: “QUANTUM”, de Giles Jobin, está prestes a começar. Mas antes de isso acontecer, devemos contextualizar esta aparição coreográfica.

A matriz genética de “QUANTUM” resulta, na essência, de um contacto proporcionado através de uma residência artística no maior laboratório de partículas de mundo, o CERN, sediado em Genebra, na Suíça. O período vivenciado naquela instituição proporcionou uma ‘fusão’ de conceitos artístico-científicos, uma partilha de ideias que serviu para a estruturação do espectáculo ao coreógrafo Giles Jobin.

O paradoxo supremo com que Jobin se confrontou no local foi o do princípio de que “todos flutuamos no espaço mas que a gravidade foi a força mais fraca do universo…”, se pensarmos que o coreógrafo e bailarino no apanágio da sua contemporaneidade criativa se centra, em larga medida, num trabalho que se impõe por via do contacto com o solo, esta teoria foi um choque cujo nível de impacto se tornou assinalável para o responsável coreográfico.

Logo no início do espectáculo, o som inunda-nos de algo parecido com um despejar de berlindes, ou quiçá de partículas. A luz está em modo fosco e os pares de bailarinos saem de forma lenta daquele limbo de quase escuridão. Diríamos que são três pares de partículas a estremecer por debaixo das luzes e em belo efeito. Os fatos dos…, vamos chamar-lhes ‘bailarinos-partículas’, são robustos e assemelham-se a uma espécie de indumentária espacial fílmica, por assim dizer, nuns figurinos dignos de registo, com a assinatura de Jean-Paul Lespagnard.

A luz intensifica-se e os seres trémulos abraçam-se, há neles algo entre o andróide e o humano. Os projectores oscilam e espalham feixes gravitacionais e os movimentos passam a ser sincopados e lentos nesta evocação da matéria.

Os projectores continuam a sua órbita sobre os bailarinos-partículas. Há movimentos de aproximação e afastamento periódico entre os pares. A cadência circular das luzes está em crescendo dinâmico e um elemento de carácter técnico ganha a expressão de um protagonista a multiplicar por quatro: a instalação luminosa cinética (tal como é descrita no programa de sala), da responsabilidade do artista germânico Julius von Bismarck, é de uma versatilidade notável e um elemento preponderante em “QUANTUM”, de forma prosaica, e não menos surpreendente e verdadeira, as luzes aqui dançam tal e qual como os bailarinos.

As lâmpadas da instalação executam um movimento circular. Os olhos dos espectadores seguem-nas com atenção. Os bailarinos afastam-se do centro do palco e criam equações anatómicas ao fundo do palco. Aos poucos, o movimento das luzes torna-se pendular e por vezes, mais oblíquo e até aleatório, as partículas estão mais soltas agora.

Após alguns movimentos que dão uma ideia apenas aparente de uma rota sem direcção dos artefactos luminosos, estes retomam, um pouco mais adiante, os de ordem circular. E pouco depois, os artefactos luminosos suavizam de novo para um estádio quase clássico. A música, de Carla Scaletti, como se impõe numa atmosfera de aceleração de partículas, possui um registo absolutamente experimental: desde sons extraídos que soam a ruídos próprios de discos vinil riscados (sem música), passando por queda de berlindes, a toques de diapasão mais cibernético, com electrónica insinuante, e que no fundo são texturas sonoras que ilustram bem e conferem ritmo e cadência aos diversos momentos da peça coreográfica.

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A tribo dos ‘bailarinos-partículas’ enfileira-se e ensaia o efeito dominó, numa reacção em cadeia, para logo depois todos os elementos se amontoarem. Os movimentos manifestam-se por elos conexos. Depois disso soltam-se e há um par de bailarinos em destaque que dança com gestos suaves. Juntam-se, uma vez mais, quase a simbolizar a união da matéria. Os projectores de luz parecem um baloiço, para a frente e para trás, nesta fase. Um súbito barulho de um comboio (ou algo semelhante) desencadeia nova separação, uma fractura visível, um rompimento.

Aos poucos a inércia apodera-se dos bailarinos-partículas e já só as luzes permanecem oscilantes, é o final deste exercício coreográfico de assinalável expoente estético e com a mais-valia de uma instalação luminosa cinética que se torna tão ou mais protagonista que os próprios bailarinos Catarina Barbosa, Stéphanie Bayle, Susana Panadés Díaz, Bruno Cezario, Stanistas Charré e Adriano Coletta.

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Nesta metáfora em que abordagem versa as principais leis da física e propõe quase que uma fusão entre os bailarinos e as luzes num espaço e tempo que os intersecta, a dança, as artes visuais e a ciência somam-se nesta aceleração de bailarinos-partícula.

Texto: João Arezes

Fotos: Gregory_Batardon

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