Patti & Anthony – Uma ’empresa de sucesso’ no NOS Primavera Sound

Best Off - Day210

O segundo volume das histórias da quarta edição do Primavera Sound no Porto fica marcado por dois concertos raros: o de Patti Smith pelo transbordar de emoção e o de Anthony and the Johnnsons pela sensibilidade.

Patti Smith é uma força da natureza, quem não sabia… ficou ontem a sabê-lo ao vivo e a preto e branco no Parque da Cidade. Mais do que uma poetisa ou poeta (como agora se diz para as mulheres), a norte-americana é, no verdadeiro sentido da(s) palavra(s), uma Poe… tesa! Aquilo que foi presenciado ontem é, em suma, um grandioso espectáculo desta edição, mas isso em si mesmo é dizer pouco, na verdade tratou-se de um dos melhores concertos desde que o Primavera Sound existe na versão portuguesa, sediada na Invicta.

Ouvir ao vivo e na íntegra “Horses”, um dos álbuns seminais da história do rock (e já agora, do punk, se faz favor) constitui sempre uma aspiração de muitos e privilégio muito de poucos, mesmo se tocado, cantado e declamado para uma multidão, como foi o caso de ontem. O álbum foi lançado há 40 anos, a autora tem quase 70 (68 feitos), tudo concorria para se fazer história em solo lusitano e a 5 de Maio de 2015…fez-se mesmo!

Perante um sol ainda intenso e brilhante apesar de ser final de tarde, num ambiente matizado pela brisa atlântica omnipresente, e com uma miríade de gente expectante, Patti Smith e a sua banda entram em palco em toada simpática a saudar o público presente. Logo ali, às primeiras palavras de “Gloria”, por entre uns teclados a marcar o ritmo: ‘Jesus die for somebody’s sins but not mine’ se percebe que a voz permanece quase imutável, naturalmente tem o timbre de alguém mais velho. Vestida de preto, colete da mesma cor, t-shirt branca por baixo, cabelos brancos com faixas que outrora foram algo alouradas e que a espaços lhe entopem o olhar com a batida do vento e uns óculos escuros que ora coloca, ora retira, eis a Patti Smith que se apresenta no Palco NOS.

“Redondo Beach” sai naquele ritmo suavemente dançante e com a guitarra a planar e a voz poderosa da cantora sempre na vanguarda, aqui com o apoio declarado da bateria e do baixo. Em “Birdland” há papeis que enfatizam a palavra dita, a matéria poética que Patti tanto gosta de explorar e lê em tom meio declamado meio cantado à audiência. E em “Free Money” dá-se a verdadeira comunhão transgeracional: há gente agarrada às grades junto ao palco que rejubila e agita de forma frenética o corpo e os membros, rapazes e raparigas que poderiam ser netos da‘avô protagonista’ que está no palco. A catarse poética da norte-americana, aliada a uma grande presença em palco, contamina os habitantes temporários do recinto. E são muitos, uma verdadeira enchente, uma invasão demográfica calculada em cerca de 28.000 almas, muitas delas em agitação plena.

E Patti adverte com um sorriso: “Já estamos no lado B!”. Segue-se “Kimberly” e a alusão a Jim Morrison logo após, em “Break it Up”, a merecer um aplauso e gritos da audiência. “Land” tem aquele tom de guitarra a galope, em conformidade com o nome do álbum. O público adere, aplaude, bate palmas quase tão sincopadamente como uma claque britânica.

O momento seguinte foi tocante e emocional: imerso nesse condensado de mundo que é a poesia, o universo de Patti Smith fez com que a cantora compusesse o último tema “Elegie” para o álbum e este fosse dedicado “a todos que alguma vez amamos e que já partiram” e enunciou, de uma lista mais ou menos extensa, alguns como:  Sid Vicious, Lou Reed, Johnny Ramone, Joey Ramone, Dee Ramone, John Nash, Joe Strummer e Fred Sonic Smith. Seguiram-se momentos de silêncio intervalados por saudações enfáticas a alguns dos nomes citados. E algumas lágrimas chegaram a bordar os rostos.

E quando alguns julgavam que tudo acabava aí, Patti Smith e os seus músicos atiram com “Because The Night”, para gáudio das hostes, e logo a seguir finalizam com aquilo que poderiam ser os preparativos para uma revolução: “People Have the Power”. O capítulo “Horses” encerra aqui, que é como quem diz, pois a cantora incita o público a pedir à organização um regresso dela numa futura edição. Pelo que se viu, o grau de dificuldade dessa hipótese sair gorada é quase nulo.

O segundo momento do festival no dia de ontem foi protagonizado por Antony Hegarty, mais conhecido no meio artístico por Anthony and the Johnsons. A verdade é que o músico e compositor se apresentou com meia centena de instrumentistas, uma orquestra de peso, no Palcos NOS. Foi um rasgo de ousadia e sensibilidade de se tirar o chapéu ao autor. Uma espécie de mariposa branca em atitude performativa, a quem foi concedido o estatuto de mestre-de-cerimónias, abriu o palco à hora marcada (00h15). Ao mesmo tempo que eram projectadas imagens de “Mr. O’s The Book of The Dead”, na versão de um clássico japonês de Chiaki Nagano, desfilavam temas como “I Am The Enemy”, “Blind”,“Hope There’s Someone” que encantaram que os ouviu, por vezes no meio de um silêncio circunspecto e atento, surpreendente sobretudo para um festival com tantos motivos para dispersar e até dispensar atenção a outras propostas.

A voz de Anthony é quase inqualificável, positivamente. Com uma longa túnica branca, tocou piano e também cantou de pé à frente da orquestra, com a prestação do colectivo musical há uma sonoridade ainda mais burilada dos temas e os arranjos instrumentais enfatizam músicas como “Cut the World”, Cripple and the Starfish” e “I Fell in Love wih a Dead Boy”, este bem a preceito das imagens projectadas. O repto da ilustração musical e imagética foi vencido ao fim de mais de hora e meia. O ‘sacerdote Anthony’ deu por ganha uma celebrativa epifania.

Após a abertura pela Banda Do Mar e da mansidão melódica dos brasileiros, perfeita para a génese de qualquer coisa, fomos espreitar Yasmine Hamdan ao Palco ATP, a libanesa mantém uma marca identitária das suas raízes, mas o diapasão musical já assimilou ritmos ocidentais numa mescla rítmica equilibrada e sedutora de “Aziza” é uma prova acabada. A autora de “Beirut” deixou boas credenciais para próximas vindas e aquele balançar árabe, aquela forma de manear o corpo somados a uma voz insinuante são bem capazes de fazer estragos.

Giant Sand performs live at NOS Primavera Sound 2015

Antes da “Cerimónia Patti Smith”, os Giant Sand, do icónico Howe Gelb, que tão boa conta de si têm dado por ‘landas lusas’, aquele concerto no Festival para Gente Sentada, em Santa Maria da Feira, há 6 anos atrás, foi memorável, apresentaram-se em versão híbrida, significa meio por meio de representantes norte-americanos e os demais foram recrutados às fileiras dinamarquesas. Impecáveis nas vestes, todos de preto, com excepção da dona dos teclados, tocaram uns bons 50 minutos e acabaram em diatribes sonoras no palco, dispostos em palco, convertidos em “Cavaleiros do Apocalipse” com as guitarras a cuspirem rock por todas as cordas.

José González performs live at NOS Primavera Sound 2015

Uma espreitadela no Palco Super Bock, às 20h10, para ver José González, revelou uma vez mais o apreço do cantautor sueco pelas melodias simples, com os elementos de percussão a conviverem com as cordas, em tom ameno e suave, claro que o momento alto foi com a versão de “Teardrop”, dos Massive Attack, imortalizada no original através da voz de Elisabeth Fraser.

The Replacements performs live at NOS Primavera Sound 2015
Os The Replacements concederam um concerto em perfeita descarga eléctrica, bem ao jeito que os caracteriza, deixando tudo em palco, e aproveitando para nos relembrar de “Maybellene”, aquele tema que começamos a ouvir com Simon & Garfunkel, mas que Chuck Berry já tocava há muito.

Banda do Mar performs live at NOS Primavera Sound 2015

Belle & Sebastian foram vistos, melhor, ‘ou… vistos’, no cimo da colina, defronte ao Palco Super Bock, com uma visão magnífica e em plano geral daquela imensidão de cabeças vibrantes que acumulam nos festivais. Os autores de “The Boy With the Arab Strap” animaram com profissionalismo a multidão, sem deslumbrarem, mas sempre seguros e musicalmente irrepreensíveis, a verdade é que os fãs gostaram e acabaram convidados a partilharem o palco com os escoceses.

Spiritualized performs live at NOS Primavera Sound 2015

Spiritualized, Sun Kill Moon e Ariel Pink revelaram estar à altura dos convites para participarem nesta edição. E se os Spiritualized tinham dado boa conta de si numa edição anterior e em dia chuvoso, o projecto de Mark Kozelek, Sun Kill Moon, com o qual o músico os Red House Painters se apresentou na Casa da Música no ano passado, era virgem no NOS Primavera Sound, bem como Ariel Pink.

A noite findou com os projectos musicais Movement e Marc Piñol e amanhã, o último dia, promete deixar cansaço acumulado e algumas boas recordações…

José González performs live at NOS Primavera Sound 2015

Texto: João Fernando Arezes
Fotografia: Diogo Baptista

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments