Ainda há dois dias para apreciar “Inferno”: Dante instalou-se no palco do Teatro Carlos Alberto (TeCA), pela mão da companhia O Bando, desde a passada quinta-feira. A peça será levada à cena hoje, sábado, às 19h00 e amanhã, domingo, às 16h00. A peça integra a programação do Festival Internacional de Expressão Ibérica (FITEI).

Fazer a transposição de uma das partes de uma obra tão simbólica e complexa, como é o caso do “Inferno”, da célebre “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, para o palco, é um desafio de monta. João Brites, o homem que segue ao leme da companhia O Bando, e que é também o encenador da peça, está habituado a reptos que são portadores de tarefas hercúleas. “Foi um bocadinho assustador, ainda para mais tratando-se de um texto do século XIV. No princípio de tudo isto, nunca pensei que iria conseguir utilizar cerca de 60% do texto original”, confessa.

créditos: Filipe Ferreira

Talvez possa ser mais assustador ainda se pensarmos que Brites tenciona levar à cena a trilogia integral. E assim, depois deste episódio incontornável composto pelo “Inferno”, ficamos à espera de “Purgatório” e “Paraíso”. Neste primeiro excerto do grandioso poema épico composto por três estações, deparamos com um cenário metálico cinzento (que à primeira vista nos parece ser feito de alumínio), repleto de múltiplas estruturas verticais em que se acentua uma escadaria de feição escheriana disposta em espiral e que por outras palavras é descrito como uma “gigantesca e labiríntica floresta de ferro”. A impressão do ensaio a que assistimos deixa-nos a pensar que o “Inferno” tem diferentes camadas.

Na verdade, este retrato do “Inferno” traça uma analogia com o processo de nascimento da Europa, mas a analogia também nos transporta e remete para a actualidade do território em que vivemos, versando múltiplos aspectos: o poder, a religião os exilados, os refugiados.

Por outro lado, a peça é descrita como um doloroso reino habitado por suspiros, gritos, “palavras de dor”, acentos de ira e onde tudo “gira”. “Inferno” espelha um trajecto que decorre da multidão para o palco. Parte do“ horror das trevas” até ao ponto de chegada: a “redenção da luz”. Os 21 personagens erram pelo espaço (e vemo-los sob a forma de sombras, em trios ou trindades). Há um certo pendor excêntrico nos chapéus que usam. Uma jornada marcada por imprevistos de pânico e desesperança, que são de igual modo espelhados por via do canto lírico e das figuras em movimento.

“É uma maneira de falarmos das religiões monoteístas e dos momentos em que as mesmas são vividas com algum fundamentalismo”, refere o encenador. “Inferno” tem como desígnio apelar à imaginação e à reflexão por parte do público sobre a questão da humanidade nos dias de hoje. João Brites enfatiza: “É bom conhecermos a história do Dante, e compreendê-la, mas sobretudo na similitude que tem com o nosso tempo. Interessa-me fazer um espectáculo sobre o presente.” E a maior das conclusões sobre a peça é a de que se trata na essência de “uma contemplação daquilo que somos”.

créditos: Filipe Ferreira

As restantes duas estações da “Divina Comédia” constituirão matéria-prima de trabalho para O Bando, estando “Purgatório” com estreia prevista para 2019 e o embarque para (o) “Paraíso” calendarizado para 2021, o que perfaz seis anos de trabalho dedicados ao universo poético de Dante.

O elenco da peça é composto pelos infernizados: Ana Brandão, Bruno Bernardo, Bonifácio, Carolina Dominguez, Catarina Claro, Cirila Bossuet, Guilherme Noronha, João Grosso, João Neca, José Neves, Juliana Pinho, Lara Matos, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Paula Mora, Raul Atalaia, Rita Brito, Rita Gonçalves, Sara Belo, Sara de Castro e Tomás Varela.

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