Os brandos costumes

Guesus / Foter.com / CC BY-NC-SA

A expressão ‘brandos costumes’, mesmo eivada do estigma da conotação ao ancien regime, é comummente utilizada para representar a mentalidade do povo português. Em termos simples refere-se á faceta lusa de não ser extremista, mas moderado.

Independentemente da validade absoluta da acepção popular, claramente discutível, é, no entanto, totalmente desfasada em termos do relacionamento com a classe política em Portugal. E isso é facilmente comprovável num sucinto exercício retórico: Seria possível, em alguma circunstância, no nosso país alguém sem grau académico como o ex-primeiro ministro britânico John Major almejar liderar o governo da nação? A resposta, ainda que retórica merece ser referida, para que conste: provavelmente nem num governo provisório de emergência nacional o que não só contraria a lógica dos brandos costumes como assume contornos manifestamente extremistas. Sem grau académico não há aspirações aos mais altos cargos da nação! Magister Dixit!

O mesmo epíteto de extremista, ainda que numa lógica distinta, poderia ser aplicada à recente decisão ‘radical’ de dois ministros alemães, de pastas tão importantes como as da Defesa e da Educação, se demitirem na sequência da divulgação por parte de activistas online de evidências de plágio dos governantes. Impensável em Portugal! Os brandos costumes justificam que um ex-Primeiro Ministro tenha sobrevivido às denúncias online acompanhadas de investigação jornalística acerca das circunstâncias em que obteve o grau académico. Circunstâncias equivalentes tampouco impediram que um ministro do actual executivo se tenha mantido no elenco governativo. Serão questões Socráticas? Ou quiçá de relva caprina? Seja como for fica claro que em Portugal não vale a pena o esforço de comprovar a existência de plágio (ainda que os resultados fossem interessantes), porque seria com certeza inconsequente.

Mas, em abono da verdade, talvez tal especificidade portuguesa seja o resultado da idiossincrasia dos países do Sul da Europa – os que merecem epítetos não menos simpáticos dos parceiros europeus. Ops, se calhar não! O nome Oscar Fulvio Giannino não deve ressoar no inconsciente da opinião pública portuguesa mas serve qual luva de pelica para dar uma bofetada moral nesta questão. Giannino corresponde a um candidato à presidência do Governo italiano das eleições antecipadas do dia 24 de Fevereiro, que abandonou a corrida eleitoral e a direcção do partido Fare, ou Bilhete para Travar o Declínio na sequência da divulgação de dados relativos ao seu curriculum vitae. Não só não tinha concluído as licenciaturas em Direito e Economia constantes no seu cv, como tampouco havia frequentado uma pós-graduação em Finanças Públicas e Empresariais na Universidade Booth de Chicago. Por cá, os títulos são incluídos antes de concluídos por lapso e mais recentemente virou costume omitir elementos curriculares inconvenientes. Em qualquer dos casos sem quaisquer consequências relativas à perda de cargo governativo.

Mas haverá alguma razão lógica que justifique a existência e manutenção dos fenómenos Relvas e Alves (que só diferem num ‘r’ de reincidência) apesar de toda a má publicidade que daí advém? A existir não será certamente a dos brandos costumes, mas a de diluir o foco da insatisfação e fúria populares da figura do Primeiro-Ministro. Seja como for, afinal de contas apetece dizer que afinal em Portugal somos mesmo brandos com os suspeitos do costume.

Rui Alexandre Novais,
leciona e investiga na área dos media e comunicação (CECS/UM, UP e University of Liverpool)

Comentários

comentários

Powered by Facebook Comments