créditos: João Tuna

Há desde logo um facto a reter para o potencial espectador de “Os Últimos Dias da Humanidade”, peça cuja autoria pertence a Karl Kraus e que hoje, quinta-feira, sobe ao palco do Teatro Nacional de São João (TNSJ): a área de cena aumentou de forma exponencial e tem agora uma extensão que vai desde a plateia convencional até ao palco, o desfile interpretativo ganhou território. Para além disso, na parte ulterior do estrado passou a existir uma plateia com fileiras separadas por uma abertura, que ganhou a forma de anfiteatro, e com isto ganham-se duas perspectivas visuais (e não só) sobre a versão do primeiro conflito armado à escala universal do século XX: sim é esse mesmo que a partir de hoje ganha forma em cena(s).

A versão da peça, que será apresentada entre 27 de Outubro e 19 de Novembro, reveste-se de algumas singularidades, desde logo porque disponibiliza duas opções a quem a quiser ver: em três módulos de histórias, que podem ser vistos separadamente, ou através de uma visão em formato compacto, numa autêntica maratona teatral de oito horas (entre as 15h00 e as 23h00), prevista para o dia 19 de Novembro. Esta última configura uma experiência radical para o espectador, quase se diria tratar-se de um domínio de duração que é mais do apanágio do incontornável encenador lituano Eimuntas Nekrosius, cujas peças chegam a durar cinco horas.

E se a I Grande Guerra Mundial decorreu há cem anos, importa realçar, para lá do aspecto da simples efeméride, que a iminência de conflitos armados à escala mundial sempre pairou daí para cá na ‘mente da humanidade’. As dramaturgias têm assumido com frequência o assunto: o TNSJ testemunhou em Fevereiro deste ano, num dos momentos altos da sua programação, a presença da peça “Guerra”, pela mão do encenador russo Vladimir Pankov.

créditos: João Tuna
créditos: João Tuna

Na peça em questão, as 209 cenas que constituem o texto inicial concebido por Kraus foram convertidas pelos encenadores Nuno Carinhas e Nuno M. Cardoso, que para esse efeito contaram com o apoio ao nível da dramaturgia de Pedro Sobrado e João Luís Pereira, ao longo dos últimos três anos. Deste labor cirúrgico nasceu a mais recente criação de produção própria do TNSJ que inclui um elenco vasto, com mais de duas dezenas de actores envolvidos.

E se a gesta criativa desta versão teve por base o texto do dramaturgo alemão que explora o “Carnaval Trágico” da Grande Guerra, o espectáculo em si mesmo assume um formato dividido em três partes, como já foi referido: Esta Grande Época (27 e 30 de Outubro/4, 9, 12, 17 de Novembro), Guerra é Guerra (28 de Outubro/ 2, 5, 10, 13 e 18 de Novembro) e A Última Noite (29 de Outubro/3, 6, 11 e 16 de Novembro). Uma sequência cronológica evolutiva dos acontecimentos dramáticos, tendo como momento inicial o assassínio do arquiduque Franz Ferdinand em Junho, na cidade de Serajevo, até ao colapso do Império Austro-húngaro, em Outubro de 1918.

Nuno Carinhas descreve o trabalho ao Global News: “ A peça tem muitas cenas de farsa e comédia. A dramaticidade está no conjunto das cenas, algumas são absurdas. É como se existisse uma retracção da humanidade. Afinal os humanos não mudaram assim tanto. No fundo, essas ‘micro cenas’ que constituem a peça são visões didascálicas da actualidade”, sustenta.

“Os Últimos Dias da Humanidade” consagram na essência essa soma metafórica da recolha de Kraus sobre a Guerra, toda a carga dramática do conflito passada para o palco, com o seu simbolismo. Às metamorfoses sociais e políticas que derivam da ocorrência deste impacto, o dramaturgo germânico espelha uma nova perspectiva: desde as novidades estratégicas, designadamente do combate em trincheira, à utilização de armas químicas que são geradoras de um novo cenário, com o pragmatismo da vitória a deixar para trás a honra militar que foi quase sempre um valor prevalecente nas batalhas. Uma questão portadora de um novo conceito de ética.

“Os contemporâneos, que consentiram, que acontecesse o que aqui fica registado, renunciem ao direito de rir, em prol do dever de chorar. Os feitos mais inverosímeis aqui relatados aconteceram na verdade; eu pintei o que eles só fizeram”, diria Kraus sobre a peça (o texto da mesma foi escrito entre 1915 e 1922). Se pensarmos que ao fim de duas décadas, o mundo foi abalado por outro conflito de grandes dimensões talvez faça todo o sentido ir ver o trabalho e exercitar reflexões sobre os caminhos da actualidade. O espectáculo pode ser visto às quartas às 19h00; de quinta a sábado às 21h00 e aos domingos às 16h00.

A pretexto da peça serão igualmente realizados uma conferência e o lançamento de um livro, no próximo dia 12 de Novembro.

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