Fâ - créditos: João Tuna

O espectáculo “Fã” já tinha sido notícia no Global News aquando do anúncio da programação para o primeiro trimestre de 2017, fomos ver in loco o resultado final da colaboração entre o Teatro Nacional de São João – TNSJ e os Clã há alguns dias e comprovar todas as expectativas que recaíam sobre o espectáculo.

Esperava-nos uma plateia repleta de pais e filhos que corresponderam à chamada para esta espécie de ‘c(a)onto musical’, em que o personagem de um ‘fantasminha’ se apaixona por uma cantora, Sabina, pela qual o pânico se apoderou: ela que está na iminência de se estrear em palco e que começa por desdenhar do sentimento expresso pela singela criatura. Já lá vamos…

Há uma pitada de “O Fantasma da Ópera” nesta produção, mas a originalidade desta criação não pode ser posta em causa: Regina Guimarães gizou o texto para o guião, Nuno Carinhas encenou a peça e os Clã compuseram as canções para o efeito. E depois disso há todo um elenco, em que os elementos que integram a banda, Hélder Gonçalves & companhia, também esboçam pequenos episódios de representação no estrado do Teatro Carlos Alberto e, por inversão, os actores passam a ser músicos e a cantar em determinados momentos da peça.

“O Disco Voador”, sexto registo dos Clã, deu azo a um espectáculo de toada musical para os mais novos e isso parece ter estado na base da concepção de “Fã”, uma vez que o também director artístico do TNSJ apreciou o produto final em palco. O convite para esta aventura partiu mesmo de Nuno Carinhas, que desafiou a banda.

Manuela Azevedo encarna com versatilidade o papel de uma estrela rock, Sara, que vai auxiliar a jovem cantora a vencer os medos próprios de uma principiante, de uma jovem promessa que se há-de revelar virtuosa no futuro. O apoio de Sara, que já passou pelos mesmos temores, será fundamental para que Sabina possa vencer os obstáculos. O “Fantasputo”, tal como é descrito, ou melhor, Luca (João Monteiro), desvenda uma faceta admirável de um rapper afinado, mais lá para o final. O papel de Sabina ficou bem entregue a uma Maria Quintelas que incorpora a preceito todos os receios infundados da cantora que se acha incapaz de cantar e no que diz respeito a Pedro Frias, no seu desempenho de Calu, o director de cena do teatro onde tudo decorre (é o Teatro dentro do Teatro), está também em muito bom plano.

Neste jogo equilibrado entre músicos e actores, “Fã” ensina-nos letras trauteáveis com sabor a Pop e que se afiguram simples (os espectadores necessitam apenas de ensaiar), num espectáculo que cruza linguagens: a música com o teatro, num cenário cuja estética vai adicionando elementos e adereços, entre aviões de papel e chapéus (um belo quadro cénico), um burro ou uma banheira.

E se “Fã” contempla uma significação aproximada a alguém que admira algo de forma indefectível, a uma reverência exponencial tida por uma banda ou um artista, por exemplo, aqui a palavra consubstancia outra ‘tradução’ possível: pode muito bem ser a ‘abreviatura de um fantasma’. Afinal e tão-somente essa figura criadora de diatribes e assombrações, que “gosta de teatros, do avesso dos cenários, e aí passa o tempo a pregar partidas…”. É um espectáculo que com toda a singeleza se dispõe a ganhar um “Fã” em cada um de nós, sejamos miúdos ou graúdos, e só estará em cena até ao próximo dia 29 de Janeiro.

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