Claudia Pajewski

A julgar pela qualidade da programação apresentada ontem, as intervenções recentemente operadas na frontaria do Rivoli – Teatro Municipal do Porto traduzem a validade da proverbial frase em toada vox populis no seu sentido inverso: afinal foram obras ‘na’ fachada e não ‘de’ fachada. Serve este inusitado intróito para sublinhar que aquilo que os espectadores poderão apreciar na sala sita à Praça D. João I, bem como nos espaços do Teatro do Campo Alegre, é um vasto programa de acontecimentos culturais que parece reforçar em pleno o que se verificou em 2016.

E se começarmos pelo balanço do ano transacto, salta à vista uma estatística com peso efectivo: 150 espectáculos, 26 de carácter internacional, e 95 cuja autoria/criação pertence a companhias/estruturas da cidade. Tudo isto tornou tangível o alcance de uma ocupação das salas que elevou a fasquia até aos 100 mil espectadores. Os custos da programação ascenderam a uns muito significativos 891 mil euros de custo total.

José Caldeira / TMP

No corrente ano, a aposta cifra-se, no período de janeiro a julho, e contempla cerca de 85 espectáculos. Destes, 19 serão espectáculos internacionais, 16 dos quais em estreia nacional. 45 serão espectáculos de companhias e estruturas da cidade, sendo que 37 constituem-se como co-produções de raiz: 28 das quais serão realizadas com estruturas cujo labor se centra na ‘Invicta’. Há ainda a salientar uma co-produção internacional em regime de estreia mundial a que se somam 19 residências artísticas. Uma informação a reter é a de que o Teatro Municipal do Porto (Rivoli + Campo Alegre) aumentou ainda a dotação orçamental e vai dispor no ano corrente de 1,056 milhões de euros.

Displacement Alzghair. Créditos: Laura Giesdorf

Todas estas cifras foram anunciadas ontem numa conferência de imprensa destinada à apresentação da programação dos primeiros seis meses, na qual os intervenientes foram Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, e Tiago Guedes, director artístico do Teatro Municipal do Porto.

Para o edil portuense importa “Continuar a apostar na dimensão internacional do projecto.” O trabalho tendo como prioridade a ligação às estruturas da cidade será para prosseguir em 2017. “Existirá ainda um maior equilíbrio na dimensão programática entre o Rivoli e o Campo Alegre”, salientou o autarca.

Para Tiago Guedes o desafio é o de “Conquistar (o) muito público que dá este músculo à programação.”

 

O pontapé de saída para uma temporada de programação que se afigura bastante ecléctica dá-se já no próximo dia 21 de janeiro, com a efeméride redonda do 85º aniversário do Rivoli: um condensado artístico que soma sete espectáculos a quatro concertos e disponibiliza algumas exposições/instalações.

São nomes que vão da literatura, como é o caso de Valter Hugo Mãe – com presença marcada para o espaço do WC masculino do Rivoli, bem como da dança, com Elisabeth Lambeck, Marco Ferreira da Silva e Joclécio Azevedo, do teatro estarão, entre outros, António Júlio e Nuno Preto, e na música os contributos far-se-ão através dos colectivos Drumming, bem como dos elementos da Sonoscopia, de Joana Gama ou de Tiago Pereira. Um convite que se destina, passe a expressão, à vasta faixa etária dos 8 (e ainda mais novos) aos ‘85’. O rodapé da festa será no Passos Manuel ao som de Mvria Dj Set.

Janeiro é ainda portador de “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen, um espectáculo com direcção artística de Tónan Quito, com (re)apresentações marcadas para os dias 27 e28.

O mês de Fevereiro disponibiliza propostas diversificadas, desde “Stabat Mater Furiosa – Oratória para uma voz”, de Ana Rocha + Cão Danado, um espectáculo com interpretação de Sara Barbosa, isto no capítulo do teatro (sexta, dia 10/sábado, dia 11). Na dança há a presença da Companhia Instável com “La nuit tout les chats sont gris” (sexta, dia 17), peça coreografada por Laurence Yadi & Nicolas Cantillon (Cie. 7273). “Filhos das Mães” junta toda uma prole que as seis actrizes grávidas de “Consegues ver os teus pés?” deram ao mundo, este é portanto um espectáculo sucedâneo desse primeiro que também tem a assinatura de Martim Pedroso (sexta, dia 24/sábado, dia 25).

E o rodapé do trimestre, descrito na expressão de Tiago Guedes como “Março é um dos meses mais desafiantes”, no que toca à qualidade da programação: consagra, desde logo, a estreia mundial de “Couture Essentielle”, caracterizado como um desfile performativo da responsabilidade de Olivier Saillard, figura de proa e responsável do Museu de Moda de Paris, e que trará ao Porto cinco modelos que foram divas das passarelas nos anos 80, de Lanvin e Yves Saint Laurent, para concretizar um espectáculo que ‘tece’ a História da Moda por via do cruzamento entre a performance e o teatro. O local escolhido é também sinónimo de glamour, nem mais nem menos do que o Salão Árabe, no Palácio da Bolsa (sexta, dia 17/sábado, dia 18)

Terão ainda lugar neste terceiro mês do ano, a rubrica “Foco Deslocações” cujo mote temático tem que ver com a questão das migrações e dos refugiados: uma iniciativa que abrange áreas como o cinema, o teatro, a música e um encontro/debate. Destacam-se neste item as prestações ao nível da dança de Dorothée Munyaneza do Ruanda e de Mithkal Alzghair, coreógrafo oriundo da Síria. Todas as acções descritas terão lugar no Campo Alegre (começa a 4 de fevereiro e continua até 4 de março).

A Companhia Nacional de Bailado ocupará o palco do Rivoli, desta feita com “ITMOI”, um trabalho inspirado na figura e sobretudo na arte musical de Stravinsky, a coreografia está a cargo de Akram Khan (quinta, dia 9, a sábado, dia 11). E no final de Março haverá tempo para uma estreia nacional, “La possibilidade que desaparece frente al paisaje”, do colectivo catalão El Conde de Torrefiel (sexta, dia 24/sábado, dia 25).

Pode adiantar-se ainda que nos meses subsequentes vão realizar-se o DDD – Dias da Dança, que se realiza simultaneamente em três concelhos: Porto, Matosinhos e Gaia e terá lugar entre 27 de abril e 13 de maio. O FITEI expande-se nos palcos de 1 a 17 de junho e Israel Galvan, o portentoso bailarino de flamenco e que aos 43 anos, entre múltiplos galardões (a lista impressiona), já conta com o prémio nacional de dança em Espanha.

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