“Noite de Outono” é sobre um corpo que definha. Sobre o psicossomático que teima em fazer as contas de um cálculo cujo resultado é a tendência decrescente para o ocaso da existência. O destino inverso ao do embrião. E desde logo, estamos na presença de duas personagens em palco, interpretadas por actores muito respeitáveis: Ana Moreira e António Durães.

Importa acrescentar que a peça em questão se insere na tetralogia que consagra o desafio a que Luís Mestre se propôs: o de encenar trabalhos que versem uma noite por cada uma das quatro estações do ano. Feito este parênteses, o encenador invoca essa mesma ideia supracitada: “O Outono é uma fase descendente da sua vida (fala do personagem), tem a ver com a perda de faculdades físicas e intelectuais”, enfatiza. E completa o raciocínio: “A fase final das nossas vidas é mais atribulada, cansada, é preciso muito sacrifício”.

Na conversa tida após um pequeno ensaio da peça, o escultor de personagens traça a analogia com a actualidade, para explicar a presença de Ana (interpretada pela actriz homónima) em cena, a mulher mais jovem que acompanha esta fase decadente do criador teatral representado por Durães. “As pessoas, hoje em dia, estão à espera de serem testemunhadas, é como colocar fotos no instagram e esperar por uma validação dos outros.” E aí radica a explicação para a existência desta figura feminina: “Ele necessita de alguém como testemunha para esta fase final da sua vida”, conclui. O ‘véu de Ana’ será levantado lá mais para diante.

créditos: José Caldeira

Num breve olhar sobre o palco (está abaixo de nós) descobre-se um ‘caos organizado’ que se espalha pelo território de cena e que contempla coisas tão diversas como carretos de slides, gira-discos, rádio, cassetes de vídeo, livros, muitos livros, dvd’s, entre muitos outros objectos disseminados por um espaço envolvente, iluminado por pequenos candeeiros de escritório, e ocupado por tapetes, 3 ou 4 tapetes – dir-se-ia a preceito, tapetes onde voam as cenas não das “Mil e Uma Noites”, mas de “Noite de Outono”.

O puzzle dramatúrgico, através do qual se constitui a peça, junta episódios marcados pela agitação, por uma certa desordem, e em simultâneo proporciona um encontro entre a arte, com tudo o que lhe está subjacente em termos de matéria criativa e as erupções que ela provoca, e o quotidiano cheio de trivialidades.

créditos: José Caldeira

António Durães, do lado de cá do palco, assume também uma certa fadiga e aproveita o ensejo do Dia Mundial do Teatro: “Estou um bocadinho farto, um bocadinho cansado. Estou num momento de viragem, tal como o personagem que represento!” e prossegue o manifesto verbal: “Este País não quer nada com os artistas!”. “E o que fazer para alterar esse estado das coisas e do mundo em que vivemos?”, perguntam-lhe. Com um olhar directo, em registo de metamorfose ao estado precedente, e a resposta na ponta da língua, atira: “Vamos sair daqui e fazer uma revolução!”

Há momentos ‘nocturnos’ para desfrutar a partir desta quinta-feira (e sexta), mas desconhece-se se Chopin marcará presença.

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