Páscoa é sinónimo de teatro em dose dupla no TNSJ – “Águas Profundas” + “Terminal de Aeroporto”

Há peças de teatro cujo impacto inicial se traduz pelos elementos cénicos e pelo poder visual e genericamente sensitivo que transmitem ao espectador. Os três momentos de ensaio a que assistimos permitiram um ‘tacto visual’ com papel de cenário branco e também craft, isto na primeira cena, bem como tapeçaria na segunda e plástico na terceira. Material disposto em rolos… e que ‘papéis se desenrolam’ nas duas peças do Teatro Nacional de S. João (TNSJ)?

“Águas Profundas” e “Terminal de Aeroporto” constituem o 2 em 1 que o TNSJ disponibiliza em tempo de Páscoa e em plena Semana Mundial de Teatro. As duas peças têm encenação de Nuno M Cardoso a partir da dramaturgia de Simon Stephens, nome maior do teatro britânico cujo universo de representação não raras vezes se debruça sobre as questões da condição humana, sobretudo no seio familiar.

A admiração do encenador pelos textos do inglês é perceptível nas suas próprias palavras: “É isto que me provoca a escrita de Simon Stephens, fascínio, curiosidade, prazer, mas também ansiedade e tormenta, perturbando-me, pois coloca um belo espelho diante de nós, revelando as nossas sublimes fragilidades”. Daqui se depreende que a gesta criativa de Nuno M Cardoso encontra o mote ideal de inspiração para o palco.

A abordagem de “Águas Profundas” versa uma trilogia de episódios vividos sempre por duas pessoas em momento de crise. No primeiro desses acontecimentos, presenciamos uma mãe (Maria João Luís) a vivenciar um amor filial quase convertido em obsessiva posse pelo filho (Pedro Almendra), estando este de partida para o Canadá e a embarcar com o peso das memórias de um passado mal (di)gerido.

 

Numa segunda circunstância, deparamos com dois amantes recentes (Albano Jerónimo e Olinda Favas) que combinaram encontrar-se num quarto de hotel perto de Heathrow e percepcionamos a fragilidade da sua condição, da carga dos seus dilemas e becos sem saída opcionais.

créditos: Diogo Baptista
créditos: Diogo Baptista

No terceiro momento estamos confrontados com uma cena em que um homem inquieto está em diálogo com uma mulher que o vai auxiliar numa transacção ilegal e que depois vamos poder verificar ser algo relacionado com tráfico de crianças para adopção: uma ideia transposta para o palco com inspiração directa no caso de desaparecimento de Madie McCann.

Por seu turno, em “Terminal de Aeroporto” emerge a força de um monólogo, protagonizado por Rita Brutt, em que uma mulher de condição anónima decide desaparecer e deixar a casa onde habita e a sua própria família. A inquietação e angústia levam-na à fronteira emocional. E tudo isto se deve ao facto de ter presenciado e de não lhe escapar da memória a morte por esfaqueamento de um adolescente à porta de casa.

Nuno M Cardoso assume que na interligação entre as peças e de resto entre todas as cenas subjaz o peso do momento da tomada das decisões e o peso destas opções no rumo, no trilho que cada um prossegue, o corredor em que cada um deixa a sua pegada.

Para o resultado final desta soma de duas parcelas teatrais contribuíram diversos intervenientes.

No que diz respeito aos dispositivos cénicos, que aludimos na introdução através dos materiais, foi convidado Pedro Tudela, isto no que se refere à primeira cena. Sendo da autoria de Catarina Braga Araújo a cenografia do segundo momento. Nuno Baltazar assume os figurinos de Rita Brütt em “Terminal do Aeroporto” e Helena Guerreiro incumbiu-se do vestuário dos personagens de “Águas Profundas”.

A sonoplastia musical concebida para a peça “Águas Profundas” tem a assinatura de Marco Pereira e Miguel Pereira e de David Santos aka Noiserv no caso “Terminal do Aeroporto”.

créditos: Diogo Baptista
créditos: Diogo Baptista

 

O espectáculo resulta de uma co-produção da companhia Cão Danado, A Oficina/Centro Cultural Vila Flor e TNSJ. Pode ser visto nesta sexta e sábado às 21h00 e domingo (às 16h00) no Teatro Nacional de S. João.

Texto: João Fernando Arezes

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