ur·ro
(origem controversa)
substantivo masculino

  1. Bramido forte e estrídulo de alguns animais.
  2. [Figurado]  Berro; mugido.

“urro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

“É um texto de alguém desalinhado, interpretado por um actor desalinhado!”, começa por referir Rui Spranger, o actor que aqui assume, tal como não raras vezes, o papel de encenador. A definição é um bom preâmbulo para enquadrar o espectáculo “Urro”, que esse lugar convertido em habitat de poetas e recitadores da matéria criativa afecta à palavra, e que dá pelo nome de Pinguim Café, acolheu entre os dias 2 e 5 de Abril.

O Global News assistiu à apresentação de terça-feira passada e confirmou um regresso em alta de Jorge Castro Guedes às lides cénicas enquanto actor, algo que já não sucedia há pelo menos uns 6 ou 7 anos a esta parte. O texto de Júlio do Carmo Gomes é, a todos os títulos, notável: mistura uma toada ao jeito do simbólico “FMI” de José Mário Branco, mais aprofundado e actualizado, com algo de “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich. E para além destas analogias, conserva em si mesmo um manancial imenso de inspiração e originalidade.

O cenário é despojado e adaptado às circunstâncias do lugar onde a ‘(re)apresentação’ decorre: três molduras sem quadro interior estão localizadas em cota cimeira ao actor (penduradas num cano junto à parede da cave do ‘Pinguim’) responsável pelo monólogo. “Give Peace a Chance”, de John Lennon, é a música anfitriã que recebe os espectadores enquanto deparamos com uma figura que apenas vemos de costas a ler e a folhear um livro (está com um pijama e um robe azul por cima, veremos à posteriori). Um candeeiro de pé, um gira-discos, um gravador/leitor de cassetes e um computador completam os elementos cénicos em conjunto com livros, discos e cassetes e uma mesa.

Uma parte substancial da dramaturgia faz-se através do recurso a uma dimensão áudio registada de forma prévia, Castro Guedes ensaia expressões faciais e corporais com as quais a narrativa ganha outro fôlego. “Cântico Negro” de José Régio anda também por ali, tal como o supracitado “FMI”. O discurso é universalista, libertário, humanista, denunciador de injustiça(s), pejado de ironia e sarcasmo e humor, por vezes negro. Persegue, diríamos prossegue, a busca por uma consciência crítica e é nessa demanda intrínseca que individual e cremos que também colectivamente, enquanto espectadores e actores do real, nos identificamos com esta dramaturgia.

A encenação de Rui Spranger é aparentemente contida, subtil na forma como dá asas ao actor para que aquilo que existe de mais expressivo sobressaia e seja comunicado através dele. E quando toda a gente se prepara para prognosticar o desfecho, dá-se um puro engano: falsa partida para as palmas já batidas! O intérprete tem um assomo que funciona como um catalisador para o resto da performance teatral. Conceitos como capitalismo, consumismo e falso ambientalismo continuam a ser enunciados até ao final. E sim, no desfecho – muito em aberto para reflexão (sobretudo nas nossas consciências) – apetece saudar a prestação de Castro Guedes e a encenação de Rui Spranger.

No que concerne ao texto que dá origem à peça, à performance teatral propriamente dita (e representada, já agora), Júlio do Carmo Gomes emerge com este “Urro”, feito guião, a um patamar de um merecido brilhantismo. O autor estudou Comunicação Social em Portugal e em França. Foi jornalista, tendo trabalhado na área cultural do semanário “A Semana”, em Cabo Verde, em 2002. Esteve na Amazónia, entre 2004 e 2005, a desenvolver projectos de comunicação popular (em rádios e jornais comunitários) junto de populações de ascendência indígena. No regresso a Portugal, entre outras coisas, foi fundador da livraria-bar Gato Vadio, no Porto – local onde a peça foi apresentada na passada sexta-feira.

Em resumo, um tónico de positiva agitação neuronal que se recomenda a todos. Em qualquer sala, mas sobretudo num espaço o mais alternativo possível e/ou numa pequena sala onde seja possível aos espectadores estarem mais próximos da órbita de interpretação.

Este espectáculo, que resulta de uma coprodução entre a Apuro Teatro e o Dogma 12, já tem apresentações marcadas para os próximo meses, em vários pontos do país: Viana do Castelo, nos dias 12 e 13 de Maio – auditório da ACEP; a 2 de Junho estará no Teatro da Rainha – Caldas da Rainha e no dia 3, na livraria Ler Devagar, em Lisboa.

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