Mariza – Uma ‘Fera’ no Coliseu em trânsito para ‘a Arena’ (MEO)

O casal Iker Casilhas - Sara Carbonero também presente no Coliseu do Porto

Coliseu do Porto, quinta-feira, 26 de Novembro, 22h00, sala praticamente cheia para assistir ao concerto de apresentação do álbum “Mundo”, o mais recente trabalho de Mariza. É possível vislumbrar uma malha de gente que torna o espaço quase repleto. São pessoas cuja faixa etária prevalecente gravita nos 30, 40 anos e daí para cima. Sim, há gente ainda mais nova disposta a presenciar o espectáculo, embora em menor número.

Dois feixes de luz iluminam os guitarristas, os primeiros a entrar, como se impõe. Uma extensa salva de palmas invade a sala quando se vê um vulto de cabelo curto e matizado de um louro algo esbranquiçado. Pega no microfone a arrisca praticamente à capela, tendo a voz como instrumento privilegiado “Fadista Louco”. Essa mesma voz irrompe pela sala em tom delicado mas possante e sai-lhe com alma e sentimento. Mau grado a penumbra, percebe-se-lhe a indumentária colada ao vulto: está trajada em tons de um cinzento que com a incidência da luz ora se torna praticamente negro, ora parece um azul escuro pouco definível,  a verdade é que o vestido contrasta com a cor do cabelo. Cai-lhe bem o traje na figura esguia e elegante.

“Anda o sol na minha rua” soa alegre e agitada e logo em seguida entra cena, melhor, em palco, “Maldição”. Sentada num banco alto ‘à boca de cena’ (em perfeita conformidade com a altura da cantora) e iluminada por um foco incidente de luz, a fadista assume o protagonismo mas deixa respirar, e de que maneira, os três músicos que acompanham nesta parte inicial, mais tarde juntar-se-á um baterista/percussionista. Mariza faz-se acompanhar ‘da nata da nata’: Pedro Jóia na guitarra acústica, José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Yanni no baixo e Vicky Marques na bateria.

Após os aplausos prolongados que a presenteiam, bem como aos músicos, afirma: “É muito bom apresentar o meu novo álbum aqui e ser tão bem recebida.” Repetem-se os aplausos e a fadista evoca nesta altura Beatriz da Conceição, acabada de partir. Aproveita para fazer pedagogia e falar do fado que é um estilo cujas origens e o contexto cultural inerente são bem mais do que centenários. Revela-se particularmente comunicadora durante o espectáculo e nota-se que a sua espontaneidade a falar cria laços de empatia com o público.

O som está com o volume a preceito e sai nítido, praticamente perfeito. A guitarra de José Manuel Neto faz brotar sentimento, Pedro Jóia está concentrado no ritmo e Yanni continua bem jeito de um profissional descontraído mas que sabe o que faz, Mariza, por seu turno, gesticula qual gaiata. “Dona Rosa” e “Primavera” estão carimbadas com a chancela do denominado fado tradicional. A fadista desce a escadaria para um círculo de luz e a voz escapa-se-lhe arrebatada. Vox populis: um vozeirão.

The portuguese fado Singer Mariza performs live at Coliseu do Porto

Verifica-se um interregno, mudança de cenário para um ‘portão teatral’ aveludado de cor vermelha, com fundo em folhos da mesma cor. É nesta fase que os músicos passam a ser quatro, com a entrada de Vick Marques em cena. Mariza sofre também uma metamorfose no vestuário e também ela afina por idêntico ‘diapasão cromático’.

Em “Missangas”, do álbum Mundo, verifica-se uma miscenização rítmica, com a assimilação das sonoridades africanas, a remeter para as origens da cantora. Apresenta o tema e aproveita o ensejo para dizer que o cosmos musical que Mundo consubstancia “Reflecte tudo aquilo que eu fui nos últimos anos.”

Em boa verdade, Mariza revela esta cosmogonia musical do derradeiro álbum e que a espaços possui na sua essência algo a namorar a grande música ligeira portuguesa, aquela que (ou)víamos outrora nos Festivais da Canção e que com o seu fatal desaparecimento possibilitou a eclosão da denominada música pimba. “Adeus”, cuja composição está a cargo de Pedro Jóia e a letra é tributária de Cabral do Nascimento, possui essa leveza dos arranjos e a robustez do poema. Com a beleza daquele trinar da guitarra portuguesa tão identitário.

E, sim, sem aquilo que aparentemente poderíamos julgar por ‘lamechices’, convoca o marido como o mote inspirador do tema “Sem Ti”. Soa à supracitada música ligeira, com laivos de Bossa Nova. Há uma intensidade na percussão e o contraste na paleta de cores entre as luzes azuis e cenário vermelho.

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Em “Sombra” regressa mais ao registo de fado negro e há um vestido que esvoaça ao vento entrecortado por estórias. O reportório de Mundo ficaria quase completo com “Alma” (com a guitarra a assumir a toada vibrante do flamenco) e “Rio de Mágoa”. Em “Caprichosa” arrisca pela primeira vez no concerto o castelhano e sai-se bem, para agrado da compreensão do casal Iker Casilhas – Sara Carbonero, também presente no Coliseu do Porto, com o guardião a tentar ‘defender’ a privacidade da dupla (compreensível, pois ninguém os deixaria ver o espectáculo em paz) desta vez com as cortinas, em vez das redes (ver foto).

Claro que o público teria de participar num desafio musical e foi isso que sucedeu em “Padoce de Céu Azul”, em plena interacção com a plateia, Mariza ensaiou o refrão com os presentes, fazendo recurso a um tema que contempla as origens africanas da fadista e aludiu a isso mesmo: “Nos meus discos há sempre um perfume de África, neste caso… foi mesmo um frasco de perfume!”, justificou. As damas parecem ter-se saído melhor do que os cavalheiros no concurso do refrão.

Duas das mais emblemáticas entram já na fase mais derradeira: “Chuva” e “Barco Negro”, às quais a cantora se entrega com especial afeição. Na última, dá-se um dos momentos altos do concerto: enquanto Vicky Marques marca o ritmo, Mariza enceta um diálogo voz-percussão de elevado índice qualitativo. A voz é impressionante, a interpretação vocal atinge um nível prodigioso. O solo do baterista não lhe fica atrás. Só voz e bateria para um fado são de facto invulgares.

E o público está em êxtase, completamente devoto e rendido à interpretação da ‘nova musa do fado’ e já se levantou quase por inteiro das cadeiras, para acompanhar de pé os últimos instantes reservados a “Rosa Branca” – isto na versão de Mariza, o título original da letra de José Guimarães é “De Rosa ao Peito” – e “Paixão”, também do álbum Mundo.

O encore é reclamado com aquele bater de pés no estrado, tão típico do público que acorre à mítica sala portuense, há palmas, assobios e gritos, tudo serve para trazer de novo a fadista ao palco.

Visivelmente satisfeita, Mariza dirige-se à plateia e decide cumprimentar a família que ali se encontra e carrega ao colo o filho, alvo da maior homenagem nesta incursão musical nocturna do Coliseu. Surgem imagens de grande cumplicidade entre os dois no ecrã do palco que o público testemunhou numa inusitada abertura da vida privada da artista, que assume isso como o comum dos mortais e como parte integrante do espectáculo. E em abono da verdade a mensagem foi que o seu Mundo esteve mesmo em família.

The portuguese fado Singer Mariza performs live at Coliseu do Porto

Novo pedido de vinda ao palco, que acaba por ser satisfeito. E a icónica “Gente da Minha Terra” faz com que percorra a sala pelo corredor central da plateia com acenos de adesão por parte do público. “Saudade Solta” faz cair o pano e confettis. Duas horas e meia depois, a menina da Mouraria, nascida em Moçambique, deixa uma vez mais o Coliseu do Porto a seus pés. Na noite seguinte repetiria o desígnio, com a mesma trupe de músicos virtuosos e a fazer uso do seu instrumento prodigioso: uma voz arrebatadora. A Fera do Coliseu volta a ser Fera na Arena (MEO) hoje.

Texto: João Arezes

Fotos: Diogo Baptista

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