O público que se deslocou ao Teatro Carlos Alberto, no Porto, assistiu durante quatros dias (de 14 a 17 de Dezembro), em diferentes récitas, a uma ressuscitação, em tempo de uma celebrativa natividade, que se saúda. “Ou isto ou Aquilo” é uma fusão de matéria poética, musical e teatral destinada a evocar Cecília Meireles, a grande poetisa brasileira nascida no Rio de Janeiro, no princípio do século XX. Ir ao baú, que o mesmo é dizer regressar a 1979, ano da estreia do espectáculo, e levá-lo ao seu habitat natural, o palco, durante 60 minutos, torna-se um acto corajoso, sobretudo quando se corre o risco de alguns considerarem essa proposta algo datada.

Nada mais errado, “Ou isto ou Aquilo” é uma ousadia transportada a cavalo de um dilema pleno de ‘fanta(poe)sia’ com pertinência actual. Trata-se assim de um recital de poesia e música povoado por um imaginário que cativa o espectador pelo despojamento de artefactos cénicos. Essa sobriedade de elementos remete a composição do todo para o enfoque no papel dos actores, cantores e músicos: Lena d’Água, José Caldas, e Tahina Rahary.

E se nos debruçarmos nos intervenientes, Lena d’Água transporta-nos com leveza e graciosidade nos gestos e no canto para o universo poético de Cecília Meireles: aos 61 anos esses predicados outorgados no passado parecem ter tido uma renovação de validade, de vitalidade, diríamos. José Caldas, o encenador e autor deste objecto artístico é, em termos biográficos, um personagem vivido com um carácter impresso em múltiplas companhias portuguesas (e muitos périplos pelo mundo), de norte a sul do País, onde tem vindo a deixar o legado do seu labor de forma vincada. Tahina Rahary revela toda uma versatilidade ao longo do espectáculo, onde é domador de vários instrumentos, ele que é um criador do jazz de cariz étnico, com forte matriz no ADN da música folk praticada em Madagáscar e em Portugal. E convém dizer que a composição musical de todo o espectáculo é tributária de Luís Pedro Fonseca, já desaparecido, ele que foi um dos fundadores da banda Salada de Frutas, à qual, como se sabe, pertenceu Lena d’Água.

Talvez não seja despiciendo dizer que a própria poetisa homenageada no espectáculo tinha uma inclinação natural para a música, sendo certo que Cecília Meireles frequentou o Conservatório Nacional (Rio de Janeiro), onde estudou canto, violão e violino. Por seu turno, na dimensão poética de “Ou isto ou Aquilo” importa sublinhar que os poemas convocados para este desempenho performativo são muito divertidos, a espaços há outros que surgem imersos numa grande sensibilidade e ainda os que se afirmam pela toada desconcertante, todos eles num conjunto harmónico que faz sentido e merece ser visto por um auditório mais vasto: uma itinerância impunha-se e justifica-se pelo valor artístico, pedagógico e didáctico intrínseco ao trabalho.

“Ou isto ou Aquilo” situando-nos no dilema de podermos estar ou não, de podermos fazer ou não, convoca-nos enquanto espectadores do recital e actores do quotidiano para a reflexão de face à inexistência da ubiquidade fazermos o barómetro do valor do vórtice de aceleração diária que alguém tornou imperativo e que nos cria a ilusão de estarmos em todo lado. O tempo no Teatro Carlos Alberto felizmente parou, pelo menos nos 60 minutos que passamos a olhar para o palco.