A tradição é uma palavra complicada porque temos a tendência em pensar nela como algo que não se altera, que é imutável. Mas tradição não significa algo estático que não pode ser modificado e que se mantém sempre igual. Significa sim algo que é passado às gerações seguintes. Consequentemente, vivendo essas gerações noutros tempos, essas coisas são mantidas com um aconchego ao tempo atual.

A entrada do Carvalheira

O Restaurante A Carvalheira, nos arredores de Ponte de Lima é isto mesmo: um espaço de tradições gastronómicas minhotas, bem vivas, apresentadas de forma genuína num espaço que nos faz sentir em casa, muito acolhedor. Uma casa de sabores clássicos apresentada com elegância, cuidado e atenção.

Uma receção aconchegante no inverno

O espaço, a fazer lembrar uma sala de jantar de família de um solar minhoto, de granitos e madeiras escuras, recebe-nos com uma grande lareira acesa e mesas espaçosas. O serviço é atencioso e presente e a lista de vinhos é completa, sem ser grande, com representações de todo o país.

Nas entradas conseguimos encontrar criatividade sem compromisso dos sabores tradicionais.  As favas com enchidos revelaram-se com muito sabor, condimentadas e um final picante. As leguminosas apresentaram-se cozidas demais, o que as deixou com uma textura pouco firme. Impossível de perder é o misto de caça. Um estufado muito apurado apresentado em pasta, a parecer uma “meia desfeita” muito intensa de carnes de caça (perdiz, codorniz, faisão, lebre e coelho) misturadas com cogumelos secos e frescos. Muito bem temperado e muito bom. Uma surpresa!

O misto de caça

Nos pratos principais a lista é pequena e diversificada, mas concentrada no que é importante: a tradição minhota: Cabrito, pernil, bacalhau com broa, Robalo ao vapor com algas e sarrabulho são exemplos a acompanhar na mesa. Provamos o cabrito e o Sarrabulho e ficou a vontade de provar a lista toda. O cabrito veio acompanhado por batata nova, legumes e uma tacinha de molho do mesmo, essencial para intensificar os sabores do prato. Apresentou-se no ponto certo de assadura, ainda húmido por dentro e estaladiço por fora. O sarrabulho também apaixonou pelo nariz, dado o perfeito equilíbrio entre sangue, vinagre e cominhos, que se confirmou na boca com um sabor fresco e leve no final. Os rojões e o seu acompanhamento complementaram muito bem este arroz consistente e saboroso.

O sarrabulho e os rojões

Nas sobremesas, não se pode esquecer o clássico Abade de Priscos, um bom exemplo deste pudim, muito macio e cheio de sabor, assim como podemos terminar com um Sgropinno, uma cremosa variação do “coronel” (gelado de limão regado com vodka), com o álcool já integrado no creme de limão muito intenso e a parecer seda líquida.

A Carvalheira é uma casa de amigos com comida de família.

Texto e fotos de Paulo Russell-Pinto

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