Quando o espectador entra no Teatro Nacional São João (TNSJ) depara-se com um cavalo morto e os intérpretes contemplativos a ladearem o simbólico equídeo, que é a figura dominante do cenário montado para este “Nicht Schlafen” (‘Não Dormir’, em português): a peça que o renomado coreógrafo belga Alain Platel trouxe ao Festival DDD – Dias da Dança. Veio de braço dado com a companhia da qual foi o principal fundador, os incontornáveis Les Ballets C de la B, sediados em Gent, na denominada Flandres Oriental, desde 1984.

Há algo entre um pano-cru e um tecido de serapilheira, esventrado em vários pontos, que funciona como uma espécie de painel, ao qual enquanto espectadores sujeitamos de forma imperativa o nosso olhar. Os bailarinos apresentam-se estáticos, quase em devoção. Cantam em coro, os oito homens e uma mulher que compõem ‘o elenco’. Inicia-se uma luta marcada por uma ferocidade assinalável em palco, com os intervenientes a despojarem-se uns aos outros das vestes nessa refrega. Diga-se de passagem, com rasganços à mistura e sem concessões ternas. A plateia é contemplada com retalhos de diferentes tipos de tecido provenientes do palco.

Entramos numa atmosfera que se afirma através de uma boa dose de conflito tribal. A ambiência que Platel cria nos seus trabalhos coreográficos é sempre marcada por alguma tensão dramática, com momentos de explosão no domínio da manifestação corporal, pautados por um rigor estético a contrastar com o caos em redor, como por exemplo em “VSPRS” e “tauberbach”. “Nicht Schlafen”, por seu turno, não foge a esse cânone de linguagem coerente que marca o conceito do artista. Com o elã de não expor redundâncias face aos trabalhos precedentes.

créditos: Chris Van der Burght

O resultado deste último trabalho baseado, inspirado (e sobretudo muito transpirado) em Gustav Mahler e no tempo vivido pelo autor possui o estilismo de um poema imagético. Com a música a bordar o poema. A espaços há sons achocalhados e danças com pulseiras de guizos, sons de animais, bem como cantos polifónicos africanos entoados por detentores de corpos seminus. Steven Prengels, que tem sido um fiel colaborador musical de Platel, usa de forma sábia o menu melódico para dar fulgor e expressão ao plano coreográfico.

A idolatria a um totem, simbolizado pelo cavalo, bem como às suas características enquanto animal, estão aqui bem patentes, num exemplar talvez tombado no decurso da agitação das batalhas que espelham a agitação sociocultural do século XX. Mais lá para o meio da peça o animal terá um outro exemplar da mesma espécie a fazer-lhe companhia.

A luta torna-se mais refreada, mais esparsa, com os elementos do corpo de bailarinos a ficarem mais dispersos. Agora mais reflexivos, com um tentador silêncio a campear, entretêm-se a recolher os despojos de tecido espalhados pelo palco. Um deles volta a segurar um enorme cajado enquanto outros dois traduzem o inverso da luta greco-romana (costas com costas). Insinua-se uma dimensão sensorial e espiritual.

créditos: Chris Van der Burght

Os jogos dos corpos entrelaçados sucedem-se em movimentos ora agitados, ora sincopados. Quando procedem a uma união grupal o som do ‘colectivo lírico’ afirma-se quase operático através do canto, dos gestos e dos movimentos.

As movimentações expressivas sucedem-se a demonstrarem as infinitas possibilidades do corpo enquanto linguagem. Expressões de um quase transe, numa espécie de êxtase que desemboca à boca de cena. Há episódios de doma

créditos: Chris Van der Burght

dores de cavalos a desfilarem no estrado. Uma alegria celebrativa invade-os em forma de catarse, a eles que já há algum tempo haviam invadido a plateia. No final são tributados com uma ovação muito merecida que não terá ficado muito distante de uns cinco minutos dispensados pela audiência.

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