Miguel & Zambujo – Uma firma musical de (en)cantar coliseus

Domingo à noite. Coliseu do Porto repleto de gente de faixas etárias diversificadas. Um burburinho crescente faz-se ouvir por toda a sala, acompanhado de um frenesim na busca do lugar certo por parte de alguns retardatários. O recorde de 17 concertos e, por conseguinte, igual número de datas agendadas para os coliseus do Porto e Lisboa, constituiu um fenómeno imbatível, pelo menos até aos dias que correm. Falta saber se será apenas um fenómeno conjuntural. Sucesso de época ou não, já ninguém retira semelhante distinção aos dois músicos, um alentejano e outro tripeiro.

Com um atraso significativo, as luzes apagam-se e, numa toada à Tó Trips (Dead Combo), Miguel Araújo desenha os acordes de “Foi Deus”, um dos temas mais icónicos cantados pela diva do fado Amália Rodrigues. A luz que incide em Miguel transita para Zambujo, que através de uma voz límpida percorre a letra, com recurso a um canto embalado. Uma génese banhada por alguma soturnidade, rompida pela voz luminosa do alentejano.

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Em “A Deusa da Minha Rua” o palco ganha expressão visual num esplendor de azul que permite vislumbrar o cenário feito de uma sucessão de escadas usadas na vindima da Sogrape, veio a saber-se disso pelo anúncio posterior de Miguel Araújo. Certo é que a decoração prima pela simplicidade e bom gosto e aquele amontoado de escadas a fazer lembrar uma estrutura de andaimes, com pequenas luzes penduradas, auxiliou e de que maneira na criação de um ambiente mais intimista.

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Adivinhava-se a toada de diálogo bem-disposto entre os dois músicos e “Recantiga” entra assim como mel na sopa. O público, sobretudo o feminino, já provou saber as letras de cor e assume a condição de pano de fundo sonoro a fazer de coro. O tema da autoria do cantor tripeiro tem direito a um solo acompanhado de palmas. As guitarras e as vozes ganham lastro crescente no concerto.

A alternância de vozes ganha intensidade em “Romaria de Santa Eufémia”, tema cuja música foi composta em parceria. A conjugação do(s) canto(s) resulta a preceito. “Zorro” herói de aventuras é carregado para estrado pouco depois e soa quase a bossa nova. Segue-se-lhe “José”, a tal música com que Miguel Araújo brinca ao dizer que “É a música de um bípede…”.

A audiência vai anuindo com agrado à toada musical. “Valsa do Vai e Não Vás”, de Samuel Úria, revela boas projecções de voz por parte dos intervenientes e tem direito ao afamado assobio de Zambujo que faz culminar com este seu silvo vocal a simbólica música “We All Stand Together”, para gáudio da assistência.

“Não imaginam como foi difícil meter um gajo do Norte a cantar à alentejana!” atira Miguel Araújo antes de “Fui Colher Uma Romã”. O resultado do desafio traduziu-se perante o público em suavidade e harmonia.  “Acorda Maria, Acorda” é mais um tributo ao Alentejo.

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O concerto vai ganhando alicerce. As vozes, de timbre mais grave no caso de Miguel Araújo e mais agudo no de Zambujo, casam bem. E o elã de intimismo vai conquistando as pessoas paulatinamente. Até que Bob Dylan diz presente à chamada, com “Don´t Think Twice, It’s All Right” a evocar o incontornável músico norte-americano cai bem entre o público.

Evoca-se a figura do célebre Max, cantor da não menos afamada “A Mula da Cooperativa”. “Rosinha dos Limões”, “E Tu Gostavas de Mim” e “ Fado Dançado” marcam aquilo que se poderá denominar como a primeira metade do espectáculo.

E assim, o resultado do binómio musical prossegue em bom-tom com “Despiu a Saudade”, composição musical que António Zambujo concebeu para Ana Moura. O momento seguinte revela-se como um dos pontos altos do concerto: “Cucurucucu Paloma”, o tema do mexicano Tomás Mendéz, celebrizado por Caetano Veloso (sobretudo com a inclusão do tema no filme de Almodóvar “Hable Con Ella”), com o músico alentejano em grande na interpretação. “Cielito Lindo” afina pelo mesmo diapasão, parece que estamos numa celebração casamenteira de um grupo de mariachi, só faltam os sombreros.

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“Maria Bonita” antecede “Pica do 7”, a música de maior sucesso de Zambujo, que deve dizer-se brilha em conformidade tocada na invicta, afinal a primeira urbe na Península Ibérica a dispor de ‘eléctrico’ enquanto meio de transporte público. O público canta e exulta com o tema e aplaude insistentemente.

A partir daqui dá-se uma incursão rapsódica, marcada por um diálogo desafiante e dialéctico entre os dois músicos que versa alguns dos êxitos de canções do Brasil. “Felicidade” e “Rancho Fundo” são dois destacados exemplos dessa pequena viagem transatlântica. Nessa altura o palco está vestido de luzinhas brancas brilhantes que bordam as partes laterais das escadas do cenário. E as canções soam bem mesmo cantadas do lado de cá em português deste lado do Atlântico.

Em “Algo Estranho Acontece” há mesmo algo estranho a acontecer: Zambujo a tocar guitarra eléctrica e Miguel Araújo ‘a massajar’ um contrabaixo. Pontuada por uma aveludada suavidade rítmica, quase jazzy a música inaugura a fase final do espectáculo. Em “Reader’s Digest” o alentejano muda para uma guitarra acústica e o tripeiro permanece no contrabaixo, o público, por seu turno, ‘toca… palmas’!

Tempo ainda para a jornada musical entrar numa “Balada Astral”, música com assinatura de Miguel Araújo e entoada por quase todos. Em “Os Maridos das Outras” o coro feminino é universal.

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E é com “Flagrante” que tudo acaba, em termos oficiais, mas como sempre se impõe o público do Porto reclamou o encore. Zambujo e Miguel Araújo regressam e arriscam num piano encostado ao lado direito do palco, e ainda não utilizado, “Bohemian  Rhapsody” dos Queen, e claro aí percebe-se quão difícil é cantar aquele clássico sem se ser Freddie Mercury. A dupla dá-se a mais um momento de brincadeira. Era cedo apesar de já passar da meia-noite e Miguel Araújo achou que ainda era tempo de ‘nos convidar para irmos ver os aviões’ com ele. Zambujo preferiu ir de “Lambreta”. Ninguém os deixou partir sem antes (nos) brindarem com o canto de um “Porto Sentido”.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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