O furacão da informação

Montagem feita digitalmente, a fazer crer que o furacão Sandy tinha chegado a Nova York

Para além da destruição e devastação nas zonas afetadas, o lastro do furacão Sandy deixou a nu uma série de paradoxos prementes na atual sociedade da abundância de informação. Desde logo confirma em definitivo, se dúvidas ainda subsistissem, que o mundo encolheu nas dimensões económica, política e cultural e que os acontecimentos como os do Sandy assumem a categoria de eventos noticiosos globais.

Mas, apesar do abatimento das barreiras geográficas e temporais, e não obstante a comunicação global estender o espaço simbólico partilhado ao conectar pessoas a grande distância em comunidades simuladas de interesses comuns, ainda é evidente um enorme hiato nos critérios de noticiabilidade. Senão, compare-se a saturação mediática concedida ao impacto do Sandy nos EUA por contraposição à ausência no menu noticioso das consequências provocadas noutros países – por exemplo em Cuba.

Para além da contradição entre o global e o glocal, o episódio tem subsumido um incontornável paradoxo entre a quantidade e a qualidade da informação disponível com ramificações para a dicotomia média tradicionais versus média sociais. Parece inegável a este propósito que a internet aumentou exponencialmente o acesso à informação, excedendo a possibilidade de contacto dos media tradicionais e permitindo mais pontos de acesso tanto a produtores como a consumidores. Tal aumento da quantidade, contudo, não tem correspondência proporcional na qualidade do produto informativo. Na verdade, o aumento no acesso e do volume de informação  não resulta automaticamente numa sociedade mais  e melhor informada, dado que esta precisa de ser processada e verificada. Pior ainda, como foi o caso, quando os media sociais registam utilizações abusivas com intuitos de entretenimento com recurso a fotomontagens ou à utilização de fotografias de outros eventos.

Esperar-se-ia que os cidadãos estivessem agora supostamente menos dependentes dos gatekeepers jornalísticos, podendo superar as limitações da cobertura episódica, simplificada personalizada, e descontextualizada que pauta o tratamento noticioso internacional por parte dos media tradicionais. O que se verifica, no entanto e ironicamente, é que o excesso de informação aliado à qualidade sofrível dos conteúdos disponíveis online limita ou condiciona a capacidade de avaliação, podendo redundar em exaustão e alienação das audiências, algo que confirma a importância dos jornalistas enquanto filtros das mensagens mediáticas e mediadores na interpretação das mesmas.

Em suma, entre as ‘vítimas’ do furacão Sandy constam a cobertura mediática extensa e inteligente dos assuntos públicos, bem como, a credibilidade da matéria-prima a circular na internet e nos media sociais como fontes de informação alternativa, ambas essenciais para a salubridade da democracia.

Rui Alexandre Novais,
leciona e investiga na área dos media e comunicação (CECS/UM, UP e University of Liverpool)
 

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