Vamos tentar conjugar tudo, ou quase tudo, no tempo presente, pelo menos em termos textuais. Se bem que o corpo, o nosso corpo, para lá da existência no presente, tem um tempo passado e a promessa de ser o habitat do Eu até um (in)certo futuro.

Há tentativas de descrição de um espectáculo cuja linearidade da escrita evita a todo o custo o uso de uma adjectivação que determinadas correntes dominantes reprovam. No caso de “O Aqui”, torna-se incontornável dizê-lo, é um espectáculo bonito, muito bonito, aliás. Toda a disposição das peças neste xadrez coreográfico faz sentido, com os movimentos anatómicos dos bailarinos numa demanda constante pela imposição face à dança das cadeiras… de rodas.

A relação do indivíduo com o seu corpo, com a geografia do corpo, a latitude e longitude do corpo e a órbita gravitacional que ele descreve estão ‘Aqui’ presentes em todo o seu esplendor. Vive dessa trilogia essencial patenteada em palco: Eu, o corpo e o tempo em que tudo se inscreve. Há cortinas que correm atrás do tempo, que o seccionam por episódios, por porções cronológicas.

créditos: Cláudio Ferreira

“O Aqui”, espectáculo que o Teatro Nacional São João acolheu em estreia nos dias 27 e 28 de Outubro (sexta e sábado), contém esse vasto manancial de leituras, de ilações (e de lições). Vemos os exercícios de superação dos bailarinos com deficiência plasmados no linóleo e a consonância com os outros, como um corpo colectivo que a espaços acaba a fragmentar-se. Um tributo à génese do corpo, como se da origem do corpo se tratasse e uma homenagem a esse mesmo corpo que a terra há-de tragar.

A força da palavra, a beleza poética do texto, alicerçada no registo fónico de Natália Luiza (a dramaturgia também está a seu cargo), cria essa harmonia entre a combinação que se estabelece entre o vídeo-esboço, o vídeo-imagem, a música, o teatro de sombras e a expressão (da) mecânica do(s) corpo(s) e das cadeiras de rodas.

Em “O Aqui” há todo um conjunto de ferramentas coreográficas, com muito bricolage, muito trabalho de casa, de quem dirige e interpreta.

Ana Rita Barata, que assume a direcção artística e a coreografia, bem como Pedro Sena Nunes, que partilha o leme artístico e tem a seu cargo a realização (vídeo), são tributários dos elogios.

Uma palavra de apreço merecida a quem deu o corpo ao manifesto e emprestou a alma em palco, os intérpretes Bruno Rodrigues, Cecília Hudec, Diana Bastos Niepce, Diletta Bindi, Joana Gomes, Jorge Granadas, José Marques, Maria Figueiredo e Rui Peixoto.

A CiM – Companhia de Dança responsável pela concepção de “O Aqui” desenvolve uma actividade singular no âmbito da criação artística que visa promover a inclusão em trabalhos onde a dança e a imagem se conjuga, apostando de igual modo no veículo artístico da multidisciplinaridade, num percurso que já tem 10 anos de caminho palmilhado.

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