Operação (dos) Interpol “varreu” o NOS Primavera Sound

interpol

É, sem dúvida, um título telegráfico para o manancial de ocorrências do primeiro dia do NOS Primavera Sound, mas a noite foi sobretudo deles. A banda liderada por Paul Banks foi ‘nuclear’ (na boa acepção do termo) no âmbito do cartaz e impôs-se no espaço ‘ecológico’ do Parque da Cidade. No contexto do ecossistema em geral, nem toda a fauna humana soube apreciá-los. O que não invalida uma prestação a preceito dos nova-iorquinos. E sim, há mais responsáveis por uma boa noite de concertos. Patti Smith ‘dividiu o pódio’ com eles.

bruno pernadas

Sem que a hora marcada fosse beliscada (17h00), Bruno Pernadas e a sua trupe numerosa deram uma perninha… simpática à abertura da quarta edição do NOS Primavera Sound, ainda o recinto estava a milhas de encher. Mudança de palco(s), do NOS para o Super bock, e com os Cinerama, de David Gedge, o panorama demográfico entrou em evolução, mas nunca em ebulição! No magnífico recinto que acolhe o “Primavera” ouviram-se os britânicos em toada descontraída: havia peregrinos melómanos espalhados pela colina, ainda em fase de apropriação de território. Duas guitarras, um baixo, teclas e bateria animaram as hostes durante uns bons 50 minutos. “Dance Girl, Dance”, do primeiro álbum “Va Va Voom” (1998), foi dos temas que mais fez agitar as anatomias que se apresentaram em número razoável defronte do palco. A música foi encorpando, ganhando fôlego ao longo do espectáculo e o exótico indie pop da banda mostrou-se sedutor de um público em fase morna de aquecimento.

cinerama

A atingir as 19h00, nova mudança de ponto de observação e escuta para ouvir Mikal Cronin, que, diga-se em abono da verdade, concedeu um dos concertos do dia. E se o som, a espaços, derivou com a brisa atlântica em hiatos de audição nos primeiros concertos, aqui a questão é que saiu sujo até determinada altura. O que não inviabilizou a fruição de um dos mais conseguidos espectáculos deste primeiro dia, tal como já referimos.

O músico norte-americano colheu os frutos do primeiro magote de multidão digno de registo e que já se acumulava no Palco Super Bock para satisfazer a curiosidade. Equipados com duas guitarras, teclados, e uma bateria, foram espalhando a partir do palco algum frenesim contagiante à população. E se o volume nos parece algo sobredimensionado na génese das operações musicais, a verdade é que a mescla de sonoridades de que fazem apanágio não se compadecem com melodias suaves, o garage e o punk rock são notórios como mote influenciador do diapasão, ainda que o ritmo também possa soar a indie rock (Mikal, por seu turno, acaba a suar). Os corpos balançam ora para a direita, ora para esquerda, bem como as cabeças que se agitam para frente e para trás e tudo isto em apenas dez minutos de música debitada, bem melhor do que em qualquer ginásio.

E Cronin faz transfigurar a guitarra convertendo-a numa arma que dispara solos com o braço apontado para o solo, numa tarefa em que é acompanhado pelo outro comparsa da guitarra. O baixo está entregue a uma figura cuja esfinge em tudo se parece com a imagem estereotipada de Jesus Cristo, não há milagres, mas a impavidez, no caso em concreto, traduz profissionalismo. A armação capilar do baterista oscila fruto da batida forte e do acompanhamento rítmico. A condimentar a estética deste quadro começam a insinuar-se por cima do estrado umas tímidas luzes de cor alaranjada e amarela. E em “Change”, do álbum MC II (2013), há lugar para outro solo que viaja à velocidade da distorção, para uma outra galáxia musical.

As luzes, agora em tom avermelhado, ganham maior intensidade e outro fulgor luminoso à medida que a luz do dia vai sucumbindo. Há cambiantes de azul nos focos do palco quando a apresentação está quase a chegar ao final e a sensação de que Mikal pode regressar numa próxima edição e ser tributário de uma outra hora para mostrar os seus créditos musicais.

Enquanto Patti Smith se apresentava em registo spoken word no Palco ATP, num autêntico concerto ‘para gente sentada’ e que fez as delícias emocionais de quem o presenciou, com a voz impressiva da americana a encaixar na matéria poética e a encantar os presentes, alguns com quem conversamos asseguraram ter assistido ao grande momento do festival até agora.

mac demarco

O dom da ubiquidade, condição válida e exclusiva da entidade cósmica (para os crentes, é óbvio) e/ou do “Emplastro”, essa figura icónica da Invicta, não parece querer nada connosco, por isso o Global News presenciou a prestação musical do canadiano Mac DeMarco que decorreu à mesma hora da apresentação de Patti Smith (hoje lá estaremos a acompanhar o momento histórico reservado para “Horses”), ‘o homem dos dentes da sorte’ rubricou um dos momentos mais animados da noite e que acabou com o inusitado rodapé artístico de “pôr o rabo ao léu” para toda a populaça!

Logo no início se percebeu que animação era coisa que não ia faltar, pela segunda vez consecutiva foram cantados os parabéns a alguém das equipas das bandas, já o mesmo havia sucedido no momento precedente com Mikal Cronin em palco. E se no concerto deste último não houve champagne, a brigada de Mac DeMarco não enjeita uma prova dessa bebida celebrativa. A atmosfera é toda ela muito ‘cool’ e enquanto os músicos se divertem em palco há musas que se passeiam pelo espaço com enfeites florais e que se dispõem a fazer-nos sonhar com o paraíso. Tal é o charme e a fragância visual que espalham pelo recinto. Dos canadianos ficam-nos também como legado para memória futura alguns bons momentos “zappianos” naquela toada típica das vozes e da interpretação.

FKA Twigs

O ‘conceito bola de ténis’ do NOS Primavera Sound leva-nos a mudar para o Palco Super Bock, com objectivo de ver uma das mais ansiadas estrelas da noite: FKA Twigs (cujo verdadeiro nome é Tahliah Debrett Barnett), a cantora, compositora, dançarina e produtora musical britânica de 27 anos tem suscitado muito interesse por onde passa, daí que as espectativas estivessem ao rubro para a ‘(ou)ver’.

Mais vestida do que é habitual, de blusa curta, calças de ganga e sapatos de salto alto, demonstrou ser um fenómeno performativo em perfeita aliança com a toada de ritmos electrónicos que marca a música que produz, numa mescla exótica de capacidade interpretativa, erotismo e uma marca identitária tribal. Uma voz colocada, a fazer lembrar algo não muito distante de uma Neneh Sherry, FKA Twigs fez balançar muitos corpos e desencadeou gritinhos histéricos de um ninho de fãs que se encontrava mais próximo do palco. A grande questão para a posteridade, ao fim de uma hora de concerto, é a resposta a uma grande interrogação: vai conseguir reinventar-se enquanto projecto musical ou vai dar razão às vozes que há muito a sentenciaram como um ‘hype exótico’?

À hora certa para os acontecimentos, 10h20, os Interpol entram no Palco NOS. Há duas mãos gigantes que se afagam no ciclorama e luzes que despejam a cor vermelha no palco: “Say Hello to the Angels” irrompe com frémito e garra a abrir as hostilidades. “Anywhere” segue-lhe o resto, logo após um “Obrigado!” em acentuado e rigoroso tom português, pronunciado por Paul Banks. “Hands Away” completa o trio de ataque inicial. Um pouco mais à frente o público reconhece pelo afago de cordas inicial “Leif Erikson”, um dos temas mais icónicos da banda norte-americana e há braços no ar em jeito de aprovação, o palco está polvilhado de feixes de luz laranja entrecortados por focos que brotam tons de azul.

“Rest my Chemistry” e “Everything is Wrong” prosseguem a afirmação musical, mas há franjas de público que por desconhecimento dos temas não afinam pelo entusiasmo, “The New” vai no sentido oposto e desperta alguma identificação por parte das hostes. Projecções de figuras geométricas e simétricas vão ocupando o ecrã principal do palco, bem como a imagem fantástica de um mar revolto.

No núcleo duro da banda, Sam Fogarino, apesar da bateria se encontrar na retaguarda, destaca-se pela vanguarda rítmica, com aquela batida seca e certeira. Paul Banks cujas semelhanças com Brad Pitt fazem despertar a líbido do mulherio, afirma-se em estado presencial na voz e naquela guitarra que parece fazer ecoar gemidos e que é tão típica na sonoridade dos Interpol. Daniel Kessler revelou aquilo que lhe conhecemos, o de ser um pilar seguro na guitarra. Os teclados e o baixo (parece ser tangido com alguém parecido com o Chefe Jerónimo) estão longe de destoar.

Em “Pionner to The Falls” distinguem-se todos os instrumentos com extrema facilidade, sem dúvida um dos mais refinados temas do colectivo nova-iorquino.

E com “PDA” nos ouvidos ninguém parece sofrer da PDI. Salta-se mais do que foi habitual e percebe-se que a coisa está a tingir o seu fim. “Untitled”, “Stella Was a Diver She Was Always Down” e “All the Rage Back Home” ficaram para um encore pouco exigido e tirado a ferros por alguns mais afoitos no meio da multidão. Uma certa dose de apatia do público (pouco habitual) foi talvez a nota mais estranha e pouco explicável de um concerto irrepreensível e profissional concedido pelos Interpol.

nos primavera sound publico

O pano do primeiro dia caiu ao ritmo das sonoridades mais ousadas de Juan Maclean (Palco Super Bock) e Caribou (Palco NOS).
Consta que a 5 de Maio o tempo estará menos frio…

Texto: João Fernando Arezes
Fotos: Diogo Baptista

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