Michael Nyman na Casa da Música – Um vasto território sensorial…

Faltam cerca de dez minutos para as 21h00, hora marcada para o espectáculo de Michael Nyman, e é possível ver o músico britânico a partir da parte exterior do ‘Diamante Meteórico’ da Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista): refastelado num cadeirão, com um copo de vinho, que aparenta ser tinto, na mão. Um momento de degustação zen, naturalmente em toada descontraída.

Lá dentro há um burburinho que toma conta da sala, o concerto inicia com uma pontualidade quase cirúrgica. Trajado de negro, o músico senta-se e percorre as teclas. As folhas de pauta, as partituras, de Nyman serão uma espécie de teletransporte dos espectadores nessa viagem pela vastidão sensorial que as teclas do pianista inglês percorrem. Reconhecem-se no repertório alguns temas de bandas sonoras, como são os casos dos “Livros de Próspero”, de Peter Greenaway, “Diary of Love” (Diário de Anne Frank), de “À Propos de Nice”, de Jean Vigo, e coisas que nunca lhe ouvimos tocar por cá.

Naturalmente que temas que o tempo imortalizou e que integram a banda-sonora do filme “O Piano”, de Jane Campion, foram os mais celebrados ao longo dos 75 minutos do concerto. Uma epifania sem direito a palmas entre os temas, desde logo porque o músico não fez quase concessão disso, procedeu a uma abordagem em sequência rápida entre os diversos temas e os intervalos entre os mesmos foram quase imperceptíveis.

A incidência da luz conferiu um brilho especial às folhas depositadas na parte cimeira ao teclado. Vista de cima, do camarote, e enquanto Nyman afaga o dominó branco e preto das teclas, a Sala Suggia parece um salpicado de pequenas luzes, as mesmas que ladeiam os lugares. O silêncio é quase reverencial, interrompido aqui e ali por uma tosse tímida.

E sim, percebe-se que o diapasão musical é sugestivamente fílmico em todo o seu esplendor, mas quando a jornada desembarca em “Big My Secret”, “The Heart Asks Pleasure First”, “The Sacrifice” ou “The Scent of Love”, todos eles temas da banda-sonora mais conhecida do também compositor britânico, há um envolvimento quase tácito da plateia, verifica-se uma espécie de telepatia colectiva na assistência em torno daquilo que o pianista solitário está a tocar.

Há uma magia que paira no ar quando o piano entra naquela toada de mansidão e Nyman vai atirando as folhas para o chão à medida que as preenche de música. De tecla em tecla, numa ilustração sonora cujo embalo prossegue em modo de estética sonora distinta e aveludada, somos enleados pelas composições. Ainda assim há gente na sala refém das actualizações no telemóvel.

A espaços há lugar para uma ou outra mudança tomada pela brusquidão: onde se percebe matraquear das teclas e uma toada quase rapsódica dos temas. No final contam-se três regressos ao palco, é a parte em que o encore passa a ser multiplicado por três com o público de pé a saudar a prestação e o músico corresponde às palmas, devolvendo a homenagem de que foi alvo. Estará de regresso a este mesmo palco a 22 de Maio, após passagens por Sintra, Coimbra e Ponta Delgada.

Texto: João Fernando Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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