Pascal Pinon em Espinho – O embalo terno que veio do Norte

A vida está preenchida de lugares-comuns, que muitas vezes são usados como forma de tradução do real para o plano da expressão e da transmissão das emoções. Ao dizermos que ‘as coisas simples são as mais bonitas’, isto no que concerne ao concerto das islandesas Pascal Pinon em Espinho (10 de Março/sexta-feira), isso será apenas abusivo na medida em que só ouvimos uma das intérpretes do duo composto pelas manas Ákadóttir: Jófríður, pois Ásthildur foi substituída por uma competente, mas desconhecida instrumentista. A verdade é que nem essa ausência de uma das gémeas provocou mossa no resultado de um espectáculo que foi surpreendente e encantatório, num crescendo palpável desde o início.

A voz cálida de Jófríður irrompe pela sala logo após os primeiros acordes na guitarra. O piano tacteado pela ilustre acompanhante entra suave. A vocalista, elegante no canto e no porte, tem o cabelo apanhado e traja um negro vestido, encanta-nos com uma primeira balada. A voz é penetrante e entoada, por vezes soa a um sussurro doce e noutras ganha fôlego e enche a sala. Um foco de luz banha o piano e quebra a soturnidade, tudo auxilia ao embarque nesta jornada musical que há-de durar cerca de uma hora e um quarto.

Pascal Pinon. créditos: João Paulo Teixeira

Simpática e conversadora, a islandesa desenha pequenas notas introdutórias aos temas que ambas vão tocando. Ao terceiro tema estão lado a lado de guitarra na mão e os espectadores entram naquele limbo digno das canções de embalar. “53”, apesar de ter nascido como resultado de algo trágico, é uma belíssima balada. A conjugação de vozes remetem-nos de alguma forma para o universo de “Chansons des Mers Froides”, do já desaparecido Hector Zazou, com a líder na guitarra e a companheira de jornada nos sintetizadores.

“A situação é a de que a pouco e pouco estamos a despedir-nos deste projecto… Pascal Pinon…” anuncia a artista. E para que não restem equívocos quanto ao período terminal do dueto: “Estou naquela fase de dar as boas-vindas e abraçar o meu projecto a solo”, conclui. Deste modo, o repertório que rege o alinhamento resulta da mistura, do cruzamento, entre o que era pertença das Pascal Pinon e também do disco a solo e de alguns originais ainda não editados que apenas possuem a chancela musical de Jófríður.

E se há canções que são a prova de que a tristeza pode conter uma dose de intensa beleza, as de Pascal Pinon e de Jófríður constituem, sem qualquer margem para dúvidas, a prova cabal disso mesmo. Encantada com a luminosidade solar de Portugal (algo que se compreende em pleno, face à proveniência quase polar da cantora e instrumentista), a intérprete revela um lado positivamente ‘tagarela’ nas conversas com o público.

O veludo das teclas somado à voz cuja ênfase assoma a uma dimensão próxima do celestial conforta a audiência num abraço terno vindo do frio. Pouco depois entram os convidados especiais: a inclusão de um quarteto de cordas de alunos da Academia de Música de Espinho (anfitriã através do acolhimento do concerto no auditório da instituição) funcionou em pleno e será objecto de motivação extra para as três meninas e um rapaz que ajudaram a tornar ainda mais encantatória a noite.

“I Wrote a Song” apresenta-se como o primeiro desafio a vencer. E salda-se por uma vitória a preceito dos muito jovens instrumentistas: três violinos e um violoncelo. Na sequência surge, pouco depois, um dos temas da noite, “Orange”, a tal música que as manas gémeas designaram por ‘Brahms theme’, uma vez que se inspiraram no compositor alemão para conceberem a música. Ficamos literalmente abraçados a ela.

E a secção de cordas continua a pautar a sua prestação por um renovado êxito, sobretudo para quem dispôs apenas de um dia para ensaiar com as Pascal Pinon. A concentração já tinha estado em alta em “Babies”, a música do homem que queria estar próximo de Deus e que para tal criou umas asas para voar como os pássaros. Mas depois chegou à conclusão que era melhor ser peixe e poder nadar em todas as direcções.

O afago das cordas continuou a ser apreciado em “Somewhere”, tema com o qual se começa a pressentir o final do espectáculo, em toada de perdidos num bosque encantado: enleados por vozes que trauteiam, um piano macio, e a beleza das cordas beijadas pelos arcos. E com “My Work”, um inédito, cai o pano. E as erupções cutâneas prosseguem com aquele canto magistral de Jófríður e a harmonia instrumental.

O regresso torna-se imperativo mediante os pedidos do público. O encore é portador de dois temas. As cordas despedem-se em definitivo e Jófridour fica sozinha ao piano em mais uma concessão balsâmica para as nossas almas. A banda cujo nome alude ao homem bicéfalo de origem mexicana e que gravou quatro álbuns (“Pascal Pinon” – 2009/produção própria; “Pascal Pinon” – 2010/Morr Music; “Twosomeness” – 2013/Morr Music e “Sundur”-2016/Morr Music) já não regressa. Mas ficamos ansiosamente à espera do retorno de Jófríður Ákadóttir.

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