Após o(s) concerto(s) de demolidor(es) de Patti Smith, já nada seria como antes. Isso era um dado mais do que adquirido. A força da palavra viva, a poderosa criação poética aliada à música, a carga emocional e a presença em palco da norte-americana ficarão como um tracejado na mente para memória futura. Assim, quem se deslocou no sábado, derradeiro dia de concertos, ao Parque da Cidade ainda conseguiu apreciar um bom par de espectáculos de muito bom nível. Ride, Foxygen, Dead Cab for Cutie e a Thurston Moore Band estiveram entre os melhores.

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Manel Cruz jogava em casa, facto nada despiciendo para um bom acolhimento no recinto. O espectáculo “Estação de Serviço” foi alvo da apreciação dos circunstantes, num dia verdadeiramente estival em plena(o) Primavera. Os temas que desfilaram eram oriundos da gesta criativa do músico portuense, dos múltiplos projectos que liderou e integrou, tais como Pluto, Supernada e Foge Foge Bandido. A participação do antigo líder dos Ornatos Violeta revelou-se muito acertada por parte da organização.

Thurston Moore regressou ao Porto um ano depois de ter estado na Casa da Música, num Clubbing de boa memória, que juntou na mesma noite (ainda que tenham tocado separadamente) o músico dos Sonic Youth com Mark Kozelek e o seu projecto Sun Kill Moon. Este retorno, vivenciado por muita gente no Palco ATP, às 18h45, constituiu um dos bons momentos do dia, “Forevermore” e Speak to the Wild” eram das mais aguardadas, o colectivo foi muito para além disso e descarregou todo aquele diapasão sónico, bem ao jeito da ‘banda-mãe’, num concerto que foi do agrado da maioria ‘das testemunhas’ que em pé ou espalhadas, dir-se-ia espraiadas, pelo relvado verdejante do recinto e debaixo de um sol intenso não quiseram perder pitada.

Baxter Dury performs live at NOS Primavera Sound 2015

Logo a seguir, mudança para o Palco Super Bock, onde às 19h50 tocava uma banda que respira à custa do elemento Foxygen, quer dizer, respira quando pode, tal é o frémito e a agitação frenética que se apodera dos californianos, que só param quando o concerto termina. Mas, tal como diz o vocalista dos emergentes Quiet Affair, João Pedro Gama: “O concerto foi uma paródia total em registo de grande performance!“ Não podíamos estar mais de acordo. Sam France, o líder da brigada, é um intérprete quase contorcionista, desconhece-se se percorre os países e os palcos através da agência de viagens Psicotrópicos, mas a verdade é que o front man, de fato cinzento claro e cabelo louro, agita-se e calcorreia como poucos o palco de lés-a-lés. E chega a dar, declaradamente, e perante a audiência, um gole gigante numa garrafa de ‘água da Escócia’.

Jonathan Rado é o “Rick Wakeman de serviço”, com um casaco meio à corredor de motos, meio à índio nos filmes de cowboys, evidencia-se do alto dos teclados. E a bateria, também em boas mãos, fica a cargo de Shaun Fleming, um ex-actor, com uma batida percutida de respeito. O Power Step é incumbência de três cheerleaders que se gingam e dançam o tempo todo. Estão vestidas de azul, de branco e ainda de cinzento. Há dois guitarristas e um baixo a auxiliarem a corporação musical.

“We are The 21st Century Ambassadors of Peace & Music” na génese, “Hot Summer”, Shuggie e a prometida versão de “Let it Be”, dos Beatles deixam-nos, a eles e a nós, de rastos! Em resumo: profissionalismo, capacidade interpretativa musical, performance teatral, novo circo, não faltou lá nada! Ontem foram do(s) melhor(es) que vi(mos)… Podemos morrer descansados, os !!! (Chk Chk Chk) já têm substitutos… E sim, por qualquer motivo, também nos lembramos dos Flaming Lips, de Wayne Coyne, naquele mesmo palco em 2012.

Damien Rice performs live at NOS Primavera Sound 2015

Cerca das 21h00, Damien Rice atrai os ‘súbditos melómanos’ para a toada de cantautor que tende a ocupar o palco principal durante cerca de uma hora. A magia de alguém que apenas de guitarra em punho consegue cativar os circunstantes (e foram muitos) é sempre algo de assinalar. O compositor de “The Blower’s Daughter”, tema que o celebrizou através da inclusão na banda-sonora do filme “Closer”, arrebatou corações no Parque da Cidade.

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O conce(r)ito do NOS Primavera Sound converte os espectadores em autênticas ‘empresas de mudanças’, daí que a mobilidade imperativa do evento nos tenha guiado até aos Death Cab for Cutie, eles que alegadamente por problemas técnicos relacionados com o mau tempo verificado na edição de 2012 não puderam tocar nessa altura, vinham ‘vingar’ essa ausência. E em boa hora o fizeram. “Doors unlocked and Open”, com aquela batida certeira e as guitarras no mesmo trilho galopante, “Black Sun” com aquela pose elegante que os músicos patenteiam em palco, sempre com a voz de Ben Gibbard na linha da frente e o equilíbrio harmónico do baixo, bateria, teclados e guitarra. Estamos convencidos de que até a Enid Blyton gostaria de ter conhecido estes cinco.

Mas há mais para contar “Little Wanderer” é outro exemplo da classe exibida pelos de Washington, tal como já havia sido “Crooked Teeth”, o tal tema que começa com uma guitarra agitada. “ The New Year” é uma ‘desbunda musical’ em estado puro, em que tudo puxa para o mesmo lado, e a verdade é que muita gente entre o público sabe a letra de fio a pavio.

E é com Ben Gibbard nos teclados que a celebração acaba, num tratado de travessia oceânica, com “Transatlanticism” a ser acolhido com euforia. Agora é preciso trazê-los de volta, até porque necessitamos deles “… so much closer”. À mesma hora ‘estrilhavam’ positivamente os Einstürzende Neubauten, de um senhor chamado Blixa Bargeld, que rivalizava com os ‘faltosos de 2012’.

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23h20 no relógio (ou telemóvel) e nova operação de mobilidade até ao Palco Super Bock para ouvir uns senhores tributários do maior respeito e cujo nome dá por Ride. Os britânicos concederam a melhor proposta de composição a combinar o binómio luz e som em todo o festival.

Se em vez do ‘e’ final existisse um ‘a’ entre o ‘r’ e o ‘i… ‘ a combinação seria perfeita, os Ride foram um autêntico ‘Raid’ (os mosquitos também não tiveram hipótese!), o som poderoso das metralhadoras feitas guitarras dispararam shoegaze até mais não poderem. O público não esteve em massa para apreciar a apresentação da banda, a enchente do dia anterior não se repetiu, como é lógico, até porque a capacidade mobilizadora de Patti Smith e de Anthony dispensa comparações. Ainda assim, os Ride tiveram direito um apoio demográfico muito longe do desprezível. E o concerto dos súbditos de sua majestade foi em tudo irrepreensível. Mark Gardener sempre pontual nas entradas de voz e certeiro na guitarra, Andy Bell a (o)usar de virtuosismo na guitarra destilaram solos e distorções controladas por tudo quanto era canto. “Going Blank Again” a abrir e “Leave Them All Behind” deram o mote para um espectáculo sem pontos mortos, de resto, tal como se esperava: instrumental poderoso, som fluido e limpo, estética luminosa de palco preenchida de feixes de luz e direccionais com efeitos acertados em precisão milimétrica com o ritmo musical, fizeram da prestação musical dos Ride um dos momentos do Festival.

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Tempo ainda para espreitar os canadianos The New Pornographers no Palco ATP, às 00h35, e constatar que estavam a ser fielmente acompanhados por uma significativa porção de gente. Os autores de “Bill Bruisers” conseguiram cativar os seus apaniguados mesmo em situação de descarga de decibéis provocada por um “Furacão Electrónico” cuja graça artística (conserva o nome de nascimento Daniel) é Dan Deacon, o nova-iorquino, figura de grande porte apresentou-se com indumentária de futebolista, calções e meias vermelhas, mas jogou sobretudo numa equipa que apostou no ataque em toada experimental, psicadélica e sobretudo electrónica. E é certo, pelo que se viu, que a prestação do norte-americano redundou num legado de fãs.

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À 01h35, os Underworld passaram em revista êxitos passados, para satisfação dos fiéis do género, mas as diatribes sonoras só findaram com Roman Flügel, depois deste tomar as rédeas musicais do rodapé do evento em formato DJ Set.

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Mais uma edição terminada com boa nota para as propostas musicais apresentadas, já fizemos referência às mesmas nesta e em crónicas anteriores (numa mescla e em jeito de reportagem), dispensamos a redundância de o fazer, o NOS Primavera Sound, festival das letras ondulantes à entrada, pautou-se uma vez mais pelo bom comportamento do público, pela preservação do meio ambiente onde se insere, pelo design apurado das estruturas e pela pontualidade das bandas nos concertos. Falta precaver as situações de enchente em termos de alimentação, a praça afecta ao sector não chegou para as encomendas, claro que chega para a ocupação média, mas não para uma adesão superior de público e isso sentiu-se de igual modo nos sanitários. Cinco dedos de uma mão vão ajudar a contabilizar o próximo NOS Primavera Sound. Ficamos à espera e é certo que não será de… Godot!

Texto: João Fernando Arezes
Fotografia: Diogo Baptista

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